Thursday, October 20, 2005

HIPOCRISIA INTERNACIONAL

HIPOCRISIA INTERNACIONAL
por Paulo Leite, de Washington, DC
Se alguém ainda precisava de provas do lastimável estado em que se encontram as chamadas “instituições multilaterais” – quer dizer, quem não tinha prestado atenção, por exemplo, ao escândalo petróleo x comida ou às ridículas nomeações de países como Cuba e Líbia para presidir a Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas – agora não tem mais desculpas.A comemoração dos 60 anos da FAO (agência das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) foi marcada por alguns dos mais eloqüentes episódios de hipocrisia e alienação da realidade já vistos. Para começar, temos a entrega ao nosso presidente Lula da Silva da maior distinção outorgada pela FAO, a Medalha de Mérito Agrícola. Segundo o diretor-geral da organização, o senegalês Jacques Diouf, Lula é “uma das figuras de maior destaque na luta global contra a fome”.Para Diouf, “a determinação do governo brasileiro em combater a fome inspirou outras nações a livrar o mundo da fome e da pobreza.” O pior é que o diretor da FAO provavelmente acredita no que disse. No mundo de faz-de-conta dos burocratas internacionais, o simples fato de Lula ter anunciado seu “Fome Zero” ao iniciar o governo já é suficiente para merecer um prêmio. Não importa que o programa tenha sido mais ficção do que realidade.No modo de pensar dessa gente, o que vale é a retórica. Creio que já citei por aqui o radialista Rush Limbaugh, que sempre observa que “a esquerda quer ser julgada por suas boas intenções, nunca pelos resultados práticos de suas ações”.Apenas como parêntese, noto que nosso presidente aproveitou a ocasião para mais uma de suas piadinhas cada vez mais sem graça. Ao receber a condecoração, disse: “agora finalmente eu tenho um diploma.” Desculpe, presidente, se não estou rindo.Se os acontecimentos da festa de aniversário da FAO tivessem se resumido à medalha de Lula, um bocejo seria boa resposta. Mais uma reunião de dignatários e funcionários internacionais, paga com nossos impostos, claro.Duro, mesmo, foi ver na tal reunião figurinhas carimbadas como Hugo Chávez e, acredite se quiser, Robert Mugabe, o presidente (ditador, na verdade) do Zimbábue. Convidar Mugabe a uma reunião sobre alimentação é como convidar a turma do PT para uma reunião sobre o combate à corrupção.Quando se viu frente ao microfone, Mugabe fez exatamente aquilo que se poderia esperar: começou a acusar a tudo e a todos, para jogar o mais longe dele mesmo qualquer culpa sobre a fome que muitos passam em seu outrora próspero país.No tempo em que ainda se chamava Rodésia, o país agora governado por Robert Mugabe era uma potência agrícola. Ao assumir o poder, Mugabe começou uma campanha de intimidação (violenta, em muitos casos) dos fazendeiros brancos, tomou a maioria das fazendas e distribuiu entre seus amigos e correligionários. Os novos donos, evidentemente, tinham “comnhecimento zero” de agricultura.O resultado não surpreende a ninguém. A fome que boa parte da população do Zimbábue hoje passa é consequência direta das “reformas” de Mugabe. O “presidente” africano, sem ter como se defender, partiu para o ataque.George W. Bush e Tony Blair, que nada têm a ver com a fome no Zimbábue, foram os alvos escolhidos. Mugabe comparou os líderes dos Estados Unidos e Grã-Bretanha a Hitler e Mussolini. Bush e Blair, segundo ele, são “terroristas” que formaram uma “aliança sinistra” para “dominar o mundo”. Diz a Folha Online, citando agências humanitárias, que 5 milhões de pessoas no Zimbábue vão precisar de ajuda neste ano para poder comer. Uma vez mais, é preciso lembrar que se não fosse por Mugabe o país ainda seria um exportador de alimentos.A estridência de Robert Mugabe pode fazer sucesso entre a platéia esquerdista de uma conferência das Nações Unidas. Mas entre adultos responsáveis deveria suscitar indignação. Se os países do mundo estivessem realmente empenhados em acabar com a fome, como quer fazer crer o diretor-geral da FAO, jamais teriam deixado Mugabe passar pela porta da organização, quanto mais colocado um microfone à sua disposição.