Sunday, September 11, 2005

SERENO E FUNDOS DE PENSÃO

Sereno indicou cargos em Fundo de Pensão
25/07/2005
No PT do Rio, é de conhecimento geral que o ex-assessor da Casa Civil e ex-secretário de comunicação do partido, Marcelo Sereno, teve influência na indicação para cargos em fundos de pensão. Esta influência teria começado antes mesmo da eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando secretário de Governo de Benedita da Silva, no Rio, em 2002. E ao menos duas das indicações atribuídas a Sereno são ligadas à família Almeida Rego, hoje sócios da gestora de recursos Arbor. Os profissionais apontados como indicações de Sereno para os fundos de pensão Nucleos (patrocinado pelas empresas federais do setor nuclear) e Prece (patrocinado pela Cedae, empresa de água e saneamento do Rio) são primos de um dos sócios da Arbor e filhos de irmãs da mulher de Haroldo de Almeida Rego, conhecido no mercado como Haroldo Pororoca.Fabiana de Castro, gerente financeira da Nucleos, é apontada por Neildo de Souza Jorge, membro do conselho deliberativo da fundação (eleito pelos funcionários) , como um dos nomes recomendados por Sereno para ocupar o posto. Carlos Eduardo (Dudu) Carneiro Lemos foi da área de investimentos da Prece em 2002, na mesma época em que Sereno, então secretário de Benedita da Silva, era membro do Conselho de Administração da Cedae. Três fontes, incluindo um membro do secretariado de Benedita, confirmaram que Dudu foi indicado por Sereno.Segundo o Valor apurou, a aproximação entre Sereno e os Almeida Rego ocorreu em 2002, quando ele coordenou as finanças da campanha de Benedita e foi intermediada por um deputado do PCdoB no Rio. Sereno já foi visto na casa e no barco de Haroldo em Angra.Procurada, a assessoria de Sereno informou que ele não fez indicações em fundos de pensão, apenas encaminhou indicações de partidos da base aliada, e que não tem relações com Haroldo. Outra pessoa próxima a Sereno disse que ele apenas esteve no casamento de um dos filhos de Haroldo por acaso, acompanhando terceiros. Sereno atribui a inimigos políticos tentativas de vinculá-lo a fundos de pensão e aos Almeida Rego.Fabiana e Dudu são primos de Christian de Almeida Rego, filho do segundo casamento de Haroldo e um dos sócios da Arbor, gestora com foco em fundos de pensão.Haroldo foi sócio da corretora Safic, inabilitada pela Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) em 2002. Na época, a bolsa informou ter descoberto que, apesar de o sócio responsável pela Safic ser oficialmente James Ferraz Alvim Netto, havia um contrato de gaveta, sequer registrado em cartório, no qual Haroldo era apontado como proprietário de 70% da corretora. Hoje ele é formalmente apenas investidor e não tem participação oficial nas empresas dos filhos.Ao longo da semana passada, o Valor procurou Haroldo, seus filhos Murilo e Christian e sua nora Rogéria Costa Beber, mas eles não retornaram ligações e e-mails enviados. Carlos Eduardo não retornou os telefonemas. Sua ex-mulher disse que apesar de ele ter atuado na Prece, não tem relações com a política e sempre trabalhou no mercado financeiro.Outro elo entre os Almeida Rego com a política são as doações de pessoas da família ao vereador Fernando Gusmão (PCdoB) na campanha de 2004. Foram doados R$ 66 mil, cerca de 30% da arrecadação total, segundo dados do TSE. Além de Christian, fizeram doações o irmão da mulher de Murilo, Dudu e sua esposa na época. O vereador Gusmão está viajando a trabalho, na China. Um de seus assessores admitiu que Dudu é amigo de Gusmão, mas disse não ter detalhes sobre as doações e negou qualquer relação do vereador com Sereno. Segundo um assessor, o petista mais próximo de Gusmão é Lindbergh Farias, ex-PCdoB.Outros pontos em comum entre os fundos de pensão Nucleos e Prece são desempenhos insatisfatórios de rentabilidade. O banco é gestor e administrador de dois fundos em que o Nucleos é o único cotista - o Urânio e o Monazita. Segundo a instituição, o Urânio foi transferido ao WestLB no ano passado, de forma transitória, após a intervenção no Banco Santos, seu antigo administrador. O WestLB informou ainda que administra dois fundos da Arbor que não têm relação com o Nucleos.O fundo dos empregados do setor nuclear amargou em 2004 rentabilidade de apenas 5,98%, abaixo da caderneta de poupança, de 8,1%. Neildo, do conselho deliberativo, disse que, diante do desempenho, recomendou as demissões de Fabiana e de Walter Khul, assessor de investimentos que, segundo ele, também teria sido indicado por Sereno. Apenas Khul foi afastado em maio passado, oficialmente, porque não se enquadrava no perfil com o qual a atual gestão do fundo pretendia trabalhar.Fabiana diz que tem pouquíssimo contato com seu primo e que nunca trabalhou para a Arbor. Segundo ela, as aplicações do Nucleos em fundos da Arbor foram feitas por intermédio do fundo IB-FAC/FIF, administrado pelo banco Industrial, e não tiveram influência no mau resultado da fundação em 2004. O IB-FAC/FIF teve rendimento de 16,06%, no ano, contra 15,88% do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), segundo Fabiana, que afirmou desconhecer Sereno. "Fui selecionada por meio de uma agência na qual havia deixado meu currículo."Em abril, a carteira do IB FAC/FIF, do qual o Nucleos é o único cotista, possuía patrimônio de R$ 33.606.549,57. Desse total, R$ 29.036.086,54 estavam em cotas do Arbor Fundo de Investimento Multimercado Longo Prazo. O patrimônio total deste era de R$ 30.067.610,54, de acordo com dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A consultoria Fortuna com base nos dados da CVM apontou que, entre os dez fundos exclusivos de fundações menos rentáveis do último trimestre, há três da Prece e um do Nucleos.Nas carteiras do Nucleos e da Prece há ainda debêntures da Ulbra (instituição de ensino do Sul do país). O papel contribuiu para a demissão, em 2003, do presidente e de dois diretores da Fundação Copel, fundo de pensão da estatal elétrica do Paraná. O motivo da demissão dos dirigentes foi terem comprado ativos de alto risco.A Prece informou que os fundos terceirizados de renda fixa bateram a meta atuarial no primeiro trimestre e que os fundos de ações foram prejudicados pelo mau desempenho da bolsa. Garantiu ainda que as debêntures da Ulbra possuem boa classificação de risco atribuída pela Austin e representam apenas 0,23% da carteira total.Sob pressão, Marcelo Sereno comunicou na sexta-feira ao BNDES que, por razões "pessoais", renunciava ao posto de representante do banco no conselho de administração da VBC Energia, associação dos grupos Votorantim, Bradesco e Camargo Corrêa. Ele assumiu o cargo em novembro de 2003, quando era assessor de José Dirceu.Antes do governo do PT, o BNDES seguia norma interna segundo a qual os cargos de conselheiros das empresas nas quais o banco detinha participação só poderiam ser preenchidos por pessoas do quadro de funcionários. A norma foi derrubada em março de 2003.Outra indicação do PT para o cargo de conselheiro de empresa privada é o atual ministro da Coordenação Política, Jaques Wagner, membro do conselho de administração da Vale do Rio Doce desde quando era ministro do Trabalho.
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Fonte: Valor Econômico - Catherine Vieira, Chico Santos e Raquel Balarin