Saturday, September 24, 2005

KATRINA JOGA AGUA NO CHOPP DE LULA

Um dos maiores furacões a atingir o solo dos EUA vai trazer prejuízos incalculáveis para a economia internacional e compromete a pretensão do petista de ser reeleito
César Fonseca Especial para o Jornal da Comunidade
A grande tragédia provocada pelo furacão Katrina, que quase destruiu a capital mundial do jazz e ameaça o abastecimento mundial de petróleo, diante da demolição de oito refinarias no golfo do México, vai, certamente, contribuir para manter a taxa de juro elevada no Brasil. Poderá prejudicar ainda mais a economia, já afetada pelo elevado custo do dinheiro. Seria outro tiro no peito do presidente Lula que pretende ir à reeleição para ressuscitar o PT.
O governo americano imprimirá bilhões de dólares, nas próximas semanas, para socorrer os estados atingidos. Pressionará, dessa forma, a liquidez monetária internacional. Bush não economizará recursos, porque está sendo acusado de ter agido erradamente diante dos avisos do furacão.
Os detentores da moeda americana buscarão os juros mais altos. Se o governo Bush não pagar juro satisfatório, continuarão migrando em maior escala para países campões mundiais de juros altos, como é o caso brasileiro.
Ou seja, poderá haver maior pressão para valorizar o real frente ao dólar, atraído pelo juro alto em vigor. Mais um adicional de incerteza sobre a política econômica do governo Lula, totalmente dependente de fatores sobre os quais não tem controle. Tais incertezas, por sua vez, no calor da crise política, fornecerão combustível para fortalecer corrente de opinião defensora do controle de entrada de capital na economia como arma para reduzir juros de modo a combater a deflação que persiste a quatro meses.
A rentabilidade do setor exportador, que já está baixa frente ao câmbio sobrevalorizado, poderá ficar mais vulnerável ainda, se houver pressão cambial adicional proporcionada pela desvalorização do dólar em escala global. Kenneth Rogof, economista, ex-diretor do FMI, disse, no Brasil, recentemente, que os déficits americanos, ampliados, principalmente, por gastos em guerras, ameaçam a economia global. A guerra que a natureza impôs aos Estados Unidos por meio do Katrina, na medida em que exigirá maiores gastos públicos, ajudará a afetar negativamente os déficits já acumulados.
A taxa de juro, portanto, tenderia, graças aos estragos provocados pelo Katrina, a manter-se inviável aos investimentos, mesmo diante da quarta consecutiva deflação registrada pelo Índice Geral de Preços em agosto. Não constituiria novidade, por isso, o fato de que o maior banco de investimento do país, o BNDES, esteja emprestando mais para países que estão com o PIB crescendo entre 6% e 8%, como são os casos de México, Argentina, Chile e Venezuela, do que para o próprio Brasil, fazendo, como disse o presidente Lula, em solenidade no Itamarati, o papel de Bolívar, sem promover revoluções. Ou seja, Lula estaria gozando com as alegrias que os presidentes do México, Vicente Fox, da Argentina, Nestor Kirchener, do Chile, Ricardo Lagos, e da Venezuela, Hugo Chavez, desfrutam nesse momento latino-americano, inserido no clima de aquecimento da economia mundial.
Em tal contexto, no qual o Brasil figura em posição de retaguarda, porque o juro alto, que aumenta a dívida interna, não deixa a economia crescer , a situação do governo Lula fica ainda mais delicada. Afinal, os estragos do Katrina, ao possibilitar desaquecimento da produção, afeta a economia e, as chances de reeleição do titular do Planalto. Ele contaria fundamentalmente com ela para concretizar seu sonho. O Katrina atravessou o samba e jogou água no chope.
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