Sunday, October 02, 2005

PT ORIENTAVA TESTEMUNHAS - CELSO DANIEL!!!

PT orientava depoimentos de testemunhas do caso Celso Daniel Lúcio Vaz

Gravações entregues a integrantes da CPI dos Bingos revelam que lideranças do PT orientavam os depoimentos de testemunhas do caso Celso Daniel, ex-prefeito de Santo André (SP) assassinato em janeiro de 2002. O chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Gilberto Carvalho, então secretário de Governo de Santo André, mantinha reuniões com as testemunhas, acompanhado do advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, antes dos depoimentos. Carvalho também trocou vários telefonemas com Ivone de Santana, namorada de Celso Daniel.

A escuta telefônica foi feita pela Polícia Federal com autorização da Justiça. Depois, as gravações foram consideradas ilegais, porque a polícia fez o pedido de escuta afirmando que estaria investigando traficantes, o que não era verdade. O juiz João Carlos da Rocha Mattos, responsável pelo caso na época, informou que teria destruído as fitas. Cópias das gravações chegaram agora às mãos de integrantes da CPI dos Bingos, que investiga também o caso Celso Daniel.

Em depoimento prestado no dia 1º de setembro, um irmão do prefeito assassinado, João Francisco Daniel, afirmou que Gilberto Carvalho teria feito parte de um esquema ilegal de arrecadação de dinheiro para o PT. O chefe de gabinete de Lula também esteve na CPI e negou todas as acusações. Nas próximas semanas, deverá ser feita uma acareação entre os dois na comissão.

Procurado pelo Correio Braziliense na última sexta-feira, Carvalho disse que reconhecia os diálogos transcritos pela perícia da Polícia Federal. Negou apenas ter participado de uma conversa em que é acertada a entrega de dinheiro vivo. Afirmou que uma perícia poderá comprovar que ele não é um dos autores desse diálogo.

Preparação
Numa conversa com o então secretário de Serviços Municipais de Santo André, Klinger Souza, Carvalho relata que estava chegando da casa de Greenhalgh, porque “os meninos” prestaram depoimento naquele dia. “Nós fomos prepará-los lá, um pouco”, diz o então secretário de Governo. Em seguida, acrescenta: “Ontem, tive uma conversa com o Zé Dirceu, para a gente discutir um pouco a nossa tática. O partido vai entrar meio pesado agora, viu?” Klinger concorda com a estratégia: “Acho legal essa postura de ir para cima, de ameaçar mesmo com investigação paralela”.

Em conversa com a namorada de Celso Daniel, Ivone de Santana, o ex-secretário de Saúde do município, Michel Mindrisz, faz uma confidência: “Ainda não falei para ninguém sobre isso, mas pode ser que haja uma tendência de algumas pessoas do governo preferir… deixar isso…” Ivone completa: “Oculto, nebuloso, né?” Mindrisz segue o seu raciocínio: “Nebuloso. Não por conivência. Não acho isso. Mas porque ficar em cima dá muito desgaste, briga com a polícia, tensões no partido e tudo mais”.

Carvalho afirmou na última sexta que não teria havido uma tentativa de mudar ou condicionar os depoimentos, mas sim de orientar o comportamento das testemunhas. “Havia uma preocupação, porque eram pessoas simples, que nunca haviam entrado num tribunal. A gente estava preocupado que eles não falassem loucuras. Não tínhamos medo que falassem a verdade, mas que não fizessem suposições. Queremos a verdade, sempre”.

Sobre as acusações feitas pelo irmão de Celso Daniel, o chefe de gabinete de Lula tem uma resposta curta: “Ele vai ter que provar”. Segundo João Francisco, Carvalho teria afirmado, ainda no velório do irmão, que teria recebido R$ 1,2 milhão em doações de empresários. E teria levado o dinheiro para o então presidente nacional do PT, deputado José Dirceu (SP). O próprio Carvalho relembra a acusação e comenta: “Fico pedindo a Deus para me iluminar. Fizemos uma gestão maravilhosa em Santo André. Mas ficou um rastro de tristeza e angústia que até hoje perdura”.

Trechos das gravações de Santo André
• Gilberto Carvalho conversa com Sérgio Gomes da Silva, o Sombra Gilberto
– Eu já falei com o Fernandinho agora de manhã. O Eduardo (Luiz Eduardo Greenhalgh) quer conversar com os três antes do depoimento. Nós estamos marcando a 1h. Ontem, eu falei com o Tiãozinho também. Marcamos a 1h na casa do Luiz Eduardo. Eu vou estar lá também.

Sérgio – Como é que vai fazer, porque o Donizetti vai estar junto também?

Gilberto – Então, eu vou ligar para o Donizetti. (...) Eu quero ver se o Luiz Eduardo acompanha, além do Rui, o outro advogado. (...)

Gilberto – Isso para mim é um diagnóstico claro. Os caras estão querendo jogar todo o desgaste que estão sofrendo para cima de nós, em cima do PT. O que nós vamos fazer é falar com o Alckmin direto, falar publicamente.

• Gilberto fala com Ivone de Santana, namorada de Celso Daniel

Gilberto – Está complicado o negócio. Não tem nenhuma novidade. Estou desanimado agora. Os caras continuam a plantar minhoca na cabeça (...) A Polícia Federal está nessa história de achar que é crime (…) que pode ser crime de vingança. O pessoal da Civil também, uma parte fica enchendo o saco. O Luiz (Eduardo Greennhalgh) acha que eles estão dando o nome dos caras para os caras fugirem, para demorar mais para apanhar. Enquanto isso, continuam especulando. (…)

Ivone – Você vai viajar?

Gilberto – Vou ficar por aqui. Mas, amanhã, vou falar com o Lula, com o Zé Dirceu, para ver como a gente reage a isso, dar uma discutida.

Ivone – Descansa. Vamos ver se a gente aproveita esse carnaval para recuperar as forças.

Klinger Souza, ex-secretário de Serviços Municipais, conversa com Gilberto

Gilberto – Voltei agora da casa do Luiz Eduardo, porque os meninos foram depor hoje.

Klinger – Estou sabendo. Eu conversei com eles hoje de manhã. Eles estavam preocupados.

Gilberto – Nós fomos prepará-los lá, um pouco.

Klinger – Está certo. Mas eu acho que é tranqüilo. É aquela história dos caras quererem mostrar serviço, porque agora ficam ampliando demais esse negócio. É uma coisa maluca.

Gilberto – Ontem, tive uma conversa com o Zé Dirceu, levei até o João (Avamileno)comigo, para a gente discutir um pouco a nossa tática. O partido vai entrar meio pesado agora, viu?

Klinger – É, eu ouvi as últimas declarações do Zé. No Cidade Alerta (programa de televisão), ele fez uma entrevista já bastante contundente. Eu li a reportagem dele também no Diário, na segunda-feira. Eu acho que essa linha é uma linha importante, até porque já está chegando quase um mês, a imprensa já está esfriando um pouco. Então, se a gente não tiver um tipo de ação política, as coisas vão cair no esquecimento. E, enquanto isso, a política fica tripudiando, fazendo inquirições que são superlaterais ao caso...

Gilberto – Que dão margem para um monte de bobagem...

Klinger – Estão… acho legal essa postura de ir para cima, de ameaçar mesmo com investigação paralela.

• Diálogo sem autores identificados

A – Eu estou te mandando aquele negócio lá, que a gente combinou. Tá bom? A minha parte. O Fernando que vai te levar, tá? Está num envelope.

B – É em numerário?

A – É em numerário. Ele vai chegar aí e vai te procurar. E, de alguma forma, você encontra com ele aí no Paço.

B – Tá, se não tiver aqui, peço para ele vir aqui no 10º andar. Não tem problema.

A —Não, ele vai onde você estiver, tá bom?