Monday, October 17, 2005

"Davay uyezjáiem, Marisa!"

A uruca que temos e a que virá
Marco Antonio Rocha*

Elevação extraordinária dos preços do petróleo. Seca calamitosa na Amazônia. Surto violento de aftosa no rebanho bovino de Mato Grosso do Sul. Embargos internacionais às exportações de carne do Brasil. Previsões de grandes quebras da produção de grãos nas próximas safras - depois de quatro anos de bonança -, em razão da desvalorização do dólar, das quedas de preços internacionais das commodities e dos aumentos dos custos internos. Racha magno nas fileiras do PT evidenciado pelo resultado do pleito interno para a presidência do partido - que teve baixíssimo comparecimento, aliás! -, sinal do desalento dos seus outrora aguerridos militantes. Trapalhadas crescentes para a diplomacia "experimental" que este governo tenta praticar, mas que a cada dia sofre novas rasteiras por parte de parceiros muy amigos, tidos como preferenciais - e que não compreendem o alcance e a profundidade do que o Brasil pretende.
"Vocês não sabem o que é urucubaca!", dizia Lula, recentemente, num dos seus proverbiais ensinamentos peripatéticos que, a exemplo de Sócrates, ele distribui em suas andanças.

Evidentemente, não se referia aos azares mencionados no parágrafo acima. Apostrofava o mau-olhado que, na sua opinião, as oposições lançam contra si e contra o seu governo. Na visão lulística, nada do que foi praticado por Waldomiro Diniz, Delúbio Soares, Marcos Valério, José Dirceu, José Genoino ou pelo bando de parlamentares petistas que ele exortou à renúncia para não terem seus direitos políticos cassados, ou, ainda, por não se sabe quantos mais "elementos" que estão espalhados nas esferas estaduais e municipais do PT - nada disso, dizíamos, criava urucubaca para ele e para o seu governo. Tratava-se apenas de um grupo de companheiros inexperientes, que cometeram "erros" ou, como disse a figura que Dirceu escolheu para presidir o partido - esse inesquecível torturador de aposentados -, são companheiros que apenas cometeram "ilegalidades eleitorais". Esse eufemismo se destina à descriminalizar atos obviamente criminosos de colegas de legenda, mas, a rigor, é também uma forma de desqualificar a legislação eleitoral, a Justiça Eleitoral e a própria democracia (detestável invenção da burguesia), uma vez que o alicerce desta é a legalidade eleitoral. Além, é claro, de se constituir em esfarrapada desculpa perante os companheiros que continuam escandalizados com todas as maracutaias e que votaram em Raul Pont, uma vez que nem Berzoini nem o partido saberão com certeza quanto da astronômica roubalheira, em cada caso, foi para a "campanha" eleitoral e quanto foi para o bolso de cada um dos acusados.

De qualquer forma, seja o mau-olhado dos adversários ou a urucubaca dos fatos da natureza, parece ter havido chateação demais para um presidente tão alegre, bem-humorado e vencedor como Luiz Inácio, de modo que ele partiu em revoada para as "Oropa" - Lisboa, Madrid, Roma, Paris... Moscou: "Davay uyezjáiem, Marisa! (*), visitar nosso amigo Putin e deixar a uruca por aqui." O que pelo menos nos poupará do repetitivo "eu aprendi na minha vida" e de muitos ensinamentos do tipo "como se me fiz por mim mesmo", durante vários dias.

A viagem é oportuna não só porque tira o presidente da fogueira que lavra no País e no seu próprio partido, mas também porque dá a este um certo tempo para pôr a cabeça no lugar.

O que fica cada vez mais claro é que "pôr a cabeça no lugar", para o PT, não é nada daquilo que, num primeiro e desavisado momento, o ex-ministro Tarso Genro pensou que fosse. Não é nada da "limpeza ética" que se aventava, e sim muito mais do mesmo, ou seja, daquilo tudo que a sociedade brasileira condena com veemência, mas que os Majoritários do Campo consideram apenas parte do jogo político. Como com o famoso personagem de Stanley Kubrick Dr. Strangelove, o irresistível vezo da arrogância e da petulância se ergue no discurso dos hierarcas do partido - de Zé Dirceu ("Podem me cassar, mas vou fazer política até morrer"), da Marta Favre ("Chega de ajoelhar no milho. Vamos nos concentrar na reeleição do presidente"), passando por Berzoini, para quem "esse desafio de fazer a luta política é fundamental para preparar o caminho para 2006".

"Se a tanto me ajudar o engenho e arte", poderia Lula dizer lá em Portugal, "estarei com mais um novo mandato a partir de 2007". Isso se cultivasse modéstia equivalente à de Camões. Mas, mais ao seu feitio, preferiria dizer, aqui mesmo, parodiando um conterrâneo ilustre: "Vocês vão ter de me agüentar!"

Talvez. Embora só se deva apostar em resultados eleitorais... depois das eleições! - como diz o colega José Nêumanne.

De qualquer forma, os odds ainda estão com Lula e com os barões assinalados do PT, pois, apesar das adversidades mencionadas logo no primeiro parágrafo, os prognósticos para a economia em 2006 têm sido cada vez mais positivos. Na semana passada, duas agências internacionais de classificação de risco, a Moody's e a Fitch, elevaram a nota do Brasil, a primeira com base no desempenho das exportações, nos ganhos de competitividade do País e na diversificação do comércio exterior. A segunda mencionou - e isso é importante - a resistência da economia brasileira à crise política no governo. E, se ela resistiu, até agora, aos que talvez tenham sido os piores momentos da crise, por que seria afetada por esse fator doravante?

E tem outra coisa. Esse arrocho financeiro que Palocci está comandando - e do qual se queixa quase todo mundo, de José Alencar ao ministro Roberto Rodrigues e ao próprio novo presidente do PT - tem uma finalidade estratégica muito simples e enormemente eficaz: fazer "caixa" para gastar no ano que vem. O que está sobrando de superávit primário, além da meta consignada e de excedente de arrecadação, não é brincadeira. Essa dinheirama, jogada no Bolsa-Família, a partir de janeiro, terá um efeito arrasador nas pretensões oposicionistas de mobilizar a seu favor a massa dos excluídos. Se a isso acrescentarmos apenas dois outros fatores - 1) que os juros podem cair bastante, uma vez que a inflação vai ladeira abaixo, sem nenhuma ameaça grave de repique; e 2) que a taxa de investimentos vai ladeira acima, como constatou o Ipea na semana passada -, e que muito agradarão às classes médias, Lula nem precisará de engenho e arte, que, aliás, não tem para chegar lá.

Estão dadas as condições para que o governo brasileiro deixe em segundo plano o combate à inflação (o que desde Sarney consumiu quase todos os esforços) e possa aproveitar-se da derrota dela, priorizando o crescimento e o emprego.

(*) "Vamos viajar, Marisa!" - em russo, com caracteres latinos.

*Marco Antonio Rocha é jornalista