Thursday, September 15, 2005

TUDO DE MENTIRA

TUDO DE MENTIRA
por Ipojuca Pontes
“As pessoas nunca mentem tanto quanto antes e depois de uma eleição” – Otto von BismarckNo final do ano 2000, para comemorar o que seria o “Réveillon do Século”, recebi alguns amigos onde moro em Copacabana, entre eles um visitante agregado ao grupo, José Augusto dos Santos, advogado angolano de passagem pelo Rio. Findo os comes e bebes, fomos todos para a orla testemunhar de perto a euforia das massas ante a ilusão dos fogos de artifício. Ao meu lado, no auge do furor, o angolano começou a chorar um pranto convulsivo e prolongado. Diante do quadro, o que me restou foi o recurso da compreensão: - É um espetáculo comovente – disse.- Nada disso – respondeu após algum tempo. Não estou chorando por causa dos fogos, mas por causa de Angola...- Angola ?!...- Sim, eu estou chorando porque em Angola tudo é de mentira. E em seguida me explicou direitinho os motivos da miséria moral e material que acudia sua terra natal desde os anos 60, quando o Movimento Popular de Libertação Angolana (MPLA), apoiado pela URSS e tropas cubanas, de um lado, e a União Nacional pela Independência Total de Angola (Unita), inicialmente maoísta e depois anticomunista, de outro, e ainda a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), tinham transformado o país africano num vasto território tomado por conflitos incessantes, violência, minas explosivas, mortes, fome e, sobretudo, um “oceano” de promessas nunca cumpridas. - Se for por causa da violência, fome e um “oceano” de promessas nunca cumpridas, não se perturbe – retruquei. Aqui, no Brasil, também é tudo de mentira. De fato, no Brasil dos últimos tempos tudo navega pelo torrencial mar da mentira. Quando, por exemplo, o leitor abre um jornal e lê num articulista especializado que, segundo os critérios da macroeconomia, o País vai bem e está vencendo suas dificuldades, quando na verdade apenas amplia o número das exportações para fins de maior imposição (arrecadação) de tributos; ou quando verifica que a crítica cinematográfica coloca um bonequinho aplaudindo de pé o filme pífio de Cacá Diegues (enquanto emplaca o bonequinho dormindo diante de um filme eficiente de qualquer cineasta americano); ou quando escuta na CBN um comentário do porta-voz oficial Franklin Martins afirmando que são os políticos, e não Lula e sua incompetência que estão em crise, então, tudo só nos leva a admitir que estamos vivendo no terreno da fraude institucionalizada, onde a verdade se faz mentira e a mentira, por sua vez, se estabelece em definitivo como a paralaxe dos homens. Assim, num domingo de muitas penas e poucas glórias, por espírito cívico-masoquista, me refestelo com uma entrevista de Dilma Rousseff, antiga “companheira de armas” de Zé Dirceu (o “guerrilheiro sem guerrilha”) e atual chefe da Casa Civil do presidente Lula. Ante a indagação de uma repórter se “o pior da crise política passou”, a nova executiva do governo, na certa querendo abreviar a temporada de catástrofes, responde: “... Chegou o momento da apuração, e isso é muito importante (...) Foram feitas denúncias com uma amplidão muito grande, e muitas não tiveram comprovação. É preciso que todos os malfeitos sejam punidos, mas não concordo com a existência de dois tipos de julgamento: um, com base em provas; outro, um julgamento político. Tem que haver fundamento jurídico para punição política... Como diz Foucault em “Vigiar e punir”, o inquérito e a investigação são métodos da sociedade moderna para provar a culpa de alguém”. Em poucas linhas, temos na resposta da ministra de Lula o exercício cabal da mistificação. Em primeiro lugar, porque não é verdade que afinal “chegou o momento da apuração”. Pelo contrário. Na realidade está-se apenas no começo, há ainda um largo manancial de suspeitas, acusações e testemunhas a serem levantadas, formuladas e interrogadas – e que as CPIs instaladas, principalmente as do Mensalão e dos Correios, quem sabe a partir de interesses espúrios, estão empurrando com a barriga. Só para ficar pela rama, aponto desde já as denúncias em torno da doação dos milhões de dólares das Farcs para a campanha presidencial de 2002, um bom pasto para a CPI dos Bingos (canal de investigação adequado para o levantamento do uso do dinheiro sujo da narcoguerrilha), que sequer foi devidamente encarado. Em segundo lugar, embora a ministra minimize como simples “malfeito”, tem-se no governo Lula a construção de um verdadeiro monumento à criminalidade, que se ergueu, a despeito de enriquecimentos pessoais, com objetivos políticos e que, exatamente por isso, tem de ser considerado de forma não apenas jurídica, mas política, tal qual ocorreu, por exemplo, e muito justamente, com o governo de Collor de Mello. Ademais, para dar a sua embromação retórica um cunho de profundidade, a chefe da Casa Civil levanta o cadáver de Michel Foucault, o filósofo embusteiro para quem a “verdade é tão somente um resultado do poder” (Theatrum Fhilosofhicum, Critique - 1970), reducionismo simplório que só faz confirmar a sanha totalitária de facções tipo PT, sendo ele próprio, Foucault, de resto, um pensador que vivia fascinado pela loucura medieval do aiatolá Khomeini e sequer entendia com propriedade os pensadores gregos – o que é, em definitivo, risível. O grande Fellini, para se contrapor à verdade plana do neo-realismo, dizia que com ele “tudo era na base da mentira”. Certíssimo – a verdade poética também pode ser criada a partir da mais deslavada fantasia. Mas na triste realidade política e social em que naufragamos, a mentira fartamente industrializada pelo governo Lula só pode ser tratada na base do cassetete e da cadeia. E em larga escala.Publicado em 15/09/2005