Sunday, September 25, 2005

OS GATUNOS ESTÃO EM CASA

AUGUSTO NUNES
Os gatunos estão em casa
Compelido a comentar a medonha expansão do Pântano do Planalto, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, troca o terno bem cortado pelo colete de agente da Polícia Federal. Com a agilidade de um craque dos tribunais, saca dos bolsos uma penca de números que fundamentam a tese reiteradamente enunciada: o Brasil tem hoje uma das melhores polícias federais domundo. É uma tese audaciosa.
O bom e velho FBI, por exemplo, vive às voltas com erros primários, pilantragens internas e desastrosas manifestações de incompetência: a mítica sigla ignorou os numerosos sinais de que estava em gestação o horror materializado por terroristas árabes em 11 de setembro de 2001.
Recentes intervenções cirúrgicas na veneranda Scotland Yard removeram vários focos infectados. Se ingleses e americanos seguem promovendo, periodicamente, faxinas do gênero, que milagre fora operado na polícia de elite do paraíso tropical dos corruptos?
Essa Polícia Federal de sonho (que ainda não desvendou o assalto ao Banco Central no Ceará, ocorrido há 45 dias) só existe na cabeça do ministro, do presidente e de governistas como a senadora Ideli Salvatti, um berreiro à procura de uma idéia. “Mais de 1.500 corruptos foram presos”, grita Ideli de hora em hora. Ou gritava: engavetou a cantilena há exatamente sete dias.
A louvação dessa PF imaginária foi suspensa no fim da semana passada, quando sherloques nativos consumaram, no prédio da superintendência no Rio, uma espantosa operação clandestina. Dias antes, a Operação Caravelas (monitorada por especialistas americanos, como noticiou Marcia Peltier) desmontara a mais lucrativa vertente do narcotráfico no Brasil. A festa durou pouco.
Enquanto o governo e a cúpula da PF comemoravam, R$ 2 milhões sumiram de uma sala-cofre da sucursal carioca. A bolada de dólares e euros fora apreendida em casas e carros do bando que exportava cocaína escondida em pedaços de carne. Deveria estar no banco. O delegado que chefiava o plantão, engrossado por 59 agentes, preferiu deixá-la na sala- cofre. À espera dos larápios.
A PF inventada por Márcio demoraria 20 segundos para concluir que nenhum ladrão se infiltrara no prédio. Estavam lá dentro. Não furtaram a chave sob a guarda do escrivão. O parceiro entregou-a com o rosto sereno de cúmplice. Basta prender os participantes da Operação Caravelas e interrogá-los com a mesma metodologia aplicada a paisanos. Um estagiário do FBI já teria resolvido o caso. A esplêndida polícia de Márcio segue investigando irrelevâncias diversionistas.
“Foi mais uma da banda podre”, resumem os agentes honestos da PF. Não são poucos. Graças à ala dos decentes, que vem crescendo sensivelmente, a Polícia Federal ficou melhor e mais eficaz. Mas é preciso amputar os muitos galhos nos quais se penduram ladrões de colete.
Em todas as operações, policiais corruptos enfiam nos bolsos, no momento do flagrante, quantias formidáveis. A droga apreendida logo volta ao mercado, vendida por agentes bandidos. Estimulados pela leniência dos chefes, agora ousam roubar em casa. Só cadeia resolve isso.