Thursday, October 06, 2005

ACUSADO ASSUME O PAPEL DE PROMOTOR

Acusado assume o papel de promotor
AUGUSTO NUNES
O PT implodido pelo Campo Majoritário parece nobre de novela. Depois de vender a alma e meter-se em bandalheiras desastradas, perdeu o patrimônio, o crédito, a confiança de amigos e vizinhos, a vergonha. Só não perdeu a pose. A mansão em ruínas está cercada por policiais, promotores e CPIs. Mas o barão desmoralizado deu de aparecer na sacada para proclamar à platéia que nada fez de errado. Criminosos são os outros.
A espantosa nota divulgada pela direção do PT na segunda-feira informa: o réu ergueu-se do banco para insultar o júri e ordenar ao juiz que mude os rumos do caso. O partido esbanja confiança na má memória dos brasileiros. E, como José Dirceu, cada vez mais convencido de que é inocente. (Se tanto o PT quanto Lula acham que ninguém pecou, por que não devolver os demitidos aos antigos gabinetes? Por que não reinstalar Dirceu na Casa Civil? Por que não deixar com Delúbio a tesouraria da reeleição? O povo quer saber).
Para o partido, a absolvição de todos os acusados não basta. Quer a punição dos acusadores. Quer sobretudo a condenação ao inferno do governo de Fernando Henrique, o Sociólogo Satânico. Segundo o documento, devem ser buscadas na Era FH "as raízes da corrupção no Estado, tão claras no processo de privatizações selvagens e na influência do poder econômico em todos os processos eleitorais".
Tradução: se FH não tivesse chegado ao poder, não ocorreriam, por exemplo, as bandidagens de Delúbio Soares e Marcos Valério. Ambos seriam apenas pais amantíssimos, filhos amorosos, maridos exemplares e patriotas irretocáveis - e esforçados companheiros.
Ainda contando as baixas do desastre forjado no interior do partido, a cúpula vai recuperando a arrogância histórica. Agora tenta brincar de promotor e ameaça retomar a guerra, excitada por três ocorrências. Primeira: com Aldo Rebelo na presidência da Câmara e Renan Calheiros no comando do Senado, a retaguarda estava enfim guarnecida. Segunda: o ritmo vagaroso das CPIs era sinal de incompetência e tibieza.
Uma terceira circunstância convidava à ofensiva: empenhados na finalíssima do Torneio dos Pusilânimes, o corregedor-geral Ciro Nogueira e Ricardo Izar, presidente da Comissão de Ética, seguem obstruindo o desembarque no plenário dos candidatos à cassação.
Reanimados, os generais petistas determinaram o ataque. Má idéia. Na primeira reunião com os líderes na Câmara, Rebelo pôde imaginar o que espera um presidente eleito por 15 votos de diferença. (É o tamanho da bancada da guilhotina, que o apoiou). Todas as propostas de Rebelo foram rejeitadas.
O presidente do Senado autorizou a contratação de empresas de auditoria para examinar as montanhas de documentos reunidas pelas CPIs. Para aflição do PT, a retaguarda continua desprotegida. Pressionados pelo Brasil decente, os investigadores do Congresso reagiram já na terça-feira à patética provocação dos pecadores. A CPI dos Correios, entre outras medidas relevantes, quebrou o sigilo bancário de corretoras que formaram parcerias suspeitíssimas com fundos de pensão, para abastecer o caixa dois do PT. "Caixa dois é coisa de bandido", ensina o ministro Márcio Thomaz Bastos. (O PT acha que não).
A CPI dos Bingos decidiu promover uma acareação entre os irmãos de Celso Daniel, o prefeito de Santo André morto em 2002, e Gilberto Carvalho, secretário do presidente. "Estou esperando essa CPI convocar um bingueiro", irritou-se Lula. Chegará a vez dos bingueiros e dos caciques da Era FH. Mas há mistérios mais urgentes. Como e por que Celso Daniel morreu? Quem financiou a tentativa de assalto ao Brasil?
Essas perguntas reduzem ofensivas petistas a puro papel. Um papelão.