Sunday, September 04, 2005

Entrevista com IZAR

‘Recebi pressão de pelo menos dez deputados’
Evandro Éboli e Maria LimaBRASÍLIA.
O cargo de presidente do Conselho de Ética da Câmara, instância que irá julgar o destino de 18 parlamentares envolvidos na maior crise política do governo Lula, garantirá ao deputado Ricardo Izar (PTB-SP) mais do que dias de exposição na mídia. Horas depois de o Conselho aprovar por unanimidade a cassação do mandato do deputado Roberto Jefferson, ele recebeu O GLOBO em seu gabinete e revelou que está sendo ameaçado por colegas deputados. Como medida preventiva, procurou autoridades judiciais e relatou as ameaças que tem recebido pelos corredores da Câmara. Diz que foi orientado e está gravando regularmente, em fitas cassetes muito bem guardadas, todos esses episódios. Advogado, deputado no quinto mandato, Ricardo Izar já passou por vários partidos. Iniciou sua vida política ainda jovem em 1963, com a filiação ao antigo PL. Até 1999 andou pelos partidos do campo da direita — Arena, PDS, PFL e PPB (hoje PP). Passou para o PMDB e depois PSDB, que trocou, em 2001, pelo PTB.

Aprovado o caso do Roberto Jefferson no Conselho, o senhor se sente aliviado?
RICARDO IZAR: Foi um dos processos mais importantes. A partir de agora começam os outros casos. Possivelmente pelo menos mais 13 casos. Os mais importantes e que estão no conselho neste momento são de José Dirceu (PT-SP) e de Sandro Mabel (PL-GO).
Dos 18 processos que deverão ser remetidos ao Conselho de Ética, quantos chegarão ao plenário?
IZAR: Entre oito a dez casos. Fazendo uma avaliação de longe e analisando os documentos que recebemos até agora, temos uma noção das coisas. E também com base no que já se passou nas CPIs dos Correios e do Mensalão. A conta é de oito casos graves. No fim da crise, acredito que de oito a dez serão cassados. Muitos deputados acreditam que a não confirmação do mensalão pode livrá-los. Eles estão certos? IZAR: Não, estão errados. Para nós, se isso tem nome de mensalão, de retirada irregular ou dinheiro vindo do BMG, do Banco Rural ou de Marcos Valério, não interessa. Tudo é irregularidade. Desde que iniciou-se essa crise, o senhor recebeu ameaças por presidir o conselho que irá julgar o destino dos deputados acusados de quebra de decoro? IZAR: Recebi sim. Ameaças que prefiro chamar de pressões exageradas. Recebi mesmo. Mas ameaças de que natureza? IZAR: Pressões que me incomodaram bastante, mas tomei providências. Gravei muitas coisas, contando essas histórias. E contei também para autoridades do Judiciário. É para mostrar que realmente existe a pressão e que as ameaças aconteciam. Procurei uma autoridade, expliquei e gravei. E vamos guardar as fitas. Gravei como um documento. As ameaças eram feitas diretamente por deputados? IZAR: Por deputados e assessores deles, que me cercam pelos cantos do Congresso. Mandam os recados deles. Outros telefonam. Quantos parlamentares o ameaçaram? IZAR: Recebi pressão de pelo menos dez deputados. Exageradas, de dois deputados. Deputados de que partido? IZAR: Não sei. Prefiro não falar. O que eles diziam? IZAR: Diziam: ‘Se o processo não correr do jeito que queremos vamos criar problemas para você, para o relator, para outro relator’. Alguns querem que eu segure e não deixe o processo andar. Outro diz que vai inventar histórias a meu respeito. Um deles foi tão descarado que me disse: ‘Não tem nada podre a seu respeito, mas se nós inventarmos...’ O senhor recebeu alguma ligação anônima? IZAR: Não, tudo dito abertamente. E os que o abordam pessoalmente, o que dizem? IZAR: Alguns choraram. Dizem que estão magoados, tristes e emocionados. Dizem que não imaginavam que um dia poderia acontecer uma coisa dessas com eles. Querem mostrar a verdade, que terão que mostrar no andamento do processo. O senhor teme por sua vida? IZAR: Eles não vão ter coragem de fazer coisa alguma. Como podem fazer alguma coisa? Como denunciar? Pediu proteção policial? IZAR: Tenho 19 anos de Câmara. Sou calejado e as pressões não me alcançam. Falei com os relatores sobre o assunto e disse para esquecerem. É uma forma de desespero de alguns. Chegou a ser divulgado que o líder do PP, José Janene (PR), teria ameaçado levar com ele, caso seja cassado, outros 29 deputados. IZAR: Não chegou nada disso aqui. Mas parlamentares comentaram com o senhor... IZAR: Lógico, vocês sabem como é a Casa. O senhor recebeu pressão do seu partido, o PTB? IZAR: Não é bem pressão. É desagradável para mim julgar alguém do meu partido, mas não falei com Roberto Jefferson nesse tempo. Só com os advogados dele. Sou o presidente do Conselho e digo a eles que não sou eu que voto. O senhor concorda com o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), quando ele fala em graduação de penas? IZAR: Graduação quem vai dar é o Conselho de Ética. Vamos analisar o grau de irregularidade e temos quatro possibilidades: advertência oral ou escrita lida no plenário; suspensão de um mês; suspensão de seis meses sem direito de participar de todas as atividades da Câmara; e cassação do mandato. E o caso do ex-ministro José Dirceu (PT-SP), que alega não ter provas concretas contra ele? Se Dirceu fosse julgado com as acusações que têm hoje, ele deveria ser cassado? IZAR: Hoje não tem condições. Vamos ouvir testemunhas, temos alguns documentos que estão chegando e que serão analisados. O processo de Dirceu será instaurado para valer a partir do dia 12. Aí começa a esquentar, como o caso do Jefferson. Vai crescendo. Ele está dificultando os trabalhos do conselho? IZAR: Não. Pelo contrário. E o fato de Dirceu ter acumulado subsídio de parlamentar com proventos de conselheiro da Petrobrás? IZAR: É o primeiro problema que ele terá. A Consultoria Legislativa da Câmara já disse que ele irá responder ao processo como se deputado fosse, e não como ministro, o que levaria o caso para o Supremo Tribunal Federal. Severino disse que não temos estrutura. Mas estamos inovando para agilizar os processos. O senhor imaginou, quando assumiu o Conselho, que tinha julgado apenas três casos até então, que iria enfrentar essa avalanche de processos contra colegas? IZAR: Claro que não. Quando vim para cá, a brincadeira é que fui nomeado para o Conselho como prêmio de consolação. Isso porque eu pretendia outro cargo da Casa, a procuradoria-geral. E agora, repercute nas ruas? IZAR: Uma coisa que me impressiona é o acompanhamento da população. É uma coisa linda. Gente de todas as camadas sociais. Fui fazer uma palestra sobre habitação urbana e me pediram para não fazer e falar sobre o Conselho de Ética. O PTB deverá apoiar Lula novamente em 2006? IZAR: Acho difícil. O quadro político agora é outro. Não sabemos o rumo, mas vai surgir um novo PTB.