Monday, October 10, 2005

O PODER DE MOBILIZAÇÃO FOI SUBESTIMADO!

Erro de estratégia de Lula impede que desigualdade diminua, diz sociólogoFrancisco Góes

O sociólogo italiano Giovanni Arrighi, professor da universidade Johns Hopkins, nos EUA, avalia que as dificuldades do governo Lula para reduzir desigualdades sociais estão associadas a uma estratégia errada de poder. "O PT errou ao subestimar o poder que o partido poderia ter para mobilizar as massas por meio de reformas sociais e da democracia participativa. Ao mesmo tempo, superestimou o poder das multinacionais e instituições financeiras."

Em sua décima visita ao Brasil, onde tem vários livros publicados, entre os quais "O Longo Século XX", no qual explica as crises pelas quais passa o capital financeiro, Arrighi questionou o fato de o país não conseguir levar adiante a reforma agrária. Disse ficar impressionado com o "dualismo" que marca o país, e que se reflete na desigualdade entre regiões e classes sociais. "Se focalizar só em política monetária e fiscal, não vai fazer nada (para reduzir o dualismo). Não é questão de economia, mas um problema social real", afirmou.

Ele fez os comentários ontem, após participar de painel do seminário "Reggen 2005 Alternativas à Globalização: potências emergentes e os novos caminhos da modernidade", aberto no sábado e que vai até quinta-feira, no Rio.

Na apresentação para acadêmicos e estudantes, o sociólogo italiano falou sobre globalização, termo que, segundo ele, foi "seqüestrado" por economistas liberais. Criou-se a idéia de que não havia alternativa à globalização, lembrou. Os EUA, continuou Arrighi, depois da década de 90 rejeitaram a globalização em detrimento do poder militar. "Acho que a hegemonia americana acabou. Agora há dominação sem hegemonia."

Sobre a possibilidade de a China poder substituir os EUA como potência hegemônica, Arrighi considera que os chineses não querem falar em hegemonia, pois entendem o termo como dominação. "Não é como nos EUA, em que a hegemonia foi baseada na idéia de que todos poderiam 'ser iguais a nós', a americanização do mundo", salientou. Arrighi comparou o erro estratégico do governo Lula de subestimar a mobilização das massas via reformas sociais com a realidade enfrentada pelos Estados Unidos e pela China.

Os EUA, comparou, enfrentam dificuldades no campo político-militar, porque superestimaram o seu poder. Já a China optou por não superavaliar a sua força, baseada em população de 1,3 bilhão de habitantes, e seguiu a estratégia de manter um perfil baixo, de respeito aos EUA. De forma paralela, observou, a China teve sucesso em atrair capital, mas sempre sob as condições deles ( chineses).

O mesmo não corre na América Latina, na avaliação de Arrighi. "O governo Lula não é o único da esquerda no Terceiro Mundo que não está sendo duro o suficiente em suas negociações", afirmou. Ele diz não entender por que, às vezes, os governos fazem concessões que não precisariam fazer, e acrescentou que não se pode construir um projeto político com base na incorruptibilidade das pessoas. "Todos os sistemas políticos são basicamente corruptos."
Em uma análise geopolítica, ele afirmou que não é o Sul que precisa do Norte, mas o Norte que precisa do Sul. Para Arrighi, idéias segundo as quais o Sul precisa do dinheiro do Norte não passam de mitos e podem significar a existência de complexos de inferioridade.

Ao comentar idéias de "O Longo Século XX", defendeu o papel do mercado e do capital financeiro como fator de redistribuição de recursos entre setores da economia. Alertou, porém, para a dificuldade de separar o papel útil do capital financeiro de seu papel especulativo, e afirmou que muitas vezes é preciso ir contra a maré. "Às vezes, o país tem que enfrentar crise financeira a curto prazo, mas em outras é melhor arrancar o dente e sofrer do que prosseguir", afirmou, defendendo, em certos casos, o caminho da moratória da dívida.

Ele citou o caso da África que, em 1982, aceitou condições de ajuste estrutural para não ficar inadimplente em sua dívida, e como resultado enfrentou uma crise mais longa e profunda. "Se tivessem entrando em inadimplência em 1982, teriam crise profunda por dois ou três anos e depois teriam as mãos limpas sem ter que passar por um ajuste, que foi a principal causa da crise dos 90 enfrentada pela África."
Valor Online