Friday, October 21, 2005

EU REPILO!

Dirceu nega "mensalão" e rebate relatório do Conselho de Ética

"Não existe e não está comprovado o 'mensalão'". O deputado federal José Dirceu (PT-SP) voltou a negar, em entrevista coletiva em Brasília na tarde desta sexta-feira, as acusações de que teria participado do pagamento de propina a parlamentares da base aliada. As acusações podem levar Dirceu, ex-ministro da Casa Civil e homem forte do governo Lula, a ter o mandato cassado pela Câmara.
Uol Notícias

José Dirceu dá entrevista coletiva em Brasília
Dirceu afirmou que não há nenhum fato que comprove a existência do "mensalão". "Até porque as CPMIs ainda não concluíram seus trabalhos", disse.

Na entrevista, Dirceu apresentou seu "contra-relatório" em resposta ao relatório do deputado Júlio Delgado (PSB-MG) apresentado ao Conselho de Ética e Decoro Parlamentar nesta semana. O relator recomendou a cassação de Dirceu ao Conselho --a votação dos membros do Conselho sobre o relatório acontece na próxima terça-feira.

Pela manhã, Dirceu já havia apresentado a mesma defesa em depoimento a delegados da Polícia Federal que investigam o "mensalão".

Dirceu afirmou que Delgado distorceu vários depoimentos para incriminá-lo. O ex-ministro da Casa Civil citou o depoimento do líder do governo, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), e do deputado Edmar Moreira (PL-MG). No caso de Chinaglia, Dirceu disse que Delgado pinçou somente os trechos do depoimento que davam a entender que o ex-ministro ainda teria influência na Executiva Nacional do PT.

Além de negar o "mensalão", Dirceu negou participação nos empréstimos tomados pelo ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares junto ao empresário mineiro Marcos Valério Fernandes de Souza. "Não há nenhuma prova que eu tenha participado de nenhuma decisão da executiva do PT depois de ter deixado a presidência do PT", disse, enfatizando a inexistência de documentos. "Não há provas que eu tinha relação de amizade com o senhor Marcos Valério, inclusive ele mesmo nega em seus depoimentos que tinha relação de amizade comigo."

Ele citou o depoimento de Marcos Valério na CPI, em que o publicitário negou ter tratado de empréstimos ao PT com o ex-ministro da Casa Civil. "Toda a acusação fica desmontada", disse Dirceu. "Temos que pegar a íntegra do depoimento da testemunha, e não usar um parágrafo da acusação", declarou. "Se [o depoimento de Valério] é uma prova contra mim, também é uma prova a meu favor", disse.

Bancos e partidos

José Dirceu procurou rebater ponto a ponto as acusações que pesam contra ele no relatório de Júlio Delgado. O ex-ministro afirmou que o governo não fez ações no sentido de beneficiar o BMG nem o Banco Rural, instituições bancárias usadas por Marcos Valério para distribuir dinheiro a parlamentares e assessores. "Quero repelir a acusação de que o governo tenha beneficiado o Banco Rural ou o BMG através dos fundos de pensão ou através de crédito consignado", afirmou.

Sobre as mudanças partidárias das bancadas em favor do governo, Dirceu disse que são mudanças normais. Ele entregou aos jornalistas presentes na entrevista um estudo para mostrar que não haveria relação entre as votações em plenário e a suposta distribuição de recursos a deputados.

A respeito de suas ligações com líderes de partidos da base aliada, Dirceu disse que essa era sua função: "eu recebia todos os líderes, de todos os partidos, inclusive da oposição, porque isso é o papel do articulador político."

Dirceu condenou o "caixa dois", prática de campanha que foi admitida por Delúbio Soares e até pelo presidente Lula. "Não podemos fazer apologia do 'caixa dois'. O melhor é acabar com o 'caixa dois' e fazer reforma política e partidária", disse. Mesmo com "caixa dois", Dirceu disse que o PT "tem mais acertos do que erros". "Pensar que o PT vai desaparecer da história política do país é um erro", disse.

Dirceu também foi questionado se concordaria com a máxima de que "os fins justificam os meios" --os jornalistas lembraram que ele fez uma operação plástica ao voltar para o Brasil durante a ditadura militar. "Até porque eu fiquei mais feio com a plástica. Se é que eu era bonito antes", disse, arrancando risos dos jornalistas.

"Julgamento político"

Ao encerrar sua fala e abrir a entrevista para perguntas, Dirceu voltou a dizer que não aceita "julgamento sem provas". "Não se pode julgar ninguém sem provas, isso é uma conquista da civilização." Dirceu também manteve o discurso de que o seu processo de cassação não é fruto do "mensalão", mas sim de um "julgamento político" por ele ser um deputado de esquerda e com uma história política de 40 anos. "Com o tempo, o país vai perceber a quem interessa essa tentativa de me retirar da vida pública", disse.

Dirceu não reclamou da atitude do presidente Lula, que não tem se exposto para defendê-lo no processo de cassação. "O presidente Lula já tem problemas demais, tem a função de governar. E por que ele vai defender só a mim?", questionou.

Quando indagado sobre seu futuro político caso seja cassado, Dirceu disse que esse assunto ia ficar para "depois". "Eu estou lutando e tenho convicção de que a Câmara me fará justiça. A única coisa que eu quero é justiça", afirmou, acrescentando que vai recorrer a todas as instâncias e utilizar de todos os recursos para manter seu mandato.

A entrevista coletiva desta sexta-feira foi a última das iniciativas de Dirceu para tentar cancelar ou ao menos adiar a votação em plenário da cassação de seu mandato. Na quarta-feira, o deputado conseguiu parecer favorável à suspensão de seu processo de cassação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara. O relator da CCJ concordou com o argumento de Dirceu que o PTB havia tentado retirar o processo contra ele, mas foi impedido pelo Conselho. No mesmo dia, Dirceu foi derrotado no STF (Supremo Tribunal Federal), que rejeitou o mandado de segurança impetrado pela defesa de Dirceu contra o processo de cassação do mandato no Conselho.

O ex-ministro disse que vai repetir sua defesa na terça-feira, data da votação do parecer de Júlio Delgado no Conselho de Ética --último passo antes da votação no plenário da Câmara dos Deputados.