Sunday, October 16, 2005

E o ‘núcleo’ virou Delúbio

Dora Kramer
Confirmada a expulsão do ex-tesoureiro Delúbio Soares no próximo dia 22, consolidada a sentença de que foi só dele a responsabilidade pela "gestão temerária" das finanças do PT, se a Comissão de Ética do partido divulgar esta como sua decisão final, terá alterado a resolução tomada anteriormente e constante num relatório apresentado ao Diretório Nacional no dia 3 de setembro último.
Esse documento, feito antes do recurso que Delúbio apresentou à Justiça alegando distorções no processo de julgamento interno, dizia com toda clareza que as malfeitorias financeiras não tinham sido obra de "erros e desvios de um só dirigente", mas fruto da ação de "um núcleo paralelo para o qual as instâncias legais do partido serviam apenas como espaço homologatório".
Dividia, portanto, responsabilidades, embora não listasse o nome dos responsáveis.
Apesar disso, tudo indica que o ex-tesoureiro levará a culpa sozinho. É o que se depreende de declarações do presidente eleito do PT, Ricardo Berzoini, para quem Delúbio "induziu ao erro" os petistas que receberam dinheiro das contas de Marcos Valério . Informações de bastidores do PT corroboram essa posição do presidente e apontam para uma punição restrita a Delúbio.
Se for isso mesmo, a Comissão de Ética ficará devendo – ao menos àqueles integrantes do Diretório Nacional aos quais foi apresentado o relatório original e talvez a si mesma – uma explicação a respeito da mudança de opinião e a razão pela qual a tese do "núcleo paralelo" teria sido substituída pela condenação de um só.
Um autor, convenhamos, de magnitude considerável. Um gênio não apenas da arquitetura financeira paralela, mas também da arte do convencimento e da dissimulação. Não fosse por força desse talento extraordinário, Delúbio Soares não teria conseguido, por exemplo, convencer o então presidente do partido, José Genoino, a dar aval a empréstimos de milhões sem lastro.
Também não teria levado o então secretário-geral, Silvio Pereira, a aceitar um Land Rover de dirigentes de empresa com negócios no governo; muitos menos teria podido convencer o rigoroso José Dirceu de que aquele publicitário de Minas Gerais era só uma pessoa muito bem relacionada que facilitava encontros e tratava de questões de poder e dinheiro por puro diletantismo.
E assim teria seguido o mestre organizando os negócios entre o PT e os partidos interessados em trocar apoio no Congresso por financiamentos (ilegais) de campanhas, circulando por gabinetes governamentais com desenvoltura de gente da casa, patrocinando apoios do Banco do Brasil a eventos petistas, ordenando transferências das contas de Marcos Valério para este ou para aquele, sem levantar suspeitas nem causar espécie.
Dando entrevistas a três por quatro em exaltação à exuberância financeira do PT, bancando despesas de toda sorte; hoje as contas dos restaurantes são espartanamente compartilhadas, mas à época não ocorreu a um só conviva indagações a respeito de tanta fartura.
Punido sozinho, Delúbio merecerá láurea na arte de fazer amigos e influenciar pessoas sem precisar para isso de uma só credencial, de uma única delegação superior, munido apenas de sua vivacidade de espírito, fluência verbal, e por que não dizer, um inigualável esplendor intelectual.
Isso para não falar das vezes em que o então tesoureiro teve suas opiniões acatadas pela maioria do diretório, classificado no relatório original da Comissão de Ética como uma das "instâncias legais" do partido usadas pelo "núcleo paralelo" como "espaço homologatório".
Ao que se sabe, eram decisões submetidas a voto. Como aquela proposta, nunca é demais outra vez lembrar, de o PT exibir suas contas na internet, derrubada pelo voto da maioria concordante com o argumento de Delúbio Soares de que transparência "assim" seria "burrice".