Thursday, October 06, 2005

LULA NO PAÍS DA FANTASIA!

Lula no país da fantasia

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está passando da conta: aperreado com a onda de corrupção que desabou sobre o PT e inunda o governo que com ele se confunde, na travessia do túnel de angústia com as ameaças à reeleição confirmadas pela queda dos índices de aprovação de todas as pesquisas, perdeu as estribeiras, rompeu o compromisso com a realidade e entrou de corpo e alma no mundo da fantasia.
Francamente, caímos nas funduras preocupantes do exagero e é de extrema gravidade a constatação objetiva que o presidente, em estado de perturbação, com os nervos tensos como corda de violino, não diz coisa com coisa e afirma os maiores absurdos com a serenidade e a convicção de quem jura com a mão na Bíblia sobre sua crença e fervor religioso.
Desde a aparência, são visíveis os sinais de estrago com os dissabores espalhados no seu caminho pelo partido que o líder sindical fundou, inspirado pelas multidões reunidas nos comícios do ABC paulista e que o ouviam com a unção mística da fé plantada na descoberta do peso e da força política da massa trabalhadora organizada.
Nas últimas fotos e imagens de suas andanças de candidato em campanha – por onde quer que encontre um pretexto para escapar do tédio da rotina burocrática, do horror aos compromissos administrativos e gente disposta a ouvi-lo nos improvisos que atropelam contradições – são nítidos nas rugas que sulcam o rosto, na cabeleira rebelde ao pente que se despede dos fios pretos, na barriga que se projeta à frente, forçando a compensação do equilíbrio com a curvatura da coluna e, principalmente, no visível esforço para dissimular a tormenta com o apelo aos gracejos, nem sempre inspirados.
E não é só. Lula não resiste à demagogia na caça aos votos que se esquivam ou batem em retirada. Se nunca foi comedido nos seus encontros informais, agora passa dos limites. Enfia na cabeça todo tipo de boné, chapéu, chapelão, boina que lhe ofertem como recordação do momento. Não hesita um segundo em vestir camisetas de clubes, de associações, de entidades com que se encontra nas caminhadas. Agraciado pelos judocas com o quimono tradicional, posou envergando a túnica, com a faixa-preta dos praticantes que atingem o grau máximo.
Ainda não é o mais grave. Falando pelos cotovelos, paira no espaço do faz-de-conta. Em três lugares diferentes, no mesmo dia de atividade de caixeiro-viajante, disse o que lhe veio à cabeça. Na favela de Heliópolis, em São Paulo, a maior do país, jactou-se do feito épico de dar ao país "uma organização de base para que o governo que vier depois não possa mudar". E, com postiça modéstia: "Não podemos acertar os erros dos últimos 500 anos em quatro anos de governo." Com tal peteleco, jogou na vala da incompetência cinco séculos de História, exatamente quando o fracasso administrativo dos dois anos e nove meses de mais de metade do mandato assume a dimensão de calamidade. E os êxitos estatísticos da política econômica, com os juros na lua, embolam-se na contradição denunciada pelos dissidentes que foram expulsos ou deixaram o PT exatamente por não se conformarem com a guinada neoliberal do modelo do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Mas, o caroço que não passa no gogó é o escândalo da corrupção, nas variantes do caixa 2 para o financiamento de campanha e do mensalão para a compra ou aluguel de parlamentares. As CPIs dos Correios e dos Bingos atravessam a pinguela oscilante de quatro meses de investigações, dezenas de audiências, pilhas de gravações de depoimentos, montanhas de milhares de documentos, com sinais de desânimo e cansaço pela maratona de reuniões com ampla cobertura da mídia e a dificuldade de encontrar a fonte da abastecedora da fantástica fortuna, depositada em paraísos fiscais, a exigir o concurso de empresas especializadas ainda não contratadas.
A crise visível das CPIs, com críticas cruzadas e justas, estimulou os acuados no canto sem saída a buscar o atalho da fuga. Lula entrou no cateretê dos prováveis condenados. No embalo da peroração na Federação das Indústrias de São Paulo queixou-se que o país tem vivido "subordinado a centenas e centenas de denúncias".
Baixamos ao nível de porão da hipocrisia. Lula dá cobertura aos que tentam escapar por baixo da lona do circo. Com a mais inverossímil das potocas: bilhões de reais e de dólares pagaram as contas e propinas da campanha presidencial mais cara e luxuosa de toda a farra do privilégio do horário de propaganda eleitoral, com as novelas da competência do sumido marqueteiro Duda Mendonça. Ninguém no Palácio do Planalto, do gabinete de Lula aos assessores, do ex-todo poderoso presidente em exercício José Dirceu ao cândido ex-presidente do PT, José Genoíno, ninguém teve a curiosidade de perguntar, de apurar, de informar-se sobre a origem da dinheirama que o prestimoso tesoureiro Delúbio Soares, em parceira com o Marco Valério, despejava na arca do deslumbrado candidato e da sua corte.
Ora, vão contar esta na roda dos bobos e na corriola dos cúmplices. O que uma é a forma educada do chulo convite para lamber sabão.
Villas-Bôas Corrêa é analista político.