Monday, September 12, 2005

Ágora ou Ágape
por Osmar José de Barros Ribeiro em 03 de junho de 2004
Resumo: E eis que está montado o palco para uma nova tragicomédia: no centro de um caso de desvio de recursos públicos, Mauro Dutra, o amigo do presidente, arrecadador de sua campanha. © 2004 MidiaSemMascara.org

Ágora, na Grécia Antiga, significava o local onde eram realizadas as assembléias públicas para a tomada de decisões. Ágape, entre outros significados, tem o de banquete.
Salvo melhor juízo, a Ágora nacional (nascida em 1993, quando Mauro Dutra associou-se ao então futuro governador Cristovam Buarque e outros amigos petistas de Brasília para criar uma ONG destinada a combater a fome e a pobreza) deveria ser, mais apropriadamente, chamada de Ágape. Afinal, em torno da sua mesa, muitos banquetes devem ter sido servidos a comensais de alto coturno. E mais uma vez, numa seqüência que se amiúda, nomes ligados aos altos escalões governamentais aparecem na mídia, acusados da prática de atos pouco lícitos.
Mauro Dutra, petista da gema, arrecadador de recursos para campanhas eleitorais, dono da Novadata (empresa que fabrica computadores), companheiro de pescarias e íntimo amigo do presidente, hoje está em palpos de aranha: o Ministério Público do Distrito Federal deverá entrar com uma ação judicial para que a Ágora devolva quase 900.000 reais aos cofres públicos. A maior parte do dinheiro, conforme a investigação, saiu do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e deveria ter sido aplicada na qualificação de trabalhadores no Distrito Federal, em São Paulo e no Rio Grande do Sul, regiões que firmaram convênio com a ONG petista. Na contabilidade da Ágora, porém, em vez de encontrarem provas de que o dinheiro teve o destino previsto, os promotores encontraram uma pilha de notas fiscais frias, somando quase 900.000 reais. Até a Noruega foi engambelada pela ONG petista: em 2001, a empresa recebeu 54.700 reais da embaixada norueguesa para ensinar noções de direitos humanos a servidores públicos de Alagoas. Na contabilidade da ONG, há duas notas desse convênio - uma de 7.500 reais; outra de 7.000 reais - grosseiramente falsificadas. Donde se conclui que quase 30% da verba da Noruega evaporaram-se.
De 1997 para cá, a Ágora recebeu mais de 25 milhões de reais em dinheiro do FAT liberado pelos governos de Brasília, São Paulo e do Rio Grande do Sul. Entre 1997 e 1998, recebeu 4,4 milhões de reais do governo do Distrito Federal para qualificar 12.500 trabalhadores. Seu melhor momento, no entanto, aconteceu nos cinco meses que antecederam a eleição de 1998. Naquela época, sob a gestão de Cristovam Buarque que concorria à reeleição, o Distrito Federal destinou 2,8 milhões de reais à Ágora. Ou seja: em cinco meses, a entidade recebeu mais de 10% de toda a verba que ganharia ao longo de sete anos. As falcatruas ONG começaram a aparecer justamente naquela época. O Ministério Público, ao investigar o que fora feito dos 4,4 milhões liberados em 1997 e 1998, acabou descobrindo que a Ágora remunerara seus dirigentes, o que é proibido. Quase 500.000 reais foram parar no bolso de dois deles, ambos militantes do PT. Além disso, a investigação do Ministério Público descobriu que aquela quantia não tinha sido usada na qualificação de trabalhadores. Parte da verba bancou viagem de um diretor para a Europa e pagou festa de confraternização de funcionários da Secretaria do Trabalho - e, por fim, a Ágora não conseguiu apresentar provas de que tivesse mesmo qualificado os 12.500 trabalhadores.
Além de Mauro Dutra, um outro nome aparece. E onde? Swedenberger Barbosa, dentista de profissão, que em abril de 2001 tornou-se sócio e dirigente da Ágora, dali saindo em janeiro de 2003, para assumir o cargo de secretario-executivo da Casa Civil, onde é o virtual braço direito do ministro José Dirceu. Antes, quando da gestão de Cristovam Buarque no governo do DF (1995-1998), foi seu auxiliar mais próximo e, quando Cristovam Buarque tentou um segundo mandato, Swendenberger foi o coordenador de sua campanha.
E eis que está montado o palco para uma nova tragicomédia: no centro de um caso de desvio de recursos públicos, Mauro Dutra, o amigo do presidente, arrecadador de sua campanha e receptor de dinheiro do governo; como principal coadjuvante, um assessor de José Dirceu - não um assessor qualquer, mas seu principal auxiliar, o dentista Swendenberger Barbosa.
Com amigos assim, o presidente e seu primeiro-ministro nem precisam de inimigos.