Saturday, September 24, 2005

GALEANO E O CONTINENTE EM EBULIÇÃO

O uruguaio comenta as crises políticas de hoje e a atualidade de As Veias Abertas da América Latina, lançado há 35 anos
Mariana CamarottiEspecial para o Estado MONTEVIDÉU

Aos 35 anos da primeira edição do seu livro As Veias Abertas da América Latina, que marcou a literatura e a resistência do continente, o escritor uruguaio Eduardo Galeano, de 65 anos, fala de sua atual visão da América Latina e da decepção que é a crise política brasileira. Bocas do Tempo, seu mais recente livro, lançado no ano passado, já está na segunda edição no Brasil. Amante das palavras e dos desenhos, esse escritor andante conta quem são as vozes dos seus textos e diz que nós temos medo da liberdade. Autor de 14 livros e várias antologias, ele é lido em mais de 20 idiomas em todo o mundo. Essa entrevista foi concedida ao Estado no Café Brasilero, em Montevidéu, local que Galeano chama de sua segunda casa.
Seu livro As Veias Abertas da América Latina está completando 35 anos...
Tanto? É verdade, foi em 1970... é um senhor bastante respeitável.
Sua visão de América Latina na época em que escreveu é a mesma de hoje?
O essencial, sim.
O que tem a ver com esse livro em particular, com os temas de que trata.
Não me arrependo de uma só palavra, mas claro que mudei, estou vivo. Recentemente o reli para corrigir alguns pequenos detalhes e o reli com alegria. É um livro como qual me identifico ainda. O texto não estava errado, a realidade lhe deu a razão. E tem uma pergunta essencial: o subdesenvolvimento é uma etapa no caminho do desenvolvimento ou é conseqüência do desenvolvimento alheio? Uma criança e um anão se parecem, mas não são a mesma coisa. Não estamos vivendo a infância do capitalismo, somos um produto deformado do desenvolvimento alheio. Não há nenhuma riqueza que seja inocente da pobreza dos outros. O abismo que separa os que têm dos que necessitam é hoje muito maior do que quando eu escrevi o livro.Está escrevendo alguma coisa?Sim, mas não conto, pois perco a vontade. Dos outros eu falei antes, publiquei algumas coisas antes. Mas com esse, quero que seja mais secreto. É um projeto novo e estou muito entusiasmado.A América Latina vive uma grande ebulição neste momento, com crises políticas e sociais no Brasil, Argentina, Venezuela e Bolívia, por exemplo. Qual o problema, não estamos prontos para viver a democracia?Quando estava no exílio, na Espanha, soltei o coelho da índia da minha filha, que vivia enjaulado e me dava pena. Aproveitei que íamos sair. Horas depois, quando voltamos, o bichinho estava tremendo em um canto da jaula, com medo da liberdade. A liberdade dá muito medo, ao bichinho e a nós também. Mas, nesses últimos anos, movimentos sociais têm defendido a participação popular, tentando estender o conceito de democracia além do direito de votar cada quatro ou cinco anos. Nisso, eu acho que houve um grande avanço, há um desenvolvimento de base muito mais articulado, há uma vontade democrática de expressão. As pessoas que sempre estiveram marginalizadas nunca foram escutadas.E são as pessoas que merecem ser ouvidas.
Você utiliza essas vozespara escrever. São elas que estão em Bocas do Tempo e em outros livros?
Ser digno dessas vozes... será que eu as mereço? Tenho enorme respeito pelas vozes desprezadas e não escutadas. As vozes estabelecidas, do poder, são um rotina do eco perpétuo, como se fossem fatalidade do destino.Mas para não ser mudo, há que se começar a não ser surdo.Por que quis fazer o livro Mulheres?É uma antologia, uma reunião de textos de outros livros que revelam minha atração pelo mistério que são as mulheres.Freud inventou aquela história da inveja do pênis, mas eu acho que foi para disfarçar o pânico que nós temos delas.Qual a importância dos mitos para o seu trabalho?Adoro os mitos. Eles são um poema, uma metáfora coletiva, sem autor, às vezes muito reveladores da identidade e memória dos povos. Quando eu estava escrevendo Memória do Fogo, enfrentei o desafio de escrever sobre a América antes da conquista européia. Era muito difícil adivinhar como era a América antes que a Europa viesse a humilhá-la. Nos mitos indígenas, eu encontrei as chaves para entrar nessa história.Qualosignificado dosdesenhosnos seus livros?Para mim, imagens e palavras formam uma unidade. Não são livros ilustrados, mas sim aventuras de comunhão entre a linguagem plástica e a linguagem literária, um diálogo. Os espaços brancos nas páginas são silêncios. Eu faço o desenho de cada página e cuido desses espaços que parecem vazios, mas que na verdade estão habitados pelo silêncio, que é também uma linguagem, embora fale calando. A minha melhor experiência de trabalho compartilhado, imagens e palavras, foi feita com J. Borges, o grande artista nordestino da literatura de cordel. Trabalhamos juntos três anos, ele com suas gravuras, eu com minhas histórias, num livro que se chama As Palavras Andantes.Você demora para escrever?Eu sou muito lento para escrever, porque corrijo, faço de novo. Das histórias pequenas que formam Bocas do Tempo, a metade não entrou porque não encaixa, não fazem parte da trama, um trançado. Esse último levou oito anos, porque eu fiz outro no caminho, que foi De Pernas Pro Ar.Mas já tinha começado esse há tempo. São 333 histórias, num processo de seleção em mais de 500. Que são as que encaixaram nesse fluxo de rio que corre e que vai atravessando a infância, o amor, o poder, o medo, os diferentes temas da vida humana. E fui tecendo. Digo isso porque a palavra texto vem da palavra em latim textum, que significa tecido. Ou seja, quem escreve tece.Sua mulher é bem exigente com seus textos e os corrige, não é?Ela é implacável e, para mim, há duas coisas que me servem muito. Quando escrevo, leio em voz alta, porque o som me mostra se faltam ou sobram palavras. E depois a leitura implacável de Helena, que é uma crítica feroz. É muito difícil arrancar-lhe um elogio, só consigo por erro dela ou distração.Ela também é a Helena que sonha nos seus livros?Ela sonha muito, é uma máquina de sonhar e tem sonhos maravilhosos. E eu roubo os sonhos dela porque os meus são horríveis, medíocres, em que eu perco um avião ou tenho de fazer uma tramitação. Já os dela são esplêndidos. Por exemplo, há pouco sonhou que estávamos na fila para passar na máquina que controla as malas no aeroporto. Ela estava com o travesseiro com que tinha dormido na noite anterior e era obrigada o passálo. Essa esteira lia os sonhos, porque o travesseiro guardava o que você tinha sonhado.E ela conta esses sonhos maravilhosos na mesa do café da manhã, para me humilhar quando começa o dia.O que você lê?Tudo o que cai nas minhas mãos, mas principalmente história, sempre em busca de alguma pérola escondida. Leio história como um jornal, leio um livro do século 18 e é como um jornal de hoje. Sabendo que também nos jornais há pérolas escondidas. A vida cotidiana, sem graça, inócua, tem energias insuspeitáveis que estão aí esperando que alguém as descubra e as escute. E principalmente nessas pequenas coisas da vida passada mais remota ou recente é onde estão as vozes que eu dizia que valem a pena ser escutadas. São as únicas capazes de revelar a grandeza do mundo, de ajudar-nos a acreditar que a aventura de viver vale a pena.