Saturday, September 24, 2005

NINGUEM TEM O DIREITO DE MALTRATAR A ESPERANÇA!

Aos 35 anos da primeira edição do seu livro As Veias Abertas da América Latina, que marcou a literatura e a resistência do continente, o escritor uruguaio Eduardo Galeano, de 65 anos, fala de sua atual visão da América Latina e da decepção que é a crise política brasileira.

'Ninguém tem o direito de maltratar a esperança'
Essa crise política no Brasil o decepciona ou era previsível?
Decepção e dor. O Brasil é um país que sinto como se fosse meu, é uma velha ligação... O que mais me dói nisso tudo, mais que esse escândalo, que para mim foi imprevisível, é essa explicação que circula: 'Por que tanta confusão se isso sempre aconteceu?'. Se o PT chegou ao governo, como uma força nova encarnando a esperança coletiva, não era para repetir a história. Era para mudá-la. Então, para que nasceu? Para que existe? Tanto sacrifício, para quê? Nenhuma força tem o direito de maltratar assim a esperança da qual é portadora.Quando eu era jovem, trabalhava no semanário uruguaio Marcha, e meu mestre em jornalismo, e não só em jornalismo, foi o diretor do semanário, Carlos Quijaño. Ele sempre dizia: 'Está proibido pecar contra a esperança. É o único pecado que não tem perdão.' Naquela época, eu achava que a frase era bastante pomposa. Com o passar do tempo, aprendi quanta razão tinha dom Carlos. Não se pode brincar com a fé do povo, essa expectativa popular da transformação da realidade dentro da ordem democrática que Lula encarnou. O pecado contra a esperança vira pecado contra a democracia. É gravíssimo o que está acontecendo.
Você acha que o PT começou a trair agora o que as pessoas acreditavam?
Principalmente agora, mas começou antes. Sem dúvida, houve um divórcio crescente entre o que foi prometido e o que foi feito na verdade. Até certo ponto, é inevitável um abismo entre o desejo e o mundo real, entre o querer e o poder. Mas houve sim um desencontro grave, sobretudo em matéria de política econômica e seus programas sociais, que ficaram de molho.Mas depois veio esse escândalo, com compra de votos, homens, partido... A esperança é frágil.Precisa ser cuidada, tratada com muita delicadeza. Em outros tempos, o chamado realismo socialista, que não era realismo nem era socialista, dizia que a esperança do povo era de aço.Mentia. É de cristal.
Como acha que será daqui para frente no Brasil?
Não sei. Não é o fim da história, pois ela nasce de novo a cada dia.A história é incessante e tem a mágica capacidade de se recriar. E nem sempre nos dá surpresas desagradáveis.
M.C.