Sunday, September 18, 2005

A MAIS ESPANTOSA QUARTA-FEIRA

A mais espantosa quarta-feira
AUGUSTO NUNES
Atarantado pela crise desencadeada em junho e sem data para encerrar-se, o país foi sacudido neste 14 de setembro pela mais espantosa quarta-feira da saga republicana. Acordou com o barulho provocado por um cheque de R$ 7.500. Tentou dormir depois da ruidosa cassação do deputado Roberto Jefferson.
Na manhã de quarta-feira, o empresário Sebastião Buani exibiu o atestado de óbito político de Severino Cavalcanti. Descontado por Gabriela Martins, secretária de Severino, o cheque comprovou que Buani pagou propinas ao atual presidente da Câmara. Feliz, o operador de restaurantes improvisou uma oração.
Rezou sozinho: a platéia estava concentrada na contemplação da bela mulher de Buani, Diana. O marido comunicou que a ''musa do mensalinho'' está liberada para despir-se nas páginas de uma revista masculina. Era a boa notícia da manhã. Logo viria a má, patrocinada pelo Supremo Tribunal Federal.
Na quarta-feira, o STF divulgou a liminar que adiou a subida ao cadafalso de seis parlamentares petistas drenados do pântano. A desoladora informação seria logo abrandada por uma decisão do Banco Central. Naquela manhã, a taxa de juros fora reduzida. Em 0,25%.
No começo da tarde de quarta-feira, o ex-ministro Luiz Gushiken, hoje com funções indefinidas, abriu seu depoimento na CPI dos Correios. Jurou que não teve nada a ver com nada, trocou desaforos com deputados e, irado, espancou o idioma. ''Sejemos claros'', disse no meio da sessão.
Na mesma tarde de quarta-feira, Severino explicou que o cheque de Buani não passava de uma contribuição voluntária à campanha de Severino Júnior, candidato a deputado, morto dois meses depois da doação. Na noite de quarta-feira, concordou em renunciar ao comando da Câmara.
Na noite de quarta-feira, Jefferson foi guilhotinado. No discurso de despedida, pegou pesado. Qualificou o presidente Lula de ''malandro'' e ''preguiçoso'', acusou José Dirceu de comandar o governo mais corrupto da história. Na fila de votação, aproximou-se do inimigo centímetros à frente e murmurou: ''Eu sou você amanhã''. Perturbado, Dirceu esqueceu-se de colocar a cédula no envelope e teve o voto anulado.
Antes de concluída a apuração, Jefferson voltou para casa. Ali, comunicou aos amigos que uma gravadora italiana o convidara a gravar um disco de ópera. Em Nova York, onde ensaiava o discurso que faria na ONU naquela quarta-feira, Lula foi informado da cassação de Jefferson e das críticas de Paulo Maluf à comida da cadeia. Aparentando tranqüilidade, retomou a leitura do texto que ensinou o mundo, de novo, a acabar com a fome. Menos sereno parecia o vice-presidente José Alencar. ''Que coisa, onde nós estamos?'', perguntou no fim do Dia do Espanto.
No Brasil, claro. Onde mais?
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