Sunday, October 09, 2005

ENTREVISTA DIRCEU

Domingo, 9 de outubro de 2005, 18h40
Dirceu diz que vai contar o que sabe em livro

Pela primeira vez, o deputado José Dirceu (PT-SP), o ex-todo poderoso chefe da Casa Civil do Governo Lula, deixa vazar seus planos para o futuro no caso de vir a ser cassado pelo plenário da Câmara. Sem saber ainda o que fará de fato, desabafa: "vou descansar uns dias e escrever um livro sobre minha experiência na Casa Civil, para passar tudo isso a limpo", revela, nesta entrevista exclusiva à Agência Nordeste. Dirceu nega, também, que tenha planos para abandonar o País e voltar a morar em Cuba, conforme foi noticiado. "Vou continuar no Brasil, fazendo política", garante.

José Dirceu está fazendo de tudo para salvar o seu mandato. Na quarta-feira passada, por exemplo, deu entrada com um mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal, tentando anular o processo de cassação na Câmara, sob a alegação de que não quebrou o decoro parlamentar, porque na época das acusações era ministro-chefe da Casa Civil e não parlamentar.

"Do ponto de vista constitucional, o recurso no Supremo me garante uma vitória líquida e certa. Agora, quem interpreta a Constituição é o STF e não nós", argumenta o ex-ministro. Apesar do tempo se fechar cada vez mais, Dirceu ainda acredita que escapa da cassação. "Se me cassarem, será uma cassação política, porque não há provas contra mim", diz, adiantando que espera que a Câmara lhe faça justiça.

Na própria quarta-feira, dia que fez a última tentativa de salvação, o ex-ministro recebeu o diretor de Redação da Agência Nordeste em seu gabinete, no anexo IV da Câmara. Embora abatido, manifestou confiança na sua absolvição, mesmo deixando a entender, nas entrelinhas, que dificilmente escapará da degola, porque, como diz, o julgamento será político. Veja a íntegra da entrevista:

Agência Nordeste - Com o mandado de segurança no Supremo, que o senhor deu entrada na quarta-feira passada, aumentam as chances de escapar da cassação?

José Dirceu - Melhorou muito a minha situação, porque o meu depoimento no Conselho de Ética mudou o clima na Câmara. Com o mandado, vou sair mais da mídia, vou descansar um pouco mais, porque terei pela frente três semanas que serão de muito trabalho, extremamente cansativas. Neste feriado, vou dar uma parada. Quero descansar. Estou muito cansado.

AN - O senhor tem conseguido dormir?

Dirceu - Sim, estou bem, durmo bem. Faço exercício todos os dias, leio, vejo bons filmes e trabalho. Trabalho muito.

AN - A mídia tem sido implacável com o senhor?

Dirceu - Na verdade, alguns setores da mídia assumiram a minha cassação, com o objetivo de fazer um linchamento, assim como os partidos da oposição. Não conseguem nem uma prova contra mim. Vendem a idéia de que eu era chefe do mensalão. Tem jornal que diz que recebi dinheiro do Marcos Valério. Eu tive que corrigir isso várias vezes em entrevistas em emissoras de rádio, porque me colocavam sempre como beneficiário do esquema. Portanto, há uma certa desinformação também.

AN - Quais as chances de vitória do senhor com o mandado no Supremo?

Dirceu - Do ponto de vista constitucional, o mandado me garante uma vitória líquida e certa. Agora, quem interpreta a Constituição é o Supremo Tribunal Federal e não nós. A nossa peça está bem feita, bem fundamentada e temos antecedentes. O Supremo já negou imunidade parlamentar para deputado-ministro. Se ele negou imunidade, era porque não estava no exercício do cargo. Para ser cassado, por quebra de decoro parlamentar, é preciso estar no exercício do cargo. Os regimentos internos da Câmara e do Conselho de Ética são muito claros e nos permitem fazer uma avaliação dessa natureza. Então, como é que posso ter quebrado o decoro parlamentar se eu não estava no exercício do cargo, se eu era ministro, entendeu?

AN - Sua principal base de argumentação é essa?

Dirceu - Sim e os exemplos que ele citam não valem, porque Talvane Albuquerque, Feres Nader e Hildebrando Pascoal ou foram cassados por quebra do decoro no exercício do mandato ou no mandato anterior, quando eram suplentes. Não é o meu caso. Eu não era suplente e nada ocorreu no meu mandato anterior. A acusação de que quebrei decoro parlamentar se deu na época em que eu era ministro.

AN - A eleição do presidente da Câmara, Aldo Rebelo, que foi bastante comemorada pelo Governo e pelos deputados na lista de cassação, deu novo ânimo ao senhor?

Dirceu - Do ponto de vista político, sim, mas do ponto de vista de ele ser o presidente ou Nonô (José Thomaz Nonô, vice-presidente da Câmara e candidato derrotado por Rebelo) é indiferente, porque as regras estão estabelecidas no regimento interno da Casa. Quem vota é cada deputado, entendeu? Não há como Aldo favorecer este ou aquele deputado porque é presidente. Não há como. Nem pensar, pelo amor de Deus!

AN - O que significa do ponto de vista político?

Dirceu - De qualquer maneira, o Governo teve uma grande vitória. Os partidos da base tiveram uma grande vitória, porque eles nos derrotaram apoiando Severino Cavalcanti (PP-PE) e agora tiraram Severino e perderam. Eles fizeram um movimento pensando que ganhariam a mesa diretora da Câmara agora, como fizeram na eleição passada, porque quem levou Severino para o segundo turno e deu a vitória a ele foram o PFL e o PSDB, que têm 110 votos. Sem o apoio deles, jamais Severino teria chegado ao segundo e, conseqüentemente, à vitória. O segundo seria travado entre Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP) e Virgílio Guimarães (PT-MG). Sendo assim, o Governo teria vencido em qualquer das hipóteses.

AN - Escapando da cassação e provando, assim, sua inocência no esquema do mensalão, o senhor tem planos de voltar a ocupar cargos no Governo Lula?

Dirceu - Não, não acredito nisso. Não vejo condições para isso. Se eu não vier a ser cassado, o que é uma possibilidade real, vou dar um tempo, vou pensar com calma até março ou abril do que vou fazer da minha vida. Eu quero escrever um livro sobre os 30 meses que passei na Casa Civil, para passar tudo isso a limpo e aí vou exercer o meu mandato, voltar os estudos da língua inglesa e quero, também, me dedicar mais à família.

AN - E na hipótese de vir a ser cassado?

Dirceu - Aí, vou descansar uns dias.

AN - Fica no País?

Dirceu - Minha idéia é ficar morando no Brasil. Quero continuar fazendo política. Mas, o que vou fazer exatamente, não sei, porque vou esperar a Câmara tomar a decisão. Eu sou confiante que a Câmara vai me fazer justiça, porque sou inocente e nada se provou contra mim. Isso é uma cassação política, sem provas, sem quebra de decoro. É uma coisa inconcebível cassar alguém porque ele é responsável político por aquilo que se entender que foram erros políticos. Eu vou me defender. Estou confiante.

AN - Os estados empobreceram ainda mais no Governo Lula. Por que?

Dirceu - Não acho. O problema dos estados é de natureza estrutural. Veja o caso de Pernambuco, cuja dívida foi negociada no governo Fernando Henrique Cardoso. O serviço da dívida, o sucateamento do serviço público, os problemas na área de segurança, as greves dos servidores, tudo isso geram muitos problemas. Jarbas (Vasconcelos, governador), apesar já estar próximo de entrar no seu oitavo ano de mandato, não conseguiu resolver essas questões.

AN - Não faltou apoio da União?

Dirceu - O que quero dizer é que, para fazer investimento, Jarbas teve que privatizar, vender patrimônio público, no caso a privatização da companhia de energia, porque o Brasil está vivendo um problema crônico: falta investimento público. O Estado não tem recursos para fazer investimento, a iniciativa privada não faz. Eu quero lembrar isso: Pernambuco está passando por uma fase de reorganização da sua base produtiva. Espero que com os investimentos em Porto de Suape, como a refinaria, Pernambuco consiga crescer. O desemprego na Região Metropolitana do Recife é muito alto. Arraes (ex-governador Miguel Arraes) vivia atormentado, tinha insônia com o problema dos 300 mil jovens que não tinham emprego, perambulando pelo Grande Recife e Zona da Mata. Já viajei muito pelo interior de Pernambuco, agora nos últimos anos, e percebi que o problema da miséria é gravíssimo.

AN - É verdade que o senhor já morou em Caruaru quando estava vivendo clandestino no País?

Dirceu - No meio da década de 70, nós tínhamos um grupo político que atuava em São Vicente, na direção de Patos, na Paraíba, e também em Caruaru, Arcoverde, Serra Talhada. Andei circulando por ali, mas por pouco tempo, algo em torno de seis meses. Foram duas vezes. Na primeira, uns 40 dias, na segunda vez mais, uns seis meses. Eu ficava no hotel Guanabara, em Caruaru. Em Campina Grande, num hotel em que abaixo ficava a famosa sopa do galo, onde a gente passava noites e noites em conversas animadas.

AN - Os aliados do senhor em Pernambuco ¿ do PT a Eduardo Campos ¿ nunca reclamaram dos seus afagos ao governador Jarbas, principalmente na época em que estava como ministro-chefe da Casa Civil.

Dirceu - Ninguém nunca me reclamou, nem Arraes, quando estava conosco, ajudando o Governo Lula, nem o PT. Arraes, aliás, sempre foi muito respeitoso na relação política e entendia muito bem isso, assim como Eduardo e o PT. Eu sempre tive com o Jarbas uma relação muito boa. O governador sempre foi muito respeitoso. Eu sou grato a ele, inclusive agora nesta crise, ele nunca fez juízo de valor. Eu acho um desperdício um homem como Jarbas Vasconcelos, pelas vicissitudes da política, ter se aliado ao PFL. Nós temos uma história de vida de luta juntos. Lula gosta muito de Jarbas e tem com ele uma excelente relação. Como eu, Lula tem uma profunda admiração pelo Jarbas. Ele está saindo agora para disputar o Senado, com isso temos reais chances de ganhar a eleição lá. Se tivermos juízo, no segundo turno ganhamos as eleições.

AN - Com quem?

Dirceu - Pode ser Eduardo Campos ou Humberto Costa. Um dos dois. Temos pela frente muito espaço para discutir a melhor alternativa. Lula vai apoiar Humberto, mas acho que tem muita água para rolar debaixo dessa ponte. Vamos esperar um pouco. Acho que entre março e abril do ano que vem essa situação estará resolvida. O Brasil vai sofrer muitas mudanças até lá.

AN - É possível ter ainda Jarbas como aliado entre as forças que apóiam Lula?

Dirceu - Acho muito difícil. Penso que Jarbas está mesmo decidido a continuar do lado de lá, provavelmente num projeto de disputar o Senado. Jarbas não é de aventura, um Garotinho (Anthony Garotinho), ele é autêntico. Esse negócio de falar que não é oposição. Ele diz: eu sou oposição. Nisso, eu gosto muito do Jarbas, é isso que admiro muito nele.

AN - E ele tem evitado manifestações em relação à crise nacional, para não criar mais problemas para Lula. Assim, ele tem sido correto? Era essa a postura que vocês esperavam dele?

Dirceu - Jarbas tem sido corretíssimo. Quando pode, ajuda. Quando é para ser oposição, sabe, francamente, fazer oposição, mas não uma oposição açodada, irresponsável. Em todas as conversas que tive com o Jarbas fiquei muito satisfeito. As coisas com ele são dois e dois são quatro.

AN - A refinaria é uma vitória isolada de Pernambuco?

Dirceu - A refinaria foi importante para o Nordeste. É um erro achar que a refinaria só terá reflexo na economia de Pernambuco. Ela vai ter contribuição em todos os estados nordestinos. Não foi Pernambuco quem ganhou uma refinaria, de forma isolada. Foi o Nordeste. É esta consciência de que deve ter toda liderança da Região.

AN - Qual foi a contribuição do senhor para levar a refinaria para o Nordeste, especialmente Pernambuco?

Dirceu - Trabalhei muito, falei muito com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, para que a PDVSA viesse a fazer essa parceria no Brasil com a Petrobras. Isso representa o início de uma forte integração. O Brasil e a América do Sul precisam se integrar na área energética e de gás. Temos que construir uma rede de gasoduto e interligar toda uma rede elétrica, para deixarmos de ter escassez de energia. Acho que o investimento da PDVSA no Nordeste, com esta refinaria, será fundamental. E a Petrobras, pode estar certo, vai fazer mais investimentos, como siderúrgicas. O Governo e a Petrobras têm como compensar o Ceará e o Rio Grande do Norte, que competiam com Pernambuco, com uma siderúrgica.

Agência Nordeste