Saturday, September 17, 2005

O SANGUE QUE MANCHA O MENSALÃO

Crise em Brasília
O sangue que mancha o mensalão
Gravações e documentos obtidos pela Polícia Federal e consultados por Zero Hora confirmam que uma corrente une a turma que abalou o Planalto e a Máfia dos Vampiros
ANDREI NETTO/ Brasília

Jabour é sócio de Peixoto, que é sócio de Pedrosa, que é sócio de Corrêa Júnior, contato de Janene, chefe de Genu, que indicou Cinthia a pedido de Peixoto. Cinthia, assessora na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), promete ajudar Peixoto, que comemora com Laerte, lobista de Delúbio, arrecadador da conta de Valério, que distribui dinheiro vivo a deputados do PT, do PL, do PMDB, do PP e do PTB. Vampiros e deputados estão unidos por laços de sangue. Gravações e documentos sigilosos, em poder da Polícia Federal (PF), comprovam que personagens de dois dos mais devastadores e complexos esquemas de desvios de recursos já revelados na história do Brasil - a Máfia de Vampiros e o mensalão - atacaram juntos os cofres da União. Delegados da PF ouvidos por Zero Hora em Brasília explicam que o foco das investigações são as contas do publicitário Marcos Valério no Banco Rural. Em um primeiro momento, foram apurados os destinos dos recursos - método que levou à identificação de parte dos 18 deputados ameaçados de cassação. A tarefa agora é rastrear a origem das verbas. Aí aparecem os focos de fraudes contra o herário nos Correios, no Instituto de Resseguros do Brasil (IRB), em Furnas e, recentemente, na Anvisa. Há indícios - cujos detalhes são mantidos em sigilo pelos delegados - de que os mesmos "vampiros" que lesaram o Ministério da Saúde tenham alimentado as contas de Marcos Valério. As suspeitas de que as duas quadrilhas radicadas em Brasília rasgaram veios de dinheiro da saúde pública existiam, esparsas, desde 2004. Elas começaram quando empresários e lobistas foram presos na chamada Operação Vampiro, em maio do ano passado, desvelando ao país um rombo de R$ 2 bilhões nas compras de medicamentos para Aids e diabetes e derivados de sangue pelo Ministério da Saúde. Um ano e meio depois, as investigações apontam que as fraudes extravasaram o Ministério da Saúde. Dois "vampiros", em entrevistas a ZH, confirmaram o esquema. Servidores tinham a tarefa de arrecadar Lourenço Rommel Peixoto, vice-presidente do Jornal de Brasília, preso por 104 dias e denunciado à Justiça como integrante da Máfia dos Vampiros, confirma as relações e nega sua participação. Segundo Peixoto, as revelações do escândalo do mensalão estão mostrando "como a estrutura de poder atual exercia o poder de 2003 para cá". As teias de relações dos lobistas com políticos não teriam vindo à tona porque os detidos temiam retaliações judiciais. - Quando a Operação Vampiro estourou, algumas pessoas presas denunciaram o envolvimento de políticos e tesoureiros no esquema. Se alguém como eu, que fiquei 104 dias preso, insistisse nessas informações, estaria atrás das grades até hoje - diz Peixoto, sem citar nomes de políticos ou seus partidos. As relações entre os dois grupos estão registradas em conversas telefônicas gravadas com autorização da Justiça pela Polícia Federal. Diálogos a que ZH teve acesso evidenciam as relações entre empresários como Jaisler Jabour, ex-representante no Brasil do laboratório suíço Octopharma, e Laerte Corrêa Júnior, advogado e lobista, com operadores do mensalão. De acordo com o Departamento de Polícia Federal, que investiga em inquéritos paralelos a Máfia dos Vampiros e o mensalão, o esquema obedece a uma lógica. - Há um esquema organizado em que intermediários, representantes de todo tipo de empresas, inclusive de medicamentos, atuam intensamente em campanhas políticas e, depois, nomeiam funcionários para cargos-chave em ministérios, secretarias, autarquias. Durante a gestão, esses funcionários são encarregados de cobrar 20%, 30% em licitações para pagamento de mensalões e formação de caixa 2 - confirma um alto investigador. As relações entre empresários e lobistas que desfalcaram o Ministério da Saúde respingam em dois outros órgãos do governo: a Anvisa e os Correios. ( andrei.netto@zerohora.com.br )
Ligações perigosas
Em conversas telefônicas gravadas pela Polícia Federal (PF), dois nomes da Máfia dos Vampiros, os lobistas Eduardo Passos Pedrosa e Laerte Corrêa Júnior, celebram a nomeação de uma assessora da diretoria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), cuja função seria "fiscalizar" os negócios de interesse do grupo. Corrêa Júnior é o mesmo que aparece em outras gravações - mantidas em sigilo pela PF - com Delúbio Soares, nas quais o tesoureiro pede dinheiro para financiamento da campanha do PT em 2002 e para pagamento de contas do partido:
Pedrosa - Incluiu ela (a assessora, Cinthia Vaz de Araújo) na equipe dele (de Vitor Hugo Travassos, diretor da Anvisa), que vai cuidar das coisas?
Corrêa - Direto, porque eu quis que ela fosse como sendo pessoa de minha confiança.
Pedrosa - Ela (Cinthia) me ligou e falou: tô à disposição, a hora que vocês quiserem sentar, falar, conversar.
Corrêa - Só precisaria deixar ela mais familiarizada.
Eu chamei a Cristianne, que é vice-diretora, e falei: prepara a Cinthia pra isso, pra isso e pra isso.
Aí ela (Cinthia) levou essa vice-diretora ontem no Planalto porque parece que o marido da Cinthia trabalha lá no Planalto, alguma coisa nesse sentido.
Pedrosa - Secretaria de Comunicação. Trabalha com o japonês Gushiken.
Corrêa - Pegou a vice-diretora ontem e pôs para cumprimentar o Lula.
Pedrosa - Ah, é?
Corrêa - É.
A contratação
O lobista Pedrosa acerta a nomeação de Cinthia:
Cinthia - Oi.
Pedrosa - Gabinete 608.
Cinthia - 608.
Pedrosa - Anexo 4.
Cinthia - Anexo 4.
Pedrosa - Câmara dos Deputados. Você vai procurar João Cláudio.
Cinthia - João Cláudio.
Pedrosa - Gabinete do deputado José Janene.
Cinthia - José?
Pedrosa - José Janene.
Cinthia - Janene.
Pedrosa - É. Você vai entregar o currículo pra ele. Ele vai levar na Anvisa pra você, tá bom?
Cinthia - Tá jóia.
Pedrosa - Amanhã o cara já vai te chamar pra assumir o cargo.