Thursday, September 08, 2005

ASSIM NASCEM AS MAFIAS

07.09.2005 GUILHERME FIUZA
Quando terminou o debate entre José Serra e Marta Suplicy na TV Globo, na campanha municipal de 2004, várias testemunhas viram o então ministro chefe da Casa Civil, José Dirceu, vociferando contra representantes da emissora. O mediador do debate, Chico Pinheiro, tinha cortado uma resposta da prefeita, candidata do PT, considerando que ela se afastara do objeto da pergunta – o que as regras do debate não permitiam. Dirceu interpelou os executivos da emissora duramente, diante do público que se retirava do estúdio, como se fosse o dono da estação de TV.Recentemente, o deputado José Dirceu, já não mais ministro, pediu à mesma emissora a cabeça de Arnaldo Jabor. O comentarista afirmara, a propósito das denúncias feitas pelo ex-assessor de Antonio Palocci, que Dirceu estava se movimentando contra o ministro da Fazenda. O comentário foi suficiente para Dirceu achar que Jabor tinha ferido a liberdade de expressão e ultrapassado os limites da convivência democrática.A crise no PT mostra que democracia é hoje uma das palavras mais gastas do vocabulário nacional. Ainda com a boca na botija, Delúbio Soares, o despachante do caixa dois, gritava que era tudo uma conspiração da direita contra os democratas. Arrecadou milhões e milhões com esse papo de democracia. Os xiitas do PSOL, que não podem ler um artigo criticando Heloísa Helena e já partem para o insulto, também apresentam-se como combatentes da democracia refugiados da opressão partidária. Quem serão os autoritários?O episódio de Dirceu no debate da Globo ainda é menos grave do que o seguinte. Afinal, ainda era um ministro central do governo, e esses cargos às vezes sobem mesmo à cabeça do ocupante. O espantoso, porém, é o ex-ministro e deputado prestes a ser cassado arranjar fôlego para pedir a cabeça de um funcionário da emissora. Não se trata mais de soberba ou arrogância do poder. Aparece ali, em estado puro, sua sanha pessoal de controle sobre fatos e instituições que o cercam. Pode-se imaginar o que faria com o natimorto Conselho Nacional de Jornalismo nas mãos. No mínimo, uma farta coleção de cabeças de comentaristas abusados.Democracia, nenhum outro nome foi usado tantas vezes em vão no Brasil. É o nome que vem dando o lastro moral para essas ficções chamadas partidos políticos: sempre apresentados como as pedras fundamentais da representação cívica, sempre flagrados como fachada para tramas inconfessáveis. O PT, apresentado a vida inteira como amostra do legítimo organismo democrático, expõe agora sua vocação essencial: a de lavanderia de reputações.A direção do partido já decidiu que não vai punir nenhum de seus filiados envolvidos em operações de caixa dois e recebimento de mensalão. Por que não vai punir? Há alguma justificativa clara disponível ao grande público? Nenhuma. O partido apenas se reserva o direito de comportar-se como entidade privada e lidar com seus membros como bem entender. O mundo não tem nada com isso. Mas está vendo tudo, e o que se vê é uma entidade protegendo seus filiados já não mais à luz de uma causa, de um programa, de uma afinidade política que seja. O PT acoberta seus infratores única e exclusivamente por uma lógica de sobrevivência grupal, familiar. Os petistas são protegidos porque são petistas. É uma lógica idêntica à da máfia. O conjunto de valores institucionais existe para preservar a célula, a teia. O código de lealdade inviolável é posto acima de qualquer outra lei, de forma que a integridade do grupo sempre prevaleça sobre o meio externo, em quaisquer circunstâncias. Com o fim da bandeira de oposição à ditadura militar, a derrocada da luta pela ética na política, a falência do combate à fome por inanição, parece ter sobrado ao PT a solidariedade da famiglia – um conluio de subsistência política na penumbra.Até onde um partido pode permanecer influente dessa maneira, zombando da legalidade e mirando em cabeças de comentaristas petulantes, não se sabe. A única certeza é que, naquilo que antigamente se chamava de democracia, uma agremiação assim não seria caso de política, mas de polícia.