Sunday, October 16, 2005

ADIVINHE QUEM VEIO PARA (NOS) JANTAR?

A censura. Ela mesma, travestida de Resolução do TSE para o referendo

OPINIÃO
SÉRGIO AUGUSTO
JORNALISTA E ESCRITOR

Todo dia achamos que chegamos ao fundo do poço. Aí lemos os jornais, navegamos na internet, assistimos ao Jornal Nacional, e nos certificamos de que estávamos equivocados.
Na verdade, ainda havia mais poço. E, se estivermos com alguma sorte, mal passamos de sua metade. Falo de maneira geral, do Bananão e do resto do mundo, das iniqüidades humanas e das agressões da natureza, do Campo Majoritário do PT e das arbitragens do Brasileirão. E, com especial pesar, da compra de gatinhos que um circo instalado em Campo Grande, zona oeste do Rio, institucionalizou para alimentar os leões do seu elenco.
Como se já não bastassem as desgraças acumuladas nos últimos meses, eis que ao nosso convívio retorna aquela indesejável senhora que acreditávamos morta e sepultada junto com a ditadura militar: a censura. Pois é, até a censura o governo Lula conseguiu ressuscitar. Rezemos para que não inventem um referendo para referendá-la.
Domingo passado, no programa Manhattan Connection, transmitido pelo canal a cabo GNT, Diogo Mainardi tentou pôr em questão o referendo das armas, mas foi instruído pelo âncora Lucas Mendes a mudar de assunto, do contrário o programa sairia do ar por ordem do Tribunal Superior Eleitoral. Muitos espectadores acharam que o programa fora censurado pelo GNT. O GNT apenas repassara ao pessoal do Manhattan Connection
a ameaça explicitada pelo Artigo 18 da Resolução nº 22.033, posta em vigor pelo TSE em 4 de agosto deste ano, que muita indignação - mas apenas indignação, infelizmente - vem provocando nos profissionais da mídia eletrônica.
A Resolução nº 22.033 dispõe sobre a propaganda no referendo do dia 23, impondo regras para que nenhuma das frentes em oposição se sinta ofendida, lesada ou inferiorizada. Nada a objetar que a programas e spots propagandísticos das duas frentes imponham-se restrições similares às que regem a propaganda eleitoral gratuita. Mas estendê-las a todo e qualquer programa jornalístico, proibindoos de veicular 'opinião favorável ou contrária a qualquer das propostas do referendo', é um absurdo, um atentado à liberdade de expressão.
Se eu tivesse um programa de rádio ou TV, no qual atuasse sozinho, dando notícias e opiniões, ou teria de me calar sobre o referendo ou descaracterizar o programa, convidando um defensor do 'sim' para debater comigo a questão da comercialização de armas e munições - sob pena de ser tirado do ar e ainda levar uma multa. Assim, ao menos, vem sendo interpretado o diktat do TSE pelas emissoras de rádio e TV, que deveriam rebelar-se contra essa forma de censura, ao invés de baixar a cabeça e pôr o rabo entre as pernas, como vêm fazendo, para desespero de diversos jornalistas desacostumados a acochambrar.
Pelo visto, ou todos os cinco integrantes do Manhattan Connection apóiam o 'não' ou apenas dois ou três são favoráveis ao 'sim' (se eu fosse você, apostaria na primeira hipótese), o que configuraria, numa discussão, 'tratamento privilegiado' a uma das frentes. Como em mesa de cinco não há empate, uma solução seria completá-la com alguém especialmente convidado para desempatar a contenda ou, então, levar dois jornalistas de campos opostos e deixá-los debater, mantendo-se os integrantes fixos do programa de bico calado. Ridículo, não? Que o Manhattan Connection e o GNT façam, hoje à noite, pela liberdade de expressão, mutatis mutandis, o que a histórica entrevista de José Américo de Almeida a Carlos Lacerda, em fevereiro de 1945, fez pelo fim da censura do Estado Novo.
Vai um consolo aí, freguês? Um autêntico solace, como dizem os americanos? Aqui vai: na terra do Bush os abusos contra as liberdades individuais andam de mal a pior. Até parece que o exu Lenin baixou por lá.
Não era o líder bolchevique quem dizia que a liberdade é tão preciosa que precisa ser racionada? Dia desses, puseram para fora de um vôo da Southwest Airlines a sra. Lorrie Heasley, só porque ela vestia uma camiseta estampada com as figuras do presidente Bush, do vice Dick Cheney e da secretária de Defesa Condoleezza Rice e os dizeres 'Meet the Fuckers', trocadilho com o título do filme Meet the Fockers (no Brasil, Entrando numa Fria ainda Maior). A tripulação da Southwest Airlines justificou a truculência, provavelmente estimulada pelo Patriot Act, mencionando o caso de outro passageiro, há tempos expulso de uma de suas aeronaves por feder em demasia. Se cheirar mal e empestar o ambiente não é um direito previsto na Constituição dos EUA, gozar os poderosos do dia é. Ou melhor, ainda é. Mesmo com um palavrão; no caso, diga-se, assaz procedente.
Andam racionando tanto a liberdade de expressão que um sujeito como Jonathan Swift, o festejado autor de As Viagens de Gulliver, não levaria boa vida entre nós. Nem seria necessário enquadrá-lo no Patriot Act ou qualquer outro decreto discricionário para transformá-lo num pária ou, mesmo, em inquilino de um gulag pósmoderno, construído sob os auspícios do politicamente correto. Na mídia eletrônica, nem em canais a cabo ele teria vez.
Suas cartas aos jornais não seriam publicadas. Pensei um bocado nele esta semana, como também pensei em Mark Twain, H. L. Mencken e outros abusados. Swift, porém, acabou prevalecendo. Não porque neste canto antiguidade seja posto, mas por ele ter escrito há 276 anos um livrinho intitulado A Modest Proposal, aqui traduzido pela Editora Unesp como Modesta Proposta e Outros Textos Satíricos.
A modesta proposta de Swift dizia respeito à maneira mais fácil de matar a fome dos famintos do seu tempo: alimentando-os com crianças pobres. Um dos mais geniais satiristas do seu tempo, Swift jamais seria convidado, et pour cause, para dirigir o Fome Zero.
Se o deixassem externar livremente sua opinião, teria sugerido aos donos do circo de Campo Grande que poupassem os gatinhos inocentes e indefesos e passassem a alimentar os leões com as crianças de má índole que por lá dessem as caras com um bichano numa das mãos e a outra estendida para pegar os R$ 4 combinados. Se num dia pouco inspirado, teria se limitado a exigir que se cumprisse uma lei estadual que proíbe a utilização de qualquer espécie animal em circos e similares. Mas, como estava sempre inspirado, é possível que fizesse uma nova proposta modesta: trancafiar os donos do circo na jaula dos leões e, saciadas as feras, entregá-las aos cuidados do Ibama. Se bem que eu desconfio que Swift tampouco confiaria no Ibama.