Wednesday, October 12, 2005

O dinheiro ou a vida

Enquanto a juíza da 14ª Vara da Justiça Federal concedia liminar suspendendo a licença prévia emitida pelo Ibama, em abril, autorizando as obras do desvio das águas do São Francisco, o bispo de Barra (BA), Luís Flávio Cappio, suspendia temporariamente a greve de fome que levou o governo a adiar o início da transposição do rio, prevista para este mês de outubro. Após um acordo que envolve o aprofundamento das discussões em torno do projeto, o ministro das Relações Institucionais do governo, Jacques Wagner, interpelado, negou o trato: 'Você viu alguém falar em suspensão ou adiamento?' Por sua vez, o bispo reagiu indignado à declaração do ministro de Lula: 'Se ele falou isso, ele deu uma declaração mentirosa, porque foi disso que nós tratamos.' Não se sabe ainda se o bispo, 'em luta pela vida do São Francisco', virá a se tornar mais um mártir nos tempos do problemático governo petista.

Digo 'mais um' porque, em abril de 2004, o ajudante de pedreiro José Antonio de Souza, de 30 anos, casado, desempregado, depois de vender o barraco onde morava, em Cariacica, no Espírito Santo, deixou a mulher grávida e uma filha de 8 anos com a sogra e rumou para Brasília, na esperança de encontrar um dos 10 milhões de empregos prometidos, à época, pelo presidente Lula.José era um brasileiro corajoso. E procurava espelhar-se no exemplo do operário que chegou ao posto de primeiro mandatário da Nação. Assim, confiante, deixou R$ 200 com a mulher, Maria das Dores, de 25 anos, e partiu de ônibus para a capital federal. Lá, depois de muitas rodopios, instalouse na Praça dos Três Poderes.Querendo chamar a atenção de Lula, expôs num cartaz o seu drama de desempregado (o mesmo de 13 milhões de brasileiros): 'Senhor Presidente - Vendi barraco por R$ 800 para falar com você. Roubaram meus documentos, tiraram meu direito de cidadania e estão armando um monte de problemas para mim. Estou perdendo a minha família e os meus direitos de cidadão.' Em que pese o tom dramático, ninguém em Brasília deu importância ao apelo do sombrio José. Então, numa atitude de protesto, à luz da manhã, ele embebeu o corpo em álcool e ateou fogo nas próprias carnes, diante de um Palácio do Planalto indiferente ao sacrifício. Levado ao hospital, José morreu em menos de 24 horas.Agora, ano e meio depois da imolação do pedreiro, dom Luís, peregrino franciscano que assume a postura pacifista de um Gandhi, procura chamar a atenção do País para o que considera uma obra insana, que qualifica de 'hidronegócio' altamente questionável: a transposição das águas do Rio São Francisco.
O bispo de Barra não é um Zé qualquer: é economista, vive há 30 anos na região e, depois de percorrer, a pé, da nascente à foz do rio, escreveu um livro sobre o São Francisco, tornandose, com a presença benfazeja, um ser especial, particularmente entre os habitantes das áreas ribeirinhas.O bispo acha que mais importante do que a transposição das águas é, diante da indiscutível degradação do rio, revitalizá-lo com a execução de obras de desobstrução, expansão e melhorias de cisternas, açudes e a melhora no aproveitamento da água da chuva e do subsolo. A seu favor, além da adesão da população regional e de vasto número de asso-LOREDANO
ciações civis, ele conta com parecer idêntico do Banco Mundial (Bird), datado de 2001, que, em carta ao governo FHC, não apenas se negou a fazer empréstimo para a execução do projeto, como vetou a obra, por achá-la desaconselhável.
De resto, o parecer do Bird não foi leviano: antes de vetar a transposição das águas, manteve, durante meses, consultores técnicos na elaboração de estudos consistentes.O custo da obra faraônica, por enquanto, está estimado em R$ 4,5 bilhões. É muito dinheiro. Uma fábula. Em 2003, ao receber outra consulta do governo Lula, o Bird reafirmou a inviabilidade das obras, ressaltando que outros 'projetos poderiam ser mais eficientes na utilização dos recursos de investimento e financeiramente mais viáveis'. E mais: além de chamar a atenção para a importância de se promover a revitalização do rio, como quer o bispo, sugere a aplicação do ervanário em pequenas e médias adutoras, nos sistemas de distribuição de águas e na melhora da eficiência das empresas de saneamento básico da região e nas lavouras irrigadas existentes.O que parece esconder-se por trás do açodamento da transposição das águas do São Francisco é o volume milionário de porcentuais & comissões que pode ser prodigalizado pelas empreiteiras empenhadas na execução das obras, visto que, em épocas AS CABEÇAS MAIS EXPERIENTES APOSTAM TUDO NA MALÍCIA DO GOVERNO eleitorais, é sempre produtivo manter um 'bom relacionamento' com o governo empreendedor. Como se sabe, o PT é também aderente ao caixa 2. E o governo Lula não é propriamente um convento franciscano, a cultivar hábitos morigerados. Daí o corre-corre ministerial em 'dialogar' com o bispo de Barra, acenando, às pressas, com proposta da liberação de verba de R$ 300 milhões anuais, proveniente de impostos, para a revitalização do rio - verba que, no jargão de Brasília, pode ser 'contingenciada', ou seja, protelada indefinidamente.Em essência, estamos diante do clássico dilema entre o dinheiro ou a vida, muito comum nos assaltos do nosso cotidiano. O bispo, para assegurar a vida do rio, mesmo suspendendo a greve de fome, jura doar a própria vida em defesa da população miserável do Nordeste, caso se tente enganá-la.Mas o governo sabe que reeleição significa muito dinheiro e não está disposto a deixar de lado a ótima oportunidade. No Brasil atual, embora haja uma considerável adesão à causa do bispo, as cabeças mais experientes apostam todas as fichas na malícia do governo.Provavelmente ganharão.?
Ipojuca Pontes , cineasta, jornalista, é autor do livroPoliticamente Corretíssimos