Wednesday, October 12, 2005

Sinal amarelo do FED

CELSO MING
ming@estado.com.br


O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) passou ontem o recibo que os observadores mais temiam: o de que a inflação no mercado americano preocupa e vai exigir uma dosagem maior de juros para contê-la.
A advertência está na ata da última reunião do Copom deles, conhecido pela sigla Fomc (Federal Open Market Committee), realizada dia 20 de setembro. As principais preocupações do Fed estão concentradas sobre os efeitos da alta do petróleo e do furacão Katrina.
Na semana passada, as primeiras informações de que a inflação americana está atacando o setor de serviços causou um salseiro no mercado internacional: certo volume de capitais deixou as aplicações em títulos de risco e refugiou-se em ativos denominados em dólares. O pressuposto foi o de que os juros terão de subir mais do que o esperado e isso tornaria mais atraentes os títulos de dívida dos Estados Unidos. Como esses temores já estavam nos preços, ontem o mercado financeiro teve reações apenas espasmódicas ao anúncio da ata.
O maior medo do mercado financeiro é de que o reforço dos juros provoque nova arrumação nas carteiras de ativos dos aplicadores financeiros, o que implicaria queda das bolsas internacionais e abandono de títulos de dívida de países emergentes. É quando os Estados Unidos começam a tossir e o resto do mundo pega pneumonia.
Por trás disso há duas coisas: a estocada do preço do petróleo e o modo como trabalha o Fed.
A novidade é a natureza do atual choque do petróleo. Até recentemente, a tensão estava no lado da oferta. A Opep, que controla 40% do petróleo produzido no mundo, vinha abrindo ou fechando suas torneiras como bem entendia. Mas a crise mudou de lado: está mais na demanda do que na oferta; dadas as pressões dos países asiáticos, especialmente China, o consumo mundial não cresce mais só a 2% ao ano; cresce a 4%.
Ainda assim, há mais dois problemas no lado da oferta: (1) Hoje há menos disponibilidade de petróleo leve e mais de petróleo pesado. Como as refinarias americanas estão calibradas para craquear petróleo leve, teriam de passar por uma reciclagem tecnológica, coisa que não aconteceu até agora. (2) Os furacões Katrina e Rita paralisaram a maior parte das instalações e refinarias do Golfo do México e se tornaram o principal fator de alta imediata dos preços.
Agora, é preciso falar de como opera o Fed. Ao contrário do que se repete no Brasil, a política monetária do Fed funciona com metas de inflação. É verdade que a lei 'Federal Reserve Act', seção 2A (Objetivos da Política Monetária), de 1913, exige que os juros sejam fixados com base em dois parâmetros: evolu


OS EFEITOS NOS PREÇOS TÊM DE SER COMBATIDOS COM MAIS JUROS


ção da inflação e evolução do mercado de trabalho. À parte a retórica, o que realmente conta é o comportamento dos preços: cada vez que a inflação americana ameaça passar dos 2% ao ano, o Fed aumenta os juros para trazê-la de volta à meta.
Para aferir se a inflação está ou não sob controle, o Fed avalia o comportamento do núcleo do Índice de Preços ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês). Isto é, para efeito de definição dos juros, a alta do petróleo e as anomalias sazonais são, num primeiro momento, expurgadas do índice de inflação. No entanto a alta do petróleo produz efeitos secundários nos preços. Isso ocorre, por exemplo, quando o encanador cobra mais pela prestação de serviço para compensar-se do aumento da gasolina que movimenta seu furgão ou quando sobem os preços do cimento porque dispararam os preços do óleo combustível usado na sua fabricação. Esses efeitos não escapam do núcleo da inflação e têm de ser combatidos com mais juros.
O Fed deve estar levando em conta as alterações no comportamento dos agentes econômicos que fazem seus preços (as empresas). Até agora, apesar da alta do petróleo, a inflação americana esteve bem comportada graças a três fatores: (1) o efeito China, cujos produtos têm atravessado as fronteiras dos Estados Unidos a preços bem mais baixos; (2) os altos ganhos de produtividade do setor industrial, ainda em conseqüência do emprego de Tecnologia de Informação, que dispensa instalações, estoques, capital e mão-de-obra; e (3) as margens relativamente mais altas dos últimos anos, que permitiram absorver custos mais altos com derivados de petróleo e outras fontes de energia.