Sunday, October 09, 2005

Batina atrapalha cantilena dos pecadores

Augusto Nunes para JBOnline
Excitado com a primeira boa notícia colhida nos campos da política em 2005 – o triunfo de Aldo Rebelo na disputa pelo comando da Câmara –, o presidente Lula da Silva recuperou a voz e saiu por aí, fardado de Marechal da Vitória. Tropeçou num bispo que prefere morrer de fome a permitir a transposição do Rio São Francisco. O início das obras teve de ser adiado. O governo capitulou.
Mas o vencedor da Batalha da Câmara não admitiu que se rendera a uma batina solitária. E ofereceu ao país outra estranha sopa de letras. “Como poderia adiar uma coisa que não tem prazo para começar?”, perguntou. A frase jogou no lixo o cronograma minuciosamente traçado e exibido a meio mundo por Ciro Gomes, ministro da Integração Nacional.
Surpreendido pela mudança dos ventos, Ciro não tem nada a dizer sobre o errático Lula. Só fala sobre a Igreja, e em conversas reservadas. Os comentários deixariam ruborizado o mais extremista dos anticlericais criados pelo escritor Eça de Queiroz.
Lula delegou a outros os retoques no acerto com o bispo e retomou a discurseira. Irritou-se ao saber que a CPI dos Bingos aprovara uma acareação entre seu secretário Gilberto Carvalho e dois irmão do prefeito Celso Daniel. Estou esperando essa CPI convocar um bingueiro”, provocou.
Teria evitado a frase irônica se lesse jornais. Todos publicam os próximos capítulos do novelão da crise. Na quarta-feira, cinco bingueiros do primeiro time pousaram juntos na CPI: Valdomiro Diniz, Carlinhos Cachoeira, Rogério Buratti, um diretor e um exadvogado da GTech.
A mera contemplação do quinteto deveria figurar entre as provas do crime: todos têm cara de ladrão. O palavrório e as trocas de insultos confirmaram que a Caixa Econômica perdeu a vergonha e o medo da cadeia para fechar contratos milionários, todos irregulares, com aquela turma.
“Até agora, as CPIs não comprovaram nenhum caso de corrupção no governo”, disse Tarso Genro no começo da semana. Se insistir na fantasia, algum companheiro sensato precisa comunicar ao presidente interino do PT que a Caixa não foi privatizada. E recordar-lhe que continuam sob o controle do governo o Banco do Brasil, a Casa da Moeda, o Instituto de Resseguros do Brasil, a Procuradoria Geral da Fazenda, os Correios e outros braços da máquina federal envolvidos em ladroeiras, fartamente documentadas pelas três CPIs.
O PT já se convencera de que caixa dois não é crime. Acha improcedente o berreiro contra os “recursos não-contabilizados” que, viajando em malas e cuecas, financiaram campanhas ou orgias e enriqueceram pilantras. José Dirceu se promoveu a inocente absoluto. Atribui seu calvário à mídia tendenciosa. “É uma tentativa de golpe branco para que Lula não tente a reeleição e eu seja cassado”, delira. Lula endossa a tese muito imaginosa. Deveria devolver ao “querido Zé” a chefia da Casa Civil.