Tuesday, September 27, 2005

A CULPA HISTÓRICA DA IMPRENSA

A culpa histórica da imprensa
Quando o ministro José Dirceu era um dos mais ativos homens da oposição, nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, os jornalistas não poucas vezes foram acusados por tucanos e pefelistas de estarem ''a serviço de Lula e do PT''. As críticas recrudesciam e aumentavam à medida que subia o tom das denúncias sobre práticas de que hoje os petistas são acusados.
Assim ocorreu, por exemplo, quando estourou o escândalo da alegada compra de votos de parlamentares para garantir a emenda da reeleição de Fernando Henrique. Ou quando as reportagens escancaravam detalhes da conduta que se tornou conhecida como é dando que se recebe: cargos, emendas e outras vantagens eram trocados por votos para garantir algumas reformas que o governo tucano insistia em votar.
Também ganharam as manchetes as tentativas da oposição de abrir comissões parlamentares de inquérito para investigar supostos desmandos do governo. A então base de apoio do Planalto lutava para abafá-las, geralmente com êxito.
Nada muito diferente do que acontece hoje no embate entre o PT no governo e a coligação PSDB-PFL. A mídia, em diversos pronunciamentos, tem sido acusada de estar a serviço dos tucanos e mesmo de participar ativamente de um suposto movimento articulado para derrubar o presidente Lula ou, pelo menos, evitar que se ele se candidate à reeleição.
A recente inquirição de Daniel Dantas na CPI dos Bingos foi um perfeito exemplo de como os costumes quase não mudaram. Os líderes mais exaltados do governo e da oposição preferiram jogar o o banqueiro no colo do adversário, temerosos de que fossem reveladas ligações perigosas que incriminassem algum dos lados.
Em lugar de perguntas objetivas, destinadas a investigar com rigor financiamentos que teriam sido feitas pelo banqueiro, petistas de um lado, tucanos e pefelistas de outro, preferiram polemizar - e de forma áspera - sobre quem cometeu mais irregularidades em seus respectivos períodos de governo.
Desde que estourou o escândalo do mensalão, foram revelados muitos fatos graves: o financiamento regular do valerioduto para petistas e aliados, milhares de dólares transportados em cuecas, confissão de caixa 2 pelo tesoureiro do PT, um Land Rover aceito como presente de uma empreiteira pelo então secretário-geral do partido e a confissão do publicitário Duda Mendonça de que seus serviços à campanha presidencial foram pagos por meio de uma conta aberta no exterior. Estes são apenas alguns exemplos.
As críticas mais contundentes aos métodos empregados pela direção do partido partiram não da oposição mas de petistas envergonhados e revoltados. Cabeças rolaram no governo e na direção do PT, de onde parlamentares e militantes históricos iniciaram uma debandada. Não foi necessária uma conspiração para que fatos concretos fossem revelados e noticiados.
www.jbonline.com.br - 28/09/2005