Sunday, October 09, 2005

O desarmamento num boteco do Leblon

O desarmamento num boteco do Leblon

ponto de vista João Ubaldo Ribeiro


- Como é, já resolveu seu voto no plebiscito? - Já, já. Demorou, cara, foi uma discussão braba lá em casa. Muita opinião divergente, sobre se o SIM queria dizer que a gente não queria a proibição ou o contrário, você não imagina a discussão. Acabamos chegando à conclusão de que é o NÃO mesmo. Todo mundo lá vai de NÃO. - Como é que é? Vocês tão achando que o NÃO vai proibir a venda de armas e munição? - Não, não. Nós achamos que o NÃO quer dizer que a gente é contra a proibição. E é. Pode votar NÃO também tranqüilo, que é o voto certo. - Qual é essa de voto certo, cara? Eu sou a favor da proibição, precisamos desarmar as pessoas. - É, precisamos, precisamos. Vamos começar pelos assaltantes e traficantes, OK? Tu telefona pra polícia e diz pra eles 'olha aqui, tive uma idéia-mãe, cês sobem lá nos morros e pegam as armas todas, não fica bandido nenhum armado!' Aí eles batem na testa e dizem 'por que é que a gente não teve essa idéia antes, mas é claro, é só ir lá e pegar as armas, obrigadíssimo pela sugestão, ninguém aqui tinha pensado nisso'. - Pode fazer ironia, mas o desarmamento é um grande passo adiante. - É verdade. Um grande passo para os esquemas que já estão aí montados, para contrabandear e vender armas e daqui a pouco tu vai poder comprar tua Uzi num camelô da Rua Uruguaiana, onde tu já compra CD pirata. - Não se pode pensar assim, dessa maneira negativa.
O desarmamento é a primeira medida importante e, se você disser que a gente tem que dar prosseguimento, exigindo contrapartida das autoridades, aí eu concordo. - Eu tou ficando surdo. Tu disse o quê? Que nós vamos exigir das autoridades? Tu já viu algum brasileiro exigir nada de autoridade nenhuma? Brasileiro toma é esporro de autoridade, foi criado nisso e é por isso que faz qualquer negócio para ser autoridade também, nem que seja flanelinha. - Se a sociedade civil se organizar, o desarmamento põe o Brasil muito adiante. Nossa legislação passará a ser... - Nossa legislação! Nossa legislação! Eu não agüento mais essa conversa de que nossa legislação é a melhor do mundo, não sei o quê. Pra mim é a mesma coisa que o Jô Soares fazendo a foto do 'depois' de uma clínica de emagrecimento. - Discordo frontalmente. Vamos fazer a nossa parte e exigir do governo que faça a dele. - Que faça qual dele? Faça como nos hospitais? Nas estradas? Nas universidades? Nas instituições para menores? - É porque ninguém jamais exigiu realmente, hoje o cidadão é mais cioso de seus direitos. - Eu sei. É esse governo, esse governo é uma beleza.

Não pense que eu não noto os importantíssimos alcances sociais dessa proibição. Por exemplo, grande parte dos excluídos será reduzida. - Isso mesmo, a longo prazo é isso mesmo. - Não, eu falo a curto prazo, a curtíssimo prazo. Tu já imaginou o alívio que isso vai ser para o pequeno e o microassaltante? Porque eu já senti que a tua é como a do governo ajudando o pequeno empresário, tu quer ajudar o pequeno assaltante, tu realmente é um grande humanista. Eles devem arrumar um