Tuesday, October 25, 2005

CPI terá tropa de choque oficial

Ordem é para que parlamentares aliados compareçam em massa à acareação entre Gilberto Carvalho e irmãos de Celso Daniel
Sérgio Pardellas
Agência Câmara

Rocha Mattos disse na CPI que Gilberto Carvalho era um dos articuladores do esquema montado na prefeitura de Santo André
BRASÍLIA - Hoje todas as atenções do governo estarão voltadas para a CPI dos Bingos onde estarão frente a frente, em sessão aberta, o chefe de gabinete do presidente da República, Gilberto Carvalho, e os irmãos do prefeito Celso Daniel, morto em Santo André em 2002, João Francisco e Bruno Daniel. O Planalto montou um esquema especial: a ordem é para que os aliados compareçam em massa à CPI dos Bingos para blindar Gilberto e evitar que a oposição o pressione.
De um lado, o amigo pessoal, homem de confiança, e não raro, conselheiro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. De outro, os irmãos de um prefeito assassinado, amargurados pelo desfecho funesto de um enredo ainda nebuloso, responsáveis pela acusação de que Gilberto seria peça chave de um esquema de corrupção no município paulista.
A possibilidade de a crise voltar a rondar o Palácio do Planalto acrescentou apreensão à expectativa de integrantes do governo com o que poderá sair da acareação. Não à toa, durante a semana todos os cuidados foram tomados para evitar que o embate na CPI dos Bingos coloque em risco a imagem do presidente Lula.
Ontem, o governo intensificou o corpo-a-corpo com os oposicionistas com o argumento repetido quase como um mantra: não se pode deixar que a legítima luta política inviabilize a governabilidade. A operação para serenar as ânimos da oposição contou com a participação do líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP) e o ministro da Coordenação Política, Jaques Wagner. Nas conversas, o governo também invocou as eleições 2006 para sustentar que uma transição pacífica e democrática seria mais conveniente a todos.
– É natural a preocupação do Planalto com a acareação. Há excessos em algumas CPIs e quando está depondo alguém muito próximo ao presidente precisamos ter o máximo de respeito à própria situação funcional das pessoas – resumiu ontem o deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP) ao deixar o Planalto.
Além dos efeitos da acareação, a maior preocupação no governo era com relação ao estado de espírito de Gilberto Carvalho. Mas em conversas com interlocutores durante a semana, Gilberto disse estar convencido do sucesso da acareação. E conta com a chancela do presidente Lula.
– É uma maldade o que estão fazendo com o Gilberto – diz invariavelmente o presidente quando alguém resolve tocar no assunto.
Diante do cenário, o chefe de gabinete descartou a possibilidade de abrir mão do cargo como ocorrera em ocasiões anteriores. De formação religiosa, Gilberto Carvalho chegou a colocar o cargo à disposição tão logo surgiram as denúncias contra ele. Mas Lula não aceitou.
– O Gilberto não sai do governo. A não ser que aconteça uma zebra, uma catástrofe – afirmou ontem um ministro do núcleo político do governo. Segundo assessores palacianos que estiveram com o chefe de gabinete de Lula nos últimos dias, Gilberto pretende dizer que não haveria nexo causal entre a questão dos Bingos e o assassinato de Celso Daniel, além de rebater as acusações que pesam sobre seu nome.
Ontem, depois de conversar com o chefe de gabinete de Lula pelo telefone o senador Tião Viana (PT-AC) disse que ele está tão tranqüilo que anunciou, inclusive, o desejo de que a reunião da CPI seja pública, o que, de fato, vai acontecer.
Em depoimento no início de outubro na CPI dos Bingos, Bruno Daniel, irmão do prefeito de Santo André, Celso Daniel, assassinado em 2002, afirmou que Gilberto Carvalho mentiu ao dizer na CPI que não havia revelado um esquema de arrecadação para o PT na cidade. Bruno contou à CPI que o dinheiro arrecadado ilegalmente pela prefeitura junto a empresas de ônibus era entregue pelo chefe de gabinete da Presidência ao deputado José Dirceu (PT-SP), então presidente do PT, para alimentar o caixa do partido.
Na acareação marcada para amanhã, na CPI do Mensalão, o ex- tesoureiro do PT, Delúbio Soares, e o empresário Marcos Valério ganharam proteção extra: os advogados terão a prerrogativa de se comunicar com seus clientes, que terão também o direito de permanecer em silêncio. A decisão é do ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, ao acolher pedido de liminar em mandado de segurança coletivo, ajuizado pela Seção do Distrito Federal da Ordem dos Advogados do Brasil.