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Friday, September 30, 2005

CHAVEZ FRACASSA

Editorial de O Globo
Obarril de petróleo aumentou mais de quatro vezes nos últimos seis anos e a Venezuela, um dos maiores exportadores do mundo, ganhou bilhões de dólares acima do previsto nas projeções mais otimistas. Apesar disso, nunca houve tantos venezuelanos pobres — mais da metade da população — e em nenhum outro período da História a pobreza cresceu em ritmo tão acelerado. Como demonstram estudos do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e do Instituto Nacional de Estatística (INE), do próprio país.

O coronel Hugo Chávez assumiu a Presidência em 1999 com o argumento de que a existência de miseráveis num país rico em petróleo era inadmissível e o compromisso de fazer uma revolução social, por ele apelidada de Revolução Bolivariana, para acabar com a pobreza em tempo recorde. Chávez, como se sabe, talvez concentre mais poderes do que qualquer dos seus predecessores, e o momento internacional dificilmente poderia ser mais favorável. O que deu errado?

Está claro que a Revolução Bolivariana, misto de assistencialismo, retórica populista e noções cediças de justiça social, longe de ser a solução para os males da Venezuela, é hoje o maior obstáculo à produção e distribuição de riqueza. O dinheiro extra que entra é malbaratado em programas de cunho propagandístico, que no máximo garantem aos necessitados a sobrevivência diária, da mão para a boca, mas não alteram suas condições de vida.

Chávez elegeu como guru Fidel Castro e como bússola o exemplo anacrônico de Cuba, não exatamente um modelo de prosperidade e democracia. Como se a vitória nas urnas fosse um cheque em branco, ele, falando sempre em nome do povo venezuelano, usa os poderes do Executivo para coagir o Judiciário, configurar o Legislativo à sua imagem e semelhança e intimidar a imprensa.

O resultado é um país que preserva as instituições como fachada, mas onde a vontade do presidente prevalece sobre a Constituição. Não por acaso a Venezuela de Chávez vive em crise, com as liberdades ameaçadas e o setor privado temeroso e inibido — mesmo com os preços do petróleo nas alturas. É um cenário radicalmente hostil aos investidores, que têm horror de imprevistos e, na economia global, são a garantia da produção contínua de riqueza.

BANCO SANTOS & PT

Exclusivo
Andando pelas provas do processo de falência do Banco Santos, que corre na 2ª vara de recuperação e falência, o promotor Alberto Camiña Moreira achou por bem selecionar algumas migalhas. Assim, em petição encaminhada esta semana, Camiña leva ao conhecimento do magistrado excertos do próprio processo, que pelo volume poderiam passar despercebidos. A petição, de fls 3.047/3.063, contém pérolas valiosas.
Tratam-se de gostosas trocas de e-mails entre o banqueiro Edemar Cid Ferreira e vários interlocutores. O membro do parquet esclarece que os documentos "revelam fatos criminosos, ou permitem inferências relativas a investigações levadas a efeito no âmbito do Congresso Nacional".
Todos os dados abaixo estão (ipsis litteris) na petição do MP, nos autos do processo n. 05.099371-2. Vejamos algumas migalhas:

De: Ângelo Potenza Para: Edemar Cid Ferreira Assunto: Obra Elisa Pereira dos Santos
Dr. Edemar
Em contato com Enga. Roberta, que está administrando a parte documental das obras junto a PMSP, tivemos o seguinte parecer: A primeira pedida da equipe da Regional ontem foi de: 75 mil a vista para a retomada imediata da obra sem rebaixamento da estrutura metálica 75 mil a 15 dias da publicação do alvará Hoje o número já foi negociado para 60 mil a vista para a retomada imediata da obra sem rebaixamento da estrutura metálica 60 mil a 15 dias da publicação do alvará.
Estamos tentando reduzir o valor total para menos de 100 mil.
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De: Ângelo Potenza Para: Edemar Cid Ferreira Assunto: Obra Elisa Pereira dos Santos
Dr. Edemar
Passamos para a regional nosso valor - 40 mais 40, mas não houve acordo. O número final deles é 55 mais 55.
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De: Edemar Cid Ferreira Para: Ângelo Potenza Assunto: RE: Obra Elisa Pereira dos Santos
AP
melhor aceitar a chantagem ecf
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De: Antonio Frederico Carvalheira de Mendonça Para: Matinelli, Mario Arcângelo Cc: Edemar Cid Ferreira Assunto: Pernambuco
Caro matinelli,
Conforme lhe falei, estive em Recife, e o governador Jarbas, manifestou interesse em discutirmos sobre a formatação da licitação, para a gestão da conta única do Governo do Estado. O contrato de exclusividade com o Bandepe, com a privatização agora Bco Real, está para vencer. Na próxima semana voltarei lá e convidarei o governador para nos visitar em Sampa, ok ? Frederico
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De: Edemar Cid Ferreira Para: Antonio Frederico Carvalheira de Mendonça; Matinelli, Mario Arcângelo Assunto: RE: Pernambuco
Ok, ecf
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De: delubio Para: Edemar Cid Ferreira Assunto: Visita
Bom dia Edemar,
gostaria de saber se você pode a semana que vem participar daquela reunião com Lula. Um abraço, delúbio.
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De: Edemar Cid Ferreira Para: 'delubio' Assunto: RE: Visita
Delubio, estou à disposição.
Grato ECF
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De: Alice Raquel Machado Para: Edemar Cid Ferreira Assunto: Convite Delúbio
Dr. Edemar,
O Delúbio fez um convite informal para um jantar em Brasília com uma Delegação da China (Restaurante Porção). O jantar é a partir das 20h30 da próxima terça-feira. Avisei que o senhor tem outro compromisso nesse horário (Evento: Comemoração aos 90 anos da Tomie Ohtake), Mas que eu falaria com o senhor e daríamos uma resposta na segunda-feira.
At. Alice
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De: Edemar Cid Ferreira Para: Alice Raquel Machado Assunto: RE : Convite Delúbio
Alice tenho interesse em ir.
Ecf

RIEM DO POVO!

http://oglobo.globo.com/jornal/img/capas/clicavel.jpg

PERIGO! ELES NÃO MORRERAM

O PT e a esperança

O vexame dado pela cúpula do PT envolvida em atos de corrupção produziu grande decepção e sentimento de indesculpável traição histórica. A vitória de Lula e do partido simbolizava a ruptura do estilo de poder com o qual as classes dominantes mantiveram sua dominação e que fizeram do Brasil um dos países mais injustos do mundo, dito teologicamente, onde mais campeia o pecado social que penaliza pesadamente os pobres e ofende a Deus.
Um tipo de sonho foi destruído. Mas não se destruiu a capacidade de sonhar
. Esta capacidade é intrínseca ao ser humano, pois percebemos que o dado não é todo o real. Pertence ao real o potencial, o que ainda não é e pode ser. Por isso a utopia não se antagoniza com a realidade. Ela revela a dimensão potencial e ideal da realidade. Bem dizia o velho E. Durkheim: ''A sociedade ideal não está fora da sociedade real: é parte dela''. Deste transfundo potencial nascem sempre as utopias. Sua função, já se disse belamente, é fazer-nos andar na medida em que vamos transformando as possibilidades em nova realidade. Esse é o desafio do novo PT: se refazer a partir de suas potencialidades internas.
Podemos perder a fé e isso é grave pois desaparece um sentido que vai além desta vida. Mas sobrevivemos. O que não podemos é perder a esperança, pois isso é trágico porque nos tira as razões de existir e de lutar. Então vivemos simplesmente porque não morremos, numa vida sem relevância.
Uma das expressões mais significativas que encontrei da esperança foi na Tate Gallery de Londres, de um pintor da escola simbolista Georg Frederik Watts (1817-1904). O quadro mostrava a Terra em forma de esfera toda conturbada por ondas avassaladoras e coberta de nuvens negras. Sobre ela sentava uma mulher com uma longa saia branca totalmente molhada como quem sobrevivera de um grande naufrágio. Estranhamente tinha os olhos vendados, mas segurava na mão uma arpa, com todas as cordas arrebentadas, menos uma. Tocava esta única corda, com o ouvido colado a ela como se estivesse ouvindo uma melodia quase imperceptível. Era a melodia da esperança. Tudo naufragara, menos essa melodia escondida na única corda. Enquanto houver ainda uma corda, pode-se refazer a melodia da Terra, consolar uma alma aflita e resgatar o sonho de um partido como o PT.
O PT se propôs cumprir uma missão histórica: melhorar a democracia na medida em que pudesse incorporar os milhões de excluídos por meio de um novo estilo de fazer política a partir das vítimas, vistas como sujeito histórico, consciente e organizado, com a ética da transparência, com propostas de mudanças e de distribuição de renda, fruto de um desenvolvimento socialmente justo e ecologicamente sustentado. Esse sonho não pode morrer. Ele representa um legado, a revolução possível dentro da democracia, revolução das grandes maiorias que já não podem mais esperar.
A crise atual abriu uma chaga que vai sarar. As recentes eleições internas mostraram a vitalidade das bases. Há virtualidades ainda não ensaidas que configurarão o perfil renovado do PT. Esse desafio é dos militantes mas também dos cidadãos interessados numa política submetida à ética e a ética que se articula com o cuidado, com a responsabilidade e com a com-paixão para com todos, para com os que sofrem, a Terra incluída.
Como escreveu Dom Pedro Casaldáliga: ''Podem tirar-nos tudo, menos a esperança fiel''. Há ainda caminho.

Thursday, September 29, 2005

ISO POLÍTICO!

Copiem o texto abaixo e enviem ao Senador que quiser. Aí do lado, tem o e-mail de todos, por PARTIDO!

ISO SIM

Se eu quiser exercer medicina, não posso. Preciso do diploma, obtido depois de pelo menos sete anos de estudo. Se eu quiser advogar, não posso. Preciso de diploma e exame da Ordem dos Advogados. Se eu quiser "engenheirar", não posso. Preciso do diploma de engenheiro. Se eu quiser ser gari, não posso. Tenho que ter diplomas básicos e passar por um teste físico.

Mas se eu quiser ser vereador, deputado, senador ou presidente da república, posso. Ninguém me pede credenciais. Diplomas. Nem mesmo testes físicos.
Daí o deprimente espetáculo que assistimos, protagonizado por atores que elegemos, vários deles falando um português sofrível, revelando valores morais questionáveis e praticando a política do balcão de trocas.

Pois tive uma idéia que nem original deve ser: a ISO Política.
A série ISO é uma família de padrões de gerenciamento da qualidade desenvolvidos em 1987. Um escritório central em Genebra coordena o sistema e publica os padrões que medem a qualidade dos sistemas de gerenciamento, em vez de produtos ou serviços específicos. A certificação ISO garante que a empresa tem um sistema de gerenciamento de qualidade adequado que atende aos padrões internacionais. Para a sua certificação, as empresas devem comprovar aos auditores da ISO que documentaram criteriosamente os seus processos e seguem esse sistema de forma consistente. Muitos órgãos governamentais e empresas em todo o mundo exigem conformidade com padrões ISO em várias de suas compras. E de tempos em tempos as empresas têm que se recertificar,
comprovando que mantêm os processos alinhados aos padrões.

A ISO é responsável por uma evolução sem precedentes do padrão de qualidade dos produtos e serviços brasileiros desde o início dos anos 90.

E que tal criar uma ISO Política? Uma instituição como a Fundação Getúlio Vargas, por exemplo, desenvolveria os padrões para quem quer se dedicar a cargos públicos. Qualquer candidato a vereador, deputado, senador, etc.
teria que se submeter aos auditores da ISO Política. E precisaria ter noções de política. Economia. Português. Administração. Ética. Atendimento a clientes.

Leis. Política...
E a ISO Política seria anunciada maciçamente. Um selo de qualidade. Quem banca? Nós. Eu. Você. Com o maior gosto. O custo desse processo seria infinitamente menor que os prejuízos hoje causados pela incompetência e má fé dos ilustres representantes por nós eleitos.

Só voto em quem tem ISO.
É claro que o certificado não garante que o produto final seja exatamente aquele que o cliente deseja. Mas garante que todo o processo é controlado, que a qualidade é consistente. Garante confiabilidade.
Confiabilidade... Exatamente aquilo que o diploma de médico, engenheiro e advogado representa.
Exatamente aquilo que anda em falta no país tropical.


Enviado pelo amigo Guilherme M.

PETRALHAS EM FESTA




CARTA DE FLORIANÓPOLIS

Íntegra da Carta de Florianópolis
Florianópolis (SC), 29/09/2005 - Segue a íntegra da Carta de Florianópolis, lida hoje pelo jurista Fábio Konder Comparato, medalha Ruy Barbosa, durante a cerimônia de encerramento da XIX Conferência Nacional dos Advogados."Há três anos, em Salvador, por ocasião da XVIII Conferência Nacional, os advogados brasileiros manifestaram publicamente sua esperança na regeneração política do País, com a eliminação das crônicas desigualdades sociais e dos focos de corrupção que ameaçavam a credibilidade das instituições públicas.Hoje, o sentimento geral é de completa frustração. Reunidos em Florianópolis (SC), na XIX Conferência Nacional dos Advogados, sob o tema “República, Poder e Cidadania”, os advogados brasileiros, interpretando os anseios da Nação, tornam pública a sua indignação com o descalabro administrativo, a corrupção, a impunidade e a ausência de políticas públicas que atendam aos objetivos fundamentais da República, declarados na Constituição Federal: construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização, e reduzir as desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos, sem preconceitos de qualquer espécie.O enfraquecimento dos poderes públicos prejudica o desempenho de sua tarefa maior, que é a defesa da soberania nacional, no que tange, notadamente, aos recursos energéticos, à biodiversidade e à floresta amazônica. Cumprindo seu dever estatutário, os advogados exigem a exemplar punição dos envolvidos em atos de corrupção e malversação de dinheiro público, observado o devido processo legal, impedindo-se que a renúncia ao mandato eletivo faça cessar o processo punitivo. Não podem os advogados aceitar que parte expressiva dos recursos públicos seja destinada a atender à ganância do sistema financeiro, enquanto os direitos fundamentais da pessoa humana, no que se refere ao acesso ao trabalho, à educação, à saúde, à moradia, à terra, à segurança e à Justiça, continuam sistematicamente negados.No tocante ao funcionamento do aparelho judiciário, é imperativo denunciar as constantes violações aos princípios da ampla defesa e da presunção de inocência, com o desrespeito, mediante ações sensacionalistas, à inviolabilidade profissional do advogado. Violar a advocacia é atentar contra a liberdade, e sem liberdade não há Estado democrático de Direito. A tão esperada Reforma do Judiciário, ainda que tenha apresentado alguns avanços, como a criação do Conselho Nacional de Justiça, cuja autonomia deve ser urgentemente assegurada, ficou muito aquém da expectativa da sociedade. O Judiciário continua distanciado da realidade social. A União, por sua vez, ameaça o equilíbrio federativo, na medida em que não promove a justa repartição da receita tributária entre Estados e Municípios. E o Executivo usurpa a função legislativa do Congresso Nacional, com a excessiva edição de Medidas Provisórias.Entendem os advogados que o simples aperfeiçoamento do sistema eleitoral é insuficiente para solucionar os graves problemas nacionais. Urge fazer atuar, de modo desembaraçado, os instrumentos de democracia direta consagrados na Constituição – o referendo, o plebiscito e a iniciativa popular –, bem como introduzir novos, tais como a revogação popular de mandatos eletivos e a participação popular na elaboração e execução de orçamentos, em todos os níveis da organização federativa. República, Poder e Cidadania, mais do que um tema, representa, na verdade, a confiança no povo brasileiro, única fonte legítima de todos os Poderes".

Tuesday, September 27, 2005

A CULPA HISTÓRICA DA IMPRENSA

A culpa histórica da imprensa
Quando o ministro José Dirceu era um dos mais ativos homens da oposição, nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, os jornalistas não poucas vezes foram acusados por tucanos e pefelistas de estarem ''a serviço de Lula e do PT''. As críticas recrudesciam e aumentavam à medida que subia o tom das denúncias sobre práticas de que hoje os petistas são acusados.
Assim ocorreu, por exemplo, quando estourou o escândalo da alegada compra de votos de parlamentares para garantir a emenda da reeleição de Fernando Henrique. Ou quando as reportagens escancaravam detalhes da conduta que se tornou conhecida como é dando que se recebe: cargos, emendas e outras vantagens eram trocados por votos para garantir algumas reformas que o governo tucano insistia em votar.
Também ganharam as manchetes as tentativas da oposição de abrir comissões parlamentares de inquérito para investigar supostos desmandos do governo. A então base de apoio do Planalto lutava para abafá-las, geralmente com êxito.
Nada muito diferente do que acontece hoje no embate entre o PT no governo e a coligação PSDB-PFL. A mídia, em diversos pronunciamentos, tem sido acusada de estar a serviço dos tucanos e mesmo de participar ativamente de um suposto movimento articulado para derrubar o presidente Lula ou, pelo menos, evitar que se ele se candidate à reeleição.
A recente inquirição de Daniel Dantas na CPI dos Bingos foi um perfeito exemplo de como os costumes quase não mudaram. Os líderes mais exaltados do governo e da oposição preferiram jogar o o banqueiro no colo do adversário, temerosos de que fossem reveladas ligações perigosas que incriminassem algum dos lados.
Em lugar de perguntas objetivas, destinadas a investigar com rigor financiamentos que teriam sido feitas pelo banqueiro, petistas de um lado, tucanos e pefelistas de outro, preferiram polemizar - e de forma áspera - sobre quem cometeu mais irregularidades em seus respectivos períodos de governo.
Desde que estourou o escândalo do mensalão, foram revelados muitos fatos graves: o financiamento regular do valerioduto para petistas e aliados, milhares de dólares transportados em cuecas, confissão de caixa 2 pelo tesoureiro do PT, um Land Rover aceito como presente de uma empreiteira pelo então secretário-geral do partido e a confissão do publicitário Duda Mendonça de que seus serviços à campanha presidencial foram pagos por meio de uma conta aberta no exterior. Estes são apenas alguns exemplos.
As críticas mais contundentes aos métodos empregados pela direção do partido partiram não da oposição mas de petistas envergonhados e revoltados. Cabeças rolaram no governo e na direção do PT, de onde parlamentares e militantes históricos iniciaram uma debandada. Não foi necessária uma conspiração para que fatos concretos fossem revelados e noticiados.
www.jbonline.com.br - 28/09/2005

DISCURSO LULA EM JULHO/2005

Discurso do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, no ato político de celebração aos 15 anos do Foro de São Paulo
São Paulo-SP, 02 de julho de 2005

Meus queridos companheiros e companheiras dirigentes do Foro de São Paulo que compõem a mesa,
Meus queridos companheiros e companheiras que nos estimulam com esta visita ao 12º Encontro do Foro de São Paulo,

Não preciso ler a nominata toda, porque os nomes já foram citados pelo menos três vezes. E se eu citar mais uma vez, daqui a pouco alguém vai querer se candidatar a vereador ou a prefeito, aqui, em São Paulo.
Primeiro, uma novidade: sabem por que a Nani está sentada lá atrás? Porque há poucos dias o Brasil ganhou da Argentina e ela não quer ficar aqui perto da mesa.
Meus companheiros, minhas companheiras,
Como sempre, eu tenho um discurso por escrito, como manda o bom protocolo da Presidência da República, mas, como sempre também, eu tenho uma vontade maluca de fazer o meu improviso.
E eu queria começar com uma visão que eu tenho do Foro de São Paulo. Eu que, junto com alguns companheiros e companheiras aqui, fundei esta instância de participação democrática da esquerda da América Latina, precisei chegar à Presidência da República para descobrir o quanto foi importante termos criado o Foro de São Paulo.
E digo isso porque, nesses 30 meses de governo, em função da existência do Foro de São Paulo, o companheiro Marco Aurélio tem exercido uma função extraordinária nesse trabalho de consolidação daquilo que começamos em 1990, quando éramos poucos, desacreditados e falávamos muito.
Foi assim que nós, em janeiro de 2003, propusemos ao nosso companheiro, presidente Chávez, a criação do Grupo de Amigos para encontrar uma solução tranqüila que, graças a Deus, aconteceu na Venezuela.
E só foi possível graças a uma ação política de companheiros. Não era uma ação política de um Estado com outro Estado, ou de um presidente com outro presidente. Quem está lembrado, o Chávez participou de um dos foros que fizemos em Havana. E graças a essa relação foi possível construirmos, com muitas divergências políticas, a consolidação do que aconteceu na Venezuela, com o referendo que consagrou o Chávez como presidente da Venezuela.
Foi assim que nós pudemos atuar junto a outros países com os nossos companheiros do movimento social, dos partidos daqueles países, do movimento sindical, sempre utilizando a relação construída no Foro de São Paulo para que pudéssemos conversar sem que parecesse e sem que as pessoas entendessem qualquer interferência política. Foi assim que surgiu a nossa convicção de que era preciso fazer com que a integração da América Latina deixasse de ser um discurso feito por todos aqueles que, em algum momento, se candidataram a alguma coisa, para se tornar uma política concreta e real de ação dos governantes. Foi assim que nós assistimos a evolução política no nosso continente.
Certamente não é tudo que as pessoas desejam, se olharmos o ideal do futuro que queremos construir, mas foi muito, se nós olharmos o que éramos poucos anos atrás no nosso continente. Era um continente marcado por golpes militares, era um continente marcado por ausência de democracia. E hoje nós somos um continente em que a esquerda deu, definitivamente, um passo extraordinário para apostar que é plenamente possível, pela via democrática, chegar ao poder e exercer esse poder. Esse poder que é construído no dia-a-dia, esse poder que é construído a cada momento com muita dificuldade. Mas, quando exerce o cargo de presidente da República de um país, ele não será lembrado apenas pela quantidade de obras que conseguiu realizar ou apenas pela quantidade de políticas sociais que ele fez.
Eu tenho feito questão de afirmar, em quase todos os pronunciamentos, que a coisa mais importante que um governante pode fazer é estabelecer um novo padrão de relação entre o Estado e a sociedade, entre o governo e as entidades da sociedade civil organizada. E consolidar, de tal forma, que isso possa ser duradouro, independente de quem seja o governo do país.
E é por isso que eu, talvez mais do que muitos, valorize o Foro de São Paulo, porque tinha noção do que éramos antes, tinha noção do que foi a nossa primeira reunião e tenho noção do avanço que nós tivemos no nosso continente, sobretudo na nossa querida América do Sul.
Todas as vezes que um de nós quiser fazer críticas justas, e com todo direito, nós temos que olhar o que éramos há cinco anos atrás na América Latina, dez anos atrás, para a gente perceber a evolução que aconteceu em quase todos os países da nossa América.
E eu quero dizer para vocês que muito mais feliz eu fico quando tomo a informação, pelo Marco Aurélio ou pela imprensa, de que um companheiro do Foro de São Paulo foi eleito presidente da Assembléia, foi eleito prefeito de uma cidade, foi eleito deputado federal, senador, porque significa a aposta decisiva na consolidação da democracia no nosso país.
Se não fosse assim, o que teria acontecido no Equador com a saída do Lucio Gutiérrez? Embora o Presidente tenha saído, a verdade é que o processo democrático já está mais consolidado do que há dez anos atrás.
O que seria da Bolívia com a saída do Carlos Mesa, recentemente, se não houvesse uma consciência democrática mais forte no nosso continente entre todas as forças que compõem aquele país?
A vitória de Tabaré, no Uruguai: quantos anos de espera, quantas derrotas, tanto quanto as minhas. Ou seja, a paciência de esperar, de construir, de somar, de estabelecer políticas que pudessem consolidar, definitivamente, não apenas a vitória, mas tirar o medo de muita gente do povo, que se assustava quando imaginava que a esquerda pudesse ganhar uma eleição.
O que significa a passagem da Argentina? Num momento em que ninguém queria ser presidente, o Duhalde assume e consegue, em dois anos, não só começar a recuperar a economia da Argentina, como consegue eleger um sucessor com a personalidade do presidente Kirchner.
Os chilenos, depois de tantas e tantas amarguras, num período que muita gente não quer nem se lembrar, estão agora prestes a, pela quarta vez consecutiva, reeleger um presidente, eu espero que uma presidente, ou seja, uma mulher presidente daquele país. Isso não é pouco, isso é muito.
E o que nós precisamos é trabalhar para consolidar, para que a gente não permita que haja qualquer retrocesso nessas conquistas, que são que nem uma escada: a gente vai conquistando degrau por degrau. E, às vezes, até paramos um pouco num degrau para dar um passo um pouco maior, porque se tentarmos dar um passo muito grande poderemos cair, nos machucar e a caminhada retrocederá.
O Foro de São Paulo, na verdade, nos ensinou a agir como companheiros, mesmo na diversidade. A coordenação do Foro de São Paulo, que envolvia parte das pessoas que estão aqui, não pensava do mesmo jeito, não acreditava nas mesmas profecias, mas acreditava que o Foro de São Paulo poderia ser um caminho. E foram inúmeras daquelas reuniões que ninguém quer participar, às vezes, pegar um vôo, andar quatro, cinco horas de avião e parando três, quatro vezes para chegar num lugar e encontrar meia dúzia de companheiros para se reunir. E esses companheiros que tiveram a coragem de assumir essa tarefa, eu acho que hoje podem estar orgulhosos, porque valeu a pena a gente criar o Foro de São Paulo.
No começo, eu me lembro que alguns partidos nem queriam participar, porque acharam que nós éramos um bando de malucos. O que não faltava eram adjetivos. E quanto mais perto as pessoas iam chegando do poder, mais distantes iam ficando do Foro de São Paulo.
A minha vinda aqui, hoje, é para reafirmar uma coisa: a gente não precisa esquecer os nossos companheiros quando a gente ganha uma eleição para presidente da República. A gente precisa continuar tendo as nossas referências para que a gente possa fazer cada vez mais e cada vez melhor. E é isso que eu quero fazer como exemplo, ao sair de Brasília e vir aqui.
Vocês sabem que eu não posso brincar o tanto que eu já brinquei, as coisas que fazia nos outros, porque quando nós começamos o Foro de São Paulo, a gente ficava implorando para ter um jornalista e não tinha nenhum. E hoje tem muitos e eu já não posso fazer as brincadeiras, eu não posso fazer o que fazia antes e nem dizer tudo o que eu dizia antes.
Mas uma coisa eu quero que vocês saibam: valeu a pena acreditar em nós mesmos e saber que nós vamos levar muitos anos, muitos... Nós não conseguiremos fazer as transformações que acreditamos e por que brigamos tantos anos em pouco tempo. É um processo de consolidação.
Eu estava vendo as imagens do primeiro encontro e fico triste porque a velhice é implacável. A velhice parece que só não mexe com a Clara Charf, que é do mesmo jeito desde que começou o primeiro Foro, mas todos nós, da mesa, envelhecemos muito. Espero que tenha valido a pena envelhecer, Marco Aurélio. Eu me lembro que eu não tinha um fio de cabelo branco, um fio de barba branca e hoje estou aqui, todos estão, de barba branca.
Meus companheiros,
Eu estou feliz porque vocês acreditaram. Reuniões que não eram fáceis, difíceis, muitas vezes as divergências eram maiores que as concordâncias e sempre tinha a turma que fazia o meio de campo para contemporizar, procurar uma palavra adequada para que não houvesse nada que pudesse criar embaraço para o Foro de São Paulo.
Eu quero dizer uma coisa para vocês: não está longe o dia em que o Foro de São Paulo vai poder se reunir e ter, aqui, um grande número de presidentes da República que participaram do Foro de São Paulo.
As coisas caminham para isso. Nós aprendemos que a organização da sociedade é um instrumento excepcional e nós aprendemos que o processo democrático pode garantir que a gente concretize esses sonhos nossos.
No Brasil, eu espero que o PT tenha preparado para vocês os informes que vocês devem levar para os seus países, e é importante que o Foro de São Paulo consiga que os outros países apresentem também as coisas que estão acontecendo em cada país, para que a gente vá consolidando os avanços das políticas sociais que tanto nosso povo precisa.
Esses dias eu estava assinando, ou melhor, sancionando o Fundo de Habitação Popular, lá em Brasília, e não tinha me dado conta de que, quando foi falar o líder do povo, que luta por habitação no Brasil, ele não agradeceu a lei que vai criar o Fundo, ele não fez menção. A coisa mais importante para ele não era o fato de termos criado uma lei que criava um fundo de moradia; a coisa que mais o marcou no discurso é que era a segunda vez que ele tinha conseguido entrar no Palácio de governo do Brasil. E aí a minha memória voltou a 1994, o Marco Aurélio estava comigo, quando eu fui visitar o Mandela. Na porta do Palácio tinha um monte de pessoas, mulheres e homens, andando felizes. E eu perguntei para o Mandela: o que essa gente faz aqui, desfilando? Ele falou: “Lula, essa gente era proibida de passar na frente do palácio, portanto, hoje eles vêm aqui. Só o fato de eles entrarem no recinto do Palácio, tem muitos que choram, tem muitos que querem colocar a mão na parede. E se eu estiver perto para tirar fotografia”, me dizia o Mandela, “então, isso é a realização máxima.”
Além disso a nossa relação, e é o Dulci que cuida da relação com o movimento social, eu penso que não existe, na história republicana, ou não sei se não existe na história da América do Sul, algum momento em que o movimento social esteve tão próximo das relações mais saudáveis possíveis com o governo do que nós temos hoje.
Vejam que os companheiros do Movimento Sem-Terra fizeram uma grande passeata em Brasília. Organizada, muito organizada. E todo mundo achava que era um grande protesto contra o governo. O que aconteceu? A passeata do Movimento Sem-Terra terminou em festa, porque nós fizemos um acordo entre o governo e o Movimento Sem-Terra, pela primeira vez na história, assinando um documento conjunto.
Alguns dias depois, foi a Confederação da Agricultura, milhares de trabalhadores. E quando chegaram no Palácio, já tinha um acordo firmado com os companheiros, que foram para as ruas fazer uma festa.
Esse tipo de comportamento, de mudança que houve no Brasil, demonstra que a democracia veio para ficar. A democracia veio, no nosso país, para se consolidar. E vocês, que são visitantes, companheiros que estão preocupados com as notícias que têm saído no Brasil, tenham consciência de uma coisa: seria impensável que eu fosse governar este país quatro anos e não tivesse problemas. Seria impensável, ou seja, nós já conseguimos o máximo, ou seja, nós já conseguimos fazer com que o FMI fosse embora sem precisar dar nenhum grito.
Eu dizia para o Palocci: Palocci, o que você vai fazer quando não precisar mais fazer acordo com o FMI? Porque alguns aqui passaram a vida inteira gritando, ou seja, de repente você construiu uma situação política em que não precisou fazer absolutamente nada a não ser dizer: não precisamos mais do acordo com o FMI.
Na política, o que está acontecendo eu encaro como uma certa turbulência, mas que só existe efetivamente num processo que vai se consolidando fortemente, da democracia.
Eu quero que vocês saibam e voltem para os seus países com a certeza de que eu entendo que a corrupção é uma das desgraças do nosso continente, e muitas vezes quando alguém falava que nós éramos pobres por conta do imperialismo, eu dizia: pode ser até meia-verdade, mas a outra verdade é que nesses países da América do Sul e da América Latina nem sempre nós tivemos dirigentes que fizessem as coisas corretas para o seu povo e com o dinheiro público.
É por isso que tenho afirmado, num pronunciamento, que seremos implacáveis com adversários e com aliados que acharem que podem continuar utilizando o dinheiro público para ficarem ricos, mas da mesma forma seremos também implacáveis no trabalho de consolidar o processo democrático brasileiro. Não permitiremos retrocesso. Alguns, antes de nós, morreram para que nós chegássemos onde nós chegamos, e nós temos consciência do sacrifício que se fez no Brasil, do sacrifício que se fez no Chile, do sacrifício que se fez na Argentina, do sacrifício que se fez no Uruguai, do sacrifício que se fez no Peru, do sacrifício que se fez na Colômbia, em todos os países, para que o povo pudesse sentir o gosto da coisa chamada democracia.
E, portanto, nós, estejam certos disso, o Lula que vocês conheceram há quinze anos atrás está mais velho, mas também muito mais experiente e muito mais consciente do papel que temos que jogar na política da América do Sul, da América Latina, da África e, eu diria, na nova concepção de política no mundo inteiro.
Não foi fácil criar o G-20, não. Não foi fácil convencer um grupo de países de que era possível mudar a geografia comercial do mundo se estabelecêssemos entre nós um grau de confiança e de relação em que pudéssemos, cada um de nós, entender que temos que nos ajudar muito mais. É por isso que hoje a gente pode olhar para vocês e dizer: a relação comercial Sul-Sul aumentou em mais de 50%. Nós estamos comprando mais e vendendo mais de nós mesmos. Nós estamos estabelecendo parcerias entre nossas empresas. Esses dias, fizemos não sei quantos acordos, 26 acordos, com a Venezuela. Agora foi feito um monte de acordos com a Colômbia. Estamos fazendo acordo com a Argentina, com o Chile, ou seja, os nossos empresários têm que se encontrar, estabelecer parceria. Os nossos sindicalistas têm que se encontrar e estabelecer formas conjuntas. Os partidos têm que se encontrar, os parlamentares têm que se encontrar, o Foro de São Paulo tem que exigir cada vez mais a criação de um parlamento do Mercosul para que a gente possa consolidar definitivamente o Mercosul, não como uma coisa comercial, mas como uma instância que leve em conta a política, o social, o comercial e o desenvolvimento.
Esses dias, nós fomos à Guiné-Bissau. Aliás nós já visitamos mais países da África, acho, do que todos os governantes da história do Brasil. E fomos à Guiné-Bissau e fizemos uma reunião. Guiné-Bissau é um país de língua portuguesa, pequeno, praticamente destruído. E eu dizia ao Presidente e aos parlamentares: para que guerra, para que uma guerra na Guiné-Bissau? É um país destruído. A única chance que aquele país tem é a construção da paz, eles têm que construir um país para depois brigar pelo poder, porque senão estão brigando em torno de nada. Nem o Palácio Presidencial está de pé. Eu fui ao banheiro do Presidente, não tinha água. E eu dizia: meu Deus do céu, vocês precisam encontrar um jeito de transformar a paz na mais importante bandeira de vocês, porque somente a partir dela é que vocês poderão construir o país.
Esse trabalho é um trabalho que leva anos e anos. E nós apenas estamos começando. Nós apenas estamos transitando pelo mundo tentando estabelecer uma nova ordem, em que a gente consiga as vitórias na Organização Mundial do Comércio, que precisamos. E foi assim que nós ganhamos a questão do açúcar, foi assim que nós ganhamos a questão do algodão, foi assim que nós ganhamos a questão do frango congelado. Parece pouco, mas era muito difícil ganhar uma coisa na Organização Mundial do Comércio. E por conta do G-20 já ganhamos três e poderemos ganhar muito mais, adotando o princípio que nós aprendemos desde que começamos a nossa militância política, de que se todos nós nos juntarmos, nós derrotaremos os outros.
Por isso, eu tenho viajado muito. Eu viajei, possivelmente, em dois anos, mais do que muitos presidentes viajaram e vou continuar viajando, porque as soluções para os problemas do Brasil não estão apenas dentro do Brasil, as soluções para os problemas de Cuba não estão só dentro de Cuba, não estão dentro da Argentina, não estão dentro da República Dominicana, não estão dentro do México, ou seja, é preciso que a gente resolva outros problemas externos para que a gente possa consolidar as soluções de alguns problemas internos.
Por isso, meus companheiros, minhas companheiras, saio daqui para Brasília com a consciência tranqüila de que esse filho nosso, de 15 anos de idade, chamado Foro de São Paulo, já adquiriu maturidade, já se transformou num adulto sábio. E eu estou certo de que nós poderemos continuar dando contribuição para outras forças políticas, em outros continentes, porque logo, logo, vamos ter que trazer os companheiros de países africanos para participarem do nosso movimento, para que a gente possa transformar as nossas convicções de relações Sul-Sul numa coisa muito verdadeira e não apenas numa coisa teórica.
E eu estou convencido de que o Foro de São Paulo continuará sendo essa ferramenta extraordinária que conseguiu fazer com que a América do Sul e a América Latina vivessem um dos melhores períodos de democracia de toda a existência do nosso continente.
Muito obrigado a vocês. Que Deus os abençoe e que eu possa continuar merecendo a confiança da Coordenação, que me convide a participar de outros foros. Até outro dia, companheiros.
http://www.info.planalto.gov.br/download/discursos/pr812a.doc

Sunday, September 25, 2005

JUROS / CONSEQUÊNCIAS

ANTÔNIO ERMÍRIO DE MORAES
Juros estratosféricos e graves conseqüências
O setor da agropecuária teve um extraordinário desempenho nos últimos anos e foi responsável por grande parte do nosso sucesso nas exportações e no combate à inflação.A safra de 2005/2006, entretanto, é motivo de preocupação. O problema mais grave está na área do câmbio. A maioria dos produtos brasileiros tem seu preço atrelado ao dólar, o que significa dizer que, dependendo do valor daquela moeda, as cotações podem subir ou descer.Nos últimos meses, o agricultor tem conseguido cada vez menos reais pelos produtos que exporta em dólar. Isso constitui um sério desestímulo, que está levando os especialistas a estimar uma redução da área plantada e a própria produtividade das culturas de exportação para a próxima safra.No ano passado, a agricultura brasileira sofreu muito com a seca que ocorreu no sul do país. A safra do setor de grãos teve uma redução expressiva no faturamento nominal em relação a 2004. Além da seca, conspirou contra a safra a queda dos preços das "commodities" no mercado internacional.Neste ano, o câmbio agravou ainda mais a situação dos produtores. Para muitos deles, os recursos do crédito agrícola servirão apenas para pagar as dívidas acumuladas em 2004. Daí a previsão preocupante.É triste verificar que um quadro tão melancólico atinja produtores eficientes e competitivos. Mais triste ainda é registrar que isso decorre, em grande parte, das taxas de juros estratosféricas que o Brasil vem praticando. A esperteza dos especuladores estrangeiros tem funcionado no sentido de injetar grandes quantidades de dólares no mercado financeiro para se beneficiarem dos juros reais mais altos do mundo.A abundância desses dólares deprime a taxa de câmbio e coloca os briosos exportadores agrícolas em situação desesperadora. Fala-se em uma forte redução do faturamento, o que constitui um grave desestímulo ao plantio e à modernização. A própria compra de insumos e equipamentos tenderá a cair como resultante do esfriamento do plantio. O secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Ivan Wedekin, acredita que cerca de 70% dos problemas que afetam a produção da safra 2005/2006 decorrem da valorização excessiva do real diante do dólar.Isso não é para desanimar, pois, no longo prazo, este país tem imensas possibilidades de exportar muito. Mas ninguém chega ao longo prazo se não sobreviver no curto prazo. O ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, tem classificado a situação como dramática, preocupando-se, com razão, com a sobrevivência dos produtores para enfrentar o futuro imediato.É verdade que a taxa de juros básicos começou a cair. Mas, ao que tudo indica, as quedas futuras serão lentas. O agricultor não pode adiar o plantio nem postergar o pagamento das dívidas. E, na verdade, não deveria ser injustiçado por uma política monetária unilateral que coloca em segundo plano a grande maioria de quem produz e gera empregos. Isso precisa mudar urgentemente.
antonio.ermirio@antonioermirio.com.br

Greenhalgh foi pivô de escândalo na eleição de 89

Greenhalgh foi pivô de escândalo na eleição de 89
São Paulo - A indicação de Greenhalgh para a presidência da Câmara, feita pelo grupo majoritário da bancada, exigiu uma atuação nos bastidores do presidente do partido, José Genoino, para tentar diminuir a resistência ao nome de Greenhalgh em outras bancadas. Genoino conversou com o deputado Ronaldo Caiado (PFL-GO), um dos líderes da bancada ruralista, apontada como um dos focos de resistência à aprovação de Greenhalgh no plenário, por causa de sua atuação na defesa dos trabalhadores rurais. O pefelista é responsável por ter transformado Greenhalgh em pivô de um dos principais escândalos da eleição presidencial de 1989.
Naquele ano, quando Luiz Inácio Lula da Silva sofreu sua primeira derrota ao disputar a Presidência da República contra Fernando Collor de Mello, Caiado presidia a polêmica União Democrática Ruralista (UDR) e também era um dos candidatos ao Palácio do Planalto. Durante um debate, ele acusou Greenhalgh, então vice-prefeito de São Paulo, de ter cobrado propina da empreiteira Lubeca. Em troca, a Prefeitura de São Paulo, sob o comando de Luiza Erundina, autorizaria um megaempreendimento da empresa. Dias após a denúncia, Paulo Albaneze, funcionário da Lubeca, acusou Greenhalgh de ter recebido US$ 200 mil dólares da empresa. Segundo o funcionário, o montante teria sido desviado para a campanha presidencial.O escândalo, conhecido como caso Lubeca, levou Erundina a exonerar Greenhalgh da Secretaria de Negócios Jurídicos, cargo que acumulava com o de vice-prefeito. A prefeita alegou que houve "quebra de confiança".Greenhalgh sempre negou qualquer envolvimento em relação às acusações de arrecadação de dinheiro ilegal para campanha presidencial. As investigações feitas sobre o caso não apresentaram provas que pudessem responsabilizá-lo.O caso Lubeca estourou no primeiro ano de mandato de Erundina. Até o final de sua gestão, o grupo majoritário do partido, conhecido como Articulação e liderado por Lula, tentou, sem sucesso, reabilitá-lo politicamente. Apesar das fortes pressões Erundina foi irredutível.Greenhalgh sempre negou qualquer envolvimento em relação às acusações de arrecadação de dinheiro ilegal para campanha presidencial. Além disso, nas investigações feitas sobre o caso não surgiram provas que pudessem responsabilizá-lo.
Trajetória - Greenhalgh, que exerce seu quarto mandato como deputado federal, sempre foi ligado a movimentos de defesa dos direitos humanos - especialmente com a Anistia Internacional -, organizações estudantis, com a política de São Paulo e mantém relações estreitas com a Igreja Católica.Formado em direito pela faculdade do Largo São Francisco (USP) em 1973, Greenhalgh foi diretor do Centro Acadêmico 11 de Agosto e membro do Conselho Universitário da USP. Na área dos direitos humanos, destaca-se como Membro da Comissão Arquidiocesana de Pastoral dos Direitos Humanos e Marginalizados; membro, fundador e advogado do Centro Santo Dias de Direitos Humanos e contra a Violência Policial. Também criou os Conselhos Municipais e as Assessorias do Meio Ambiente e de Relações Internacionais.Filiou-se ao MDB em 1974, legenda que deixou cinco anos mais tarde para ser um dos fundador do Partido dos Trabalhadores (PT). Sua ligação com Lula vem desta época. No início dos anos 80, era tido pelo Exército como advogado do atual presidente da República.
Enquanto Lula era o principal articulador dos movimentos sindicais, Greenhalgh, segundo arquivos das Forças Armadas, seria seu mentor.
http://www11.estadao.com.br/nacional/noticias/2004/dez/22/126.htm

OS GATUNOS ESTÃO EM CASA

AUGUSTO NUNES
Os gatunos estão em casa
Compelido a comentar a medonha expansão do Pântano do Planalto, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, troca o terno bem cortado pelo colete de agente da Polícia Federal. Com a agilidade de um craque dos tribunais, saca dos bolsos uma penca de números que fundamentam a tese reiteradamente enunciada: o Brasil tem hoje uma das melhores polícias federais domundo. É uma tese audaciosa.
O bom e velho FBI, por exemplo, vive às voltas com erros primários, pilantragens internas e desastrosas manifestações de incompetência: a mítica sigla ignorou os numerosos sinais de que estava em gestação o horror materializado por terroristas árabes em 11 de setembro de 2001.
Recentes intervenções cirúrgicas na veneranda Scotland Yard removeram vários focos infectados. Se ingleses e americanos seguem promovendo, periodicamente, faxinas do gênero, que milagre fora operado na polícia de elite do paraíso tropical dos corruptos?
Essa Polícia Federal de sonho (que ainda não desvendou o assalto ao Banco Central no Ceará, ocorrido há 45 dias) só existe na cabeça do ministro, do presidente e de governistas como a senadora Ideli Salvatti, um berreiro à procura de uma idéia. “Mais de 1.500 corruptos foram presos”, grita Ideli de hora em hora. Ou gritava: engavetou a cantilena há exatamente sete dias.
A louvação dessa PF imaginária foi suspensa no fim da semana passada, quando sherloques nativos consumaram, no prédio da superintendência no Rio, uma espantosa operação clandestina. Dias antes, a Operação Caravelas (monitorada por especialistas americanos, como noticiou Marcia Peltier) desmontara a mais lucrativa vertente do narcotráfico no Brasil. A festa durou pouco.
Enquanto o governo e a cúpula da PF comemoravam, R$ 2 milhões sumiram de uma sala-cofre da sucursal carioca. A bolada de dólares e euros fora apreendida em casas e carros do bando que exportava cocaína escondida em pedaços de carne. Deveria estar no banco. O delegado que chefiava o plantão, engrossado por 59 agentes, preferiu deixá-la na sala- cofre. À espera dos larápios.
A PF inventada por Márcio demoraria 20 segundos para concluir que nenhum ladrão se infiltrara no prédio. Estavam lá dentro. Não furtaram a chave sob a guarda do escrivão. O parceiro entregou-a com o rosto sereno de cúmplice. Basta prender os participantes da Operação Caravelas e interrogá-los com a mesma metodologia aplicada a paisanos. Um estagiário do FBI já teria resolvido o caso. A esplêndida polícia de Márcio segue investigando irrelevâncias diversionistas.
“Foi mais uma da banda podre”, resumem os agentes honestos da PF. Não são poucos. Graças à ala dos decentes, que vem crescendo sensivelmente, a Polícia Federal ficou melhor e mais eficaz. Mas é preciso amputar os muitos galhos nos quais se penduram ladrões de colete.
Em todas as operações, policiais corruptos enfiam nos bolsos, no momento do flagrante, quantias formidáveis. A droga apreendida logo volta ao mercado, vendida por agentes bandidos. Estimulados pela leniência dos chefes, agora ousam roubar em casa. Só cadeia resolve isso.

Saturday, September 24, 2005

KATRINA JOGA AGUA NO CHOPP DE LULA

Um dos maiores furacões a atingir o solo dos EUA vai trazer prejuízos incalculáveis para a economia internacional e compromete a pretensão do petista de ser reeleito
César Fonseca Especial para o Jornal da Comunidade
A grande tragédia provocada pelo furacão Katrina, que quase destruiu a capital mundial do jazz e ameaça o abastecimento mundial de petróleo, diante da demolição de oito refinarias no golfo do México, vai, certamente, contribuir para manter a taxa de juro elevada no Brasil. Poderá prejudicar ainda mais a economia, já afetada pelo elevado custo do dinheiro. Seria outro tiro no peito do presidente Lula que pretende ir à reeleição para ressuscitar o PT.
O governo americano imprimirá bilhões de dólares, nas próximas semanas, para socorrer os estados atingidos. Pressionará, dessa forma, a liquidez monetária internacional. Bush não economizará recursos, porque está sendo acusado de ter agido erradamente diante dos avisos do furacão.
Os detentores da moeda americana buscarão os juros mais altos. Se o governo Bush não pagar juro satisfatório, continuarão migrando em maior escala para países campões mundiais de juros altos, como é o caso brasileiro.
Ou seja, poderá haver maior pressão para valorizar o real frente ao dólar, atraído pelo juro alto em vigor. Mais um adicional de incerteza sobre a política econômica do governo Lula, totalmente dependente de fatores sobre os quais não tem controle. Tais incertezas, por sua vez, no calor da crise política, fornecerão combustível para fortalecer corrente de opinião defensora do controle de entrada de capital na economia como arma para reduzir juros de modo a combater a deflação que persiste a quatro meses.
A rentabilidade do setor exportador, que já está baixa frente ao câmbio sobrevalorizado, poderá ficar mais vulnerável ainda, se houver pressão cambial adicional proporcionada pela desvalorização do dólar em escala global. Kenneth Rogof, economista, ex-diretor do FMI, disse, no Brasil, recentemente, que os déficits americanos, ampliados, principalmente, por gastos em guerras, ameaçam a economia global. A guerra que a natureza impôs aos Estados Unidos por meio do Katrina, na medida em que exigirá maiores gastos públicos, ajudará a afetar negativamente os déficits já acumulados.
A taxa de juro, portanto, tenderia, graças aos estragos provocados pelo Katrina, a manter-se inviável aos investimentos, mesmo diante da quarta consecutiva deflação registrada pelo Índice Geral de Preços em agosto. Não constituiria novidade, por isso, o fato de que o maior banco de investimento do país, o BNDES, esteja emprestando mais para países que estão com o PIB crescendo entre 6% e 8%, como são os casos de México, Argentina, Chile e Venezuela, do que para o próprio Brasil, fazendo, como disse o presidente Lula, em solenidade no Itamarati, o papel de Bolívar, sem promover revoluções. Ou seja, Lula estaria gozando com as alegrias que os presidentes do México, Vicente Fox, da Argentina, Nestor Kirchener, do Chile, Ricardo Lagos, e da Venezuela, Hugo Chavez, desfrutam nesse momento latino-americano, inserido no clima de aquecimento da economia mundial.
Em tal contexto, no qual o Brasil figura em posição de retaguarda, porque o juro alto, que aumenta a dívida interna, não deixa a economia crescer , a situação do governo Lula fica ainda mais delicada. Afinal, os estragos do Katrina, ao possibilitar desaquecimento da produção, afeta a economia e, as chances de reeleição do titular do Planalto. Ele contaria fundamentalmente com ela para concretizar seu sonho. O Katrina atravessou o samba e jogou água no chope.
www.mv-brasil.org

NINGUEM TEM O DIREITO DE MALTRATAR A ESPERANÇA!

Aos 35 anos da primeira edição do seu livro As Veias Abertas da América Latina, que marcou a literatura e a resistência do continente, o escritor uruguaio Eduardo Galeano, de 65 anos, fala de sua atual visão da América Latina e da decepção que é a crise política brasileira.

'Ninguém tem o direito de maltratar a esperança'
Essa crise política no Brasil o decepciona ou era previsível?
Decepção e dor. O Brasil é um país que sinto como se fosse meu, é uma velha ligação... O que mais me dói nisso tudo, mais que esse escândalo, que para mim foi imprevisível, é essa explicação que circula: 'Por que tanta confusão se isso sempre aconteceu?'. Se o PT chegou ao governo, como uma força nova encarnando a esperança coletiva, não era para repetir a história. Era para mudá-la. Então, para que nasceu? Para que existe? Tanto sacrifício, para quê? Nenhuma força tem o direito de maltratar assim a esperança da qual é portadora.Quando eu era jovem, trabalhava no semanário uruguaio Marcha, e meu mestre em jornalismo, e não só em jornalismo, foi o diretor do semanário, Carlos Quijaño. Ele sempre dizia: 'Está proibido pecar contra a esperança. É o único pecado que não tem perdão.' Naquela época, eu achava que a frase era bastante pomposa. Com o passar do tempo, aprendi quanta razão tinha dom Carlos. Não se pode brincar com a fé do povo, essa expectativa popular da transformação da realidade dentro da ordem democrática que Lula encarnou. O pecado contra a esperança vira pecado contra a democracia. É gravíssimo o que está acontecendo.
Você acha que o PT começou a trair agora o que as pessoas acreditavam?
Principalmente agora, mas começou antes. Sem dúvida, houve um divórcio crescente entre o que foi prometido e o que foi feito na verdade. Até certo ponto, é inevitável um abismo entre o desejo e o mundo real, entre o querer e o poder. Mas houve sim um desencontro grave, sobretudo em matéria de política econômica e seus programas sociais, que ficaram de molho.Mas depois veio esse escândalo, com compra de votos, homens, partido... A esperança é frágil.Precisa ser cuidada, tratada com muita delicadeza. Em outros tempos, o chamado realismo socialista, que não era realismo nem era socialista, dizia que a esperança do povo era de aço.Mentia. É de cristal.
Como acha que será daqui para frente no Brasil?
Não sei. Não é o fim da história, pois ela nasce de novo a cada dia.A história é incessante e tem a mágica capacidade de se recriar. E nem sempre nos dá surpresas desagradáveis.
M.C.

GALEANO E O CONTINENTE EM EBULIÇÃO

O uruguaio comenta as crises políticas de hoje e a atualidade de As Veias Abertas da América Latina, lançado há 35 anos
Mariana CamarottiEspecial para o Estado MONTEVIDÉU

Aos 35 anos da primeira edição do seu livro As Veias Abertas da América Latina, que marcou a literatura e a resistência do continente, o escritor uruguaio Eduardo Galeano, de 65 anos, fala de sua atual visão da América Latina e da decepção que é a crise política brasileira. Bocas do Tempo, seu mais recente livro, lançado no ano passado, já está na segunda edição no Brasil. Amante das palavras e dos desenhos, esse escritor andante conta quem são as vozes dos seus textos e diz que nós temos medo da liberdade. Autor de 14 livros e várias antologias, ele é lido em mais de 20 idiomas em todo o mundo. Essa entrevista foi concedida ao Estado no Café Brasilero, em Montevidéu, local que Galeano chama de sua segunda casa.
Seu livro As Veias Abertas da América Latina está completando 35 anos...
Tanto? É verdade, foi em 1970... é um senhor bastante respeitável.
Sua visão de América Latina na época em que escreveu é a mesma de hoje?
O essencial, sim.
O que tem a ver com esse livro em particular, com os temas de que trata.
Não me arrependo de uma só palavra, mas claro que mudei, estou vivo. Recentemente o reli para corrigir alguns pequenos detalhes e o reli com alegria. É um livro como qual me identifico ainda. O texto não estava errado, a realidade lhe deu a razão. E tem uma pergunta essencial: o subdesenvolvimento é uma etapa no caminho do desenvolvimento ou é conseqüência do desenvolvimento alheio? Uma criança e um anão se parecem, mas não são a mesma coisa. Não estamos vivendo a infância do capitalismo, somos um produto deformado do desenvolvimento alheio. Não há nenhuma riqueza que seja inocente da pobreza dos outros. O abismo que separa os que têm dos que necessitam é hoje muito maior do que quando eu escrevi o livro.Está escrevendo alguma coisa?Sim, mas não conto, pois perco a vontade. Dos outros eu falei antes, publiquei algumas coisas antes. Mas com esse, quero que seja mais secreto. É um projeto novo e estou muito entusiasmado.A América Latina vive uma grande ebulição neste momento, com crises políticas e sociais no Brasil, Argentina, Venezuela e Bolívia, por exemplo. Qual o problema, não estamos prontos para viver a democracia?Quando estava no exílio, na Espanha, soltei o coelho da índia da minha filha, que vivia enjaulado e me dava pena. Aproveitei que íamos sair. Horas depois, quando voltamos, o bichinho estava tremendo em um canto da jaula, com medo da liberdade. A liberdade dá muito medo, ao bichinho e a nós também. Mas, nesses últimos anos, movimentos sociais têm defendido a participação popular, tentando estender o conceito de democracia além do direito de votar cada quatro ou cinco anos. Nisso, eu acho que houve um grande avanço, há um desenvolvimento de base muito mais articulado, há uma vontade democrática de expressão. As pessoas que sempre estiveram marginalizadas nunca foram escutadas.E são as pessoas que merecem ser ouvidas.
Você utiliza essas vozespara escrever. São elas que estão em Bocas do Tempo e em outros livros?
Ser digno dessas vozes... será que eu as mereço? Tenho enorme respeito pelas vozes desprezadas e não escutadas. As vozes estabelecidas, do poder, são um rotina do eco perpétuo, como se fossem fatalidade do destino.Mas para não ser mudo, há que se começar a não ser surdo.Por que quis fazer o livro Mulheres?É uma antologia, uma reunião de textos de outros livros que revelam minha atração pelo mistério que são as mulheres.Freud inventou aquela história da inveja do pênis, mas eu acho que foi para disfarçar o pânico que nós temos delas.Qual a importância dos mitos para o seu trabalho?Adoro os mitos. Eles são um poema, uma metáfora coletiva, sem autor, às vezes muito reveladores da identidade e memória dos povos. Quando eu estava escrevendo Memória do Fogo, enfrentei o desafio de escrever sobre a América antes da conquista européia. Era muito difícil adivinhar como era a América antes que a Europa viesse a humilhá-la. Nos mitos indígenas, eu encontrei as chaves para entrar nessa história.Qualosignificado dosdesenhosnos seus livros?Para mim, imagens e palavras formam uma unidade. Não são livros ilustrados, mas sim aventuras de comunhão entre a linguagem plástica e a linguagem literária, um diálogo. Os espaços brancos nas páginas são silêncios. Eu faço o desenho de cada página e cuido desses espaços que parecem vazios, mas que na verdade estão habitados pelo silêncio, que é também uma linguagem, embora fale calando. A minha melhor experiência de trabalho compartilhado, imagens e palavras, foi feita com J. Borges, o grande artista nordestino da literatura de cordel. Trabalhamos juntos três anos, ele com suas gravuras, eu com minhas histórias, num livro que se chama As Palavras Andantes.Você demora para escrever?Eu sou muito lento para escrever, porque corrijo, faço de novo. Das histórias pequenas que formam Bocas do Tempo, a metade não entrou porque não encaixa, não fazem parte da trama, um trançado. Esse último levou oito anos, porque eu fiz outro no caminho, que foi De Pernas Pro Ar.Mas já tinha começado esse há tempo. São 333 histórias, num processo de seleção em mais de 500. Que são as que encaixaram nesse fluxo de rio que corre e que vai atravessando a infância, o amor, o poder, o medo, os diferentes temas da vida humana. E fui tecendo. Digo isso porque a palavra texto vem da palavra em latim textum, que significa tecido. Ou seja, quem escreve tece.Sua mulher é bem exigente com seus textos e os corrige, não é?Ela é implacável e, para mim, há duas coisas que me servem muito. Quando escrevo, leio em voz alta, porque o som me mostra se faltam ou sobram palavras. E depois a leitura implacável de Helena, que é uma crítica feroz. É muito difícil arrancar-lhe um elogio, só consigo por erro dela ou distração.Ela também é a Helena que sonha nos seus livros?Ela sonha muito, é uma máquina de sonhar e tem sonhos maravilhosos. E eu roubo os sonhos dela porque os meus são horríveis, medíocres, em que eu perco um avião ou tenho de fazer uma tramitação. Já os dela são esplêndidos. Por exemplo, há pouco sonhou que estávamos na fila para passar na máquina que controla as malas no aeroporto. Ela estava com o travesseiro com que tinha dormido na noite anterior e era obrigada o passálo. Essa esteira lia os sonhos, porque o travesseiro guardava o que você tinha sonhado.E ela conta esses sonhos maravilhosos na mesa do café da manhã, para me humilhar quando começa o dia.O que você lê?Tudo o que cai nas minhas mãos, mas principalmente história, sempre em busca de alguma pérola escondida. Leio história como um jornal, leio um livro do século 18 e é como um jornal de hoje. Sabendo que também nos jornais há pérolas escondidas. A vida cotidiana, sem graça, inócua, tem energias insuspeitáveis que estão aí esperando que alguém as descubra e as escute. E principalmente nessas pequenas coisas da vida passada mais remota ou recente é onde estão as vozes que eu dizia que valem a pena ser escutadas. São as únicas capazes de revelar a grandeza do mundo, de ajudar-nos a acreditar que a aventura de viver vale a pena.

Friday, September 23, 2005

QUE ELITE É ESSA?

NELSON MOTTA
Que elite é essa?
RIO DE JANEIRO -
Os doutores Ivo Pitanguy, Paulo Niemeyer, Drauzio Varella, Adib Jatene e outros ilustres colegas, por talento, inteligência, estudo e dedicação, tornaram-se os melhores em sua profissão no Brasil -são a elite de nossa medicina.Assim como entre os advogados, engenheiros, dentistas, músicos, industriais, comerciantes, esportistas, e em todos os campos de atividade que contribuem para o progresso do país e melhoram a vida dos cidadãos, existem sempre os mais aptos e talentosos, os mais estudiosos e dedicados. Eles são a elite de suas profissões. Até as Forças Armadas têm suas tropas de elite -os mais duros e eficientes, os melhores.Todos eles devem ficar perplexos toda vez que Lula (ou Severino) ou um aliado dos movimentos sociais diz que a "elite" é responsável por tudo de ruim que acontece ao povo, ao governo e ao PT. Então os piores (bandidos) seriam justamente os melhores (em seu ofício)? Que "elite" é essa de que eles falam? Certamente não é a financeira, que ama Lula, é correspondida e nunca lucrou tanto.Lula, Dirceu e Delúbio disseram várias vezes que a "elite" não aceita ver 8 milhões de pessoas comendo todo dia no Fome Zero e por isso quer derrubar o governo do PT. A "elite" deles não se contenta em comer muito -adora ver o povo passar fome. A "elite" deles é má, é cruel, é culpada. É ridícula.Esses companheiros são, há muito tempo, da elite sindical e partidária, com salários de R$ 7 mil, onde o estudo e a competência não contam. Onde o que tem valor são negociações, alianças, conchavos e estratégias, a tal da "política".Atualmente não só é mérito ser ignorante (mas "intuitivo" e "autêntico") como também é pecado mortal estar entre os melhores, os mais talentosos e competentes em seus campos de atividade. O que seria do país dos severinos sem essa elite?

GRAMPO ENTRE DOLEIROS

TELEFONEMA ENTRE OS DOLEIROS VIVALDO ALVES, O BIRIGÜI, E RICHARD OTTERLOO, EM 11 DE JULHO BIRIGÜI:
No fim, no fim o cara falou a história que não fecha , alguns pagamentos você tem que falar que fez aqui, entendeu? Aí o que eu falei que eu havia recebido alguns pagamentos, alguns recebimentos aqui em vivo e paguei em vivo.
OTTERLOO: Entendi.
BIRIGÜI: Pra sair fora da evasão, tá?
OTTERLOO: E você acha que vai ter algum desdobramento mais pra frente em relação a você ou você acha que parou por aí por enquanto? Ou você acha que o cara deixou a porta aberta e você acha que poderia voltar a te chamar?
BIRIGÜI: Por ele, por ele, no inquérito eu acho que pára por aí... agora do procurador eu acho que sobra alguma coisa pelo que foi, que transpirou por ele, porque ele me disse claramente: eu não vou prometer para você o que eu vou fazer, eu vou ver juridicamente o que dá pra fazer, entendeu? Mas eu acho que no Ministério eu vou ser denunciado. A impressão que me deu é que eu vou ser denunciado com penas bem leves e que elas já estão prescritas.
OTTERLOO: Sim, sem dúvidas, porque isso tem mais de cinco anos já.
BIRIGÜI: Aliás, tem sete, né. Entendeu, então. Do delegado, ele terminou dizendo pra mim no final o seguinte: olha, no final disso tudo eu vou te dar um presente. Então, eu entendi que ele vai me aliviar no inquérito dele. Foi isso que eu entendi. Não sei.
BIRIGÜI: A coisa é bem outra, entendeu. Porque a hora que ele percebeu que eu ia falar, entendeu. Mas isso ele já percebeu de cara. A coisa mudou. Não fui pressionado pelos procuradores, por nada. Eles sabiam que tava ali fazendo uma coisa e que não era minha, entendeu? Eles precisavam exatamente de um de um trunfo ou de uma coisa para chegar onde eles querem. Você não imagina o que eles têm de papel.
OTTERLOO: Mas esse filho e o pai são bem mau caráter. Eles são...eles não se preocupam em momento nenhum, pelo visto, em se colocar à disposição para ajudar, para pagar as despesas, para dar qualquer tipo de auxílio, porque na verdade o auxílio não era pra você, era pra eles. Esses caras são muito burros. Eles ficam regulando 50, 100 mil dólares, pra botar um advogado à disposição pra acompanhar o caso e defender eles mesmos.
BIRIGÜI: Sabe o que o Protógenes falou pra mim: pode desfazer o acordo que você fez, e pode fazer o teu negócio, porque ninguém vai te incomodar não.
OTTERLOO: Tá brincando?
BIRIGÜI: Tô falando sério. Juro pelas minhas filhas. Falou: ó, ninguém vai te incomodar, nós abrimos e fechamos quem nós queremos, porque nós sabemos de tudo.

Thursday, September 22, 2005

PRONUNCIAMENTO ACM NO SENADO - 21/09

Pronunciamentos
Autor:Antonio Carlos Magalhães (PFL - Partido da Frente Liberal /BA)
Data:21/09/2005
Casa:Senado Federal
Tipo:Discurso
O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES (PFL - BA. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.)

- Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, venho a esta tribuna para louvar em parte as palavras do Senador Mercadante, mas acho também que ele estimulou uma maneira de agir inadequada, incorreta da Senadora Ideli Salvatti. Esta senhora esteve hoje numa Comissão de Inquérito desrespeitando o depoente, o qual não quero defender, embora seja um baiano ilustre.
Mas ninguém tem o direito, Sr. Presidente, de, perante um depoente, dizer: "O senhor é o maior corrupto do Brasil." O depoente poderia ter respondido: "É a senhora, sim, que é a maior corrupta do Brasil". Deveria ter dito isso, como estou dizendo agora, desta tribuna, em nome dele, embora não deseje tirar um pouco da razão do Senador Mercadante, que, além do mais, livrou de um ataque o ex-Senador Serra, feito pela irresponsável Senadora Ideli Salvatti. Ela tem sido irresponsável várias vezes nesta Casa, e nunca o seu Partido toma posição. É preciso, então, que se diga isso aqui da tribuna até que o mesmo um dia a tome, para que ela não continue os abusos de que tem freqüentemente usado na sua palavra irresponsável.
Disse a Srª Ideli que a filha do ex-Senador Serra era sócia de um filho ou filha do Dr. Daniel Dantas. O fato, além de falso, não merece ser tratado aqui, como disse o Senador Aloizio Mercadante. Se o fizermos, isso será muito ruim para a Senadora Ideli Salvatti e para a própria Bancada do PT. Ninguém sairá vencendo. Ao contrário, haverá muitos perdedores.
Peço a V. Exª, Sr. Presidente, que procure coibir a maneira com que se tratam alguns dos depoentes nesta Casa. A imprensa já tem chamado atenção para esse fato, o que está desmoralizando muitas das CPIs.
Outra questão. No que se refere à reforma política, esta não andará se houver assuntos polêmicos, como financiamento e lista de Deputados. Posso dizer isso porque chefio uma corrente política na Bahia. A lista de Deputados é impeditiva àqueles que não têm padrinhos ou então só serve para quem não tem voto. Quem tem voto não precisa de lista de Deputados. É algo que não faz sentido; e a reforma não pode passar dessa maneira. Caso contrário, em cada Estado, aquele que tiver o poder do Diretório terá o poder de fazer as Bancadas. Se quiserem que alguma reforma passe, temos de diminuir ao máximo as matérias e fazer um pouco como a reforma do Senador Jorge Bornhausen em relação à próxima eleição. Fora disso, não vai passar, mesmo que passe a emenda para dezembro ou janeiro.
Conheço esta Casa. Conheço mais ainda a Câmara dos Deputados, e sei que não vai vingar acordo político de cúpula. Na hora da votação, será diferente. E tem de ser diferente, para que o povo possa manifestar livremente nas urnas a sua vontade e não fique sujeito a ditadura partidária.
Sr. Presidente, volto a pedir a V. Exª que observe os termos que estão sendo utilizados por Parlamentares nessas CPIs, porque isso não vai acabar bem e desmoraliza o Congresso, que V. Exª preside com tanta dignidade.
Fiz questão de vir à tribuna registrar que não estou lá defendendo o Sr. Daniel Dantas nem o Opportunity - até porque penso que o Sr. Daniel Dantas, sendo baiano, poderia ter feito muito mais pela Bahia do que fez até agora -, mas estou criticando a maneira como ele foi agredido, irresponsavelmente, por uma Senadora que talvez não pudesse fazer isso, se olhasse bem para o seu nariz.
Muito obrigado, Sr. Presidente.

ESCÂNDALOS PT


Denúncias contra o governo Lula e o PT
(mais ou menos em ordem cronológica do surgimento na imprensa)
por PIM e SARAMAR

1) Greenhalg, caso Celso Daniel, caso Lubeca, indenizações milionárias (OUTUBRO/1989)
2) Jacó Bittar e o superfaturamento do aterro sanitário de Campinas/SP (1991)
3) Romero Jucá (MARÇO/2000)
4) Marta e o esquema do lixo em São Paulo (FEVEREIRO/2001)
5) Toninho de Campinas (SETEMBRO/2001)
6) Caso Celso Daniel, com morte de 6 testemunhas (JANEIRO/2002)
7) Esquema dos ônibus (JANEIRO/2002)
8) Compra do PL e José Alencar por 10 milhões no quarto ao lado do Lula (JUNHO/2002)
9) FAT (AGOSTO/2002)
10) Luiz Gonzaga da Silva (Gegê), acusado de homicídio (AGOSTO/2002)
11) Propina de Taiwan para a campanha do Lula (2002)
12) Fundos exclusivos e Márcio Sereno (2002)
13) Ministro da Ciência e Tecnologia defende a construção da bomba atômica(JAN/2003)
14) Pontos principais das reformas do governo Lula (FEVEREIRO/2003)
15) Cortes no Orçamento atingem saúde, educação e reforma agrária (FEVEREIRO/2003)
16) Passeio da cadelinha Michelle em carro oficial (MARÇO/2003)
17) Programa Fome Zero, em 90 dias, utilizou R$ 42 milhões dos cofres públicos
(ABR/2003)
18) Esquemas da prefeitura de Guarulhos (MAIO/2003)
19) José Dirceu utiliza avião da FAB para campanha política em Cruzeiro do Oeste (JUNHO/2003)
20) Baltazar (armas RJ) (JUNHO/2003)
21) Márcio Thomaz Bastos utiliza helicóptero da PF para favores pessoais (JULHO/2003)
22) Anderson Adauto escândalo do DNIT (JULHO/2003)
23) PM na Câmara dos Deputados (JULHO/2003)
24) Jacques Wagner - Irregularidades no Ministério do Trabalho (JULHO/2003)
25) Compras do Palácio do Planalto I (AGOSTO/2003)
26) Passeio da Benedita da Silva em Buenos Aires (SETEMBRO/2003)
27) Agnelo Queiroz, Ministro dos Esportes (OUTUBRO/2003)
28) outdoors da Ideli Salvatti em SC (OUTUBRO/2003)
29) Miguel Rosseto ministro da Reforma Agrária e INCRA (OUTUBRO/2003)
30) José Eduardo Dutra (NOVEMBRO/2003)
31) Compras do Palácio do Planalto II (NOVEMBRO/2003)
32) Flamarion Portela, governador de Rondônia, preso (NOVEMBRO/2003)
33) Suspensão dos benefícios dos velhinhos acima de 80 pelo Berzoini (NOVEMBRO/2003)
34) AEROLULA Avião presidencial (NOVEMBRO/2003)
35) NOROSPAR (DEZEMBRO/2003)
36) Uso indevido da CIDE dos combustíveis (DEZEMBRO/2003)
37) Luís Favre, aliás Felipe Belisario (FEVEREIRO/2004)
38) Waldomiro Diniz (FEVEREIRO/2004)
39) José Dirceu (FEVEREIRO/2004)
40) Antônio Palocci I (FEVEREIRO/2004)
41) Esquema do Bingo (FEVEREIRO/2004)
42) Olívio Dutra e o Bingo/Bicho no RS (FEVEREIRO/2004)
43) Governo Lula barra a “CPI dos Bingos” no Congresso (FEVEREIRO/2004)
44) Governo barra a “CPI de Santo André” (MARÇO/2004)
45) Mário Haag, ex-diretor da Caixa Econômica Federal (ABRIL/2004)
46) Estrela no Planalto (ABRIL/2004)
47) ONG Ágora (MAIO/2004)
48) Compras do Palácio do Planalto III (MAIO/2004)
49) Bebedeiras do presidente (MAIO/2004)
50) Henrique Meirelles (JULHO/2004)
51) Luiz Augusto Candiota (JULHO/2004)
52) Cássio Caseb (JULHO/2004)
53) Caso Kroll (JULHO/2004)
54) Citibank (JULHO/2004)
55) Lula vai ao Gabão (AGOSTO/2004)
56) 62) acordo com o Maluf (AGOSTO/2004)
57) Proposta de Conselho Federal de Jornalismo (AGOSTO/2004)
58) Viagem de Stédile paga com dinheiro público (AGOSTO/2004)
59) Incra paga viagem área de sem terra (AGOSTO/2004)
60) Caixa 2 de Tocantins e Márcia Barbosa (SETEMBRO/2004)
61) João Henrique Pimentel (PT) (SETEMBRO/2004)
62) Compra de apoio do PTB (SETEMBRO/2004)
63) Antônio Celso Cipriani (SETEMBRO/2004)
64) Caso dos vampiros da saúde Humberto Costa (SETEMBRO/2004)
65) Ministros usam assessores em campanhas eleitorais (SETEMBRO/2004).
66) LEÃO & LEÃO (SETEMBRO/2004)
67) Duda Mendonça I (OUTUBRO/2004)
68) Flamarion Portela (PT) OUTUBRO/2004
69) Bolsa família completa um ano de lançamento quebrando um recorde (OUTUBRO/2004)
70) Lula condenado (OUTUBRO/2004)
71) Esquema do lixo em prefeituras do PT (OUTUBRO/2004)
72) Dinheiro do BNDES para O Globo (OUTUBRO/2004)
73) Roberto Teixeira e a casa do presidente (NOVEMBRO/2004)
74) Pororoca (NOVEMBRO/2004)
75) David Messer (NOVEMBRO/2004)
76) Cartões de crédito corporativos da presidência (NOVEMBRO/2004)
77) O projeto de restaurantes populares beneficia prefeituras petistas (NOVEMBRO/2004)
78) José Mentor e o abafa da CPI do Banestado (DEZEMBRO/2004)
79) Blindagem do Meirelles (DEZEMBRO/2004)
80) Passeio de Boeing dos filhos do Lula (JANEIRO/2005)
81) Firma do Lulinha (JANEIRO/2005)
82) Jacó Bittar e Lulinha (JANEIRO/2005)
83) FARC (MARÇO/2005)
84) Morte por fome dos indiozinhos de Dourados/MS (MARÇO/2005)
85) intervenção ilegal na Saúde do RJ (MARÇO/2005)
86) Correios (MAIO/2005)
87) Mensalão (JUNHO/2005)
88) Marcos Valério (JUNHO/2005)
89) IRB (JUNHO/2005)
90) Furnas (JULHO/2005)
91) Miro Teixeira (JUNHO/2005)
92) Corrupção no Ibama (JUNHO/2005)
93) Hugo Werle e a madeira do MT (JUNHO/2005)
94) Américo Proietti da Skymaster (JUNHO/2005)
95) Delúbio Soares (JULHO/2005)
96) Sede do PT, na Paulista – 20 milhões (JUNHO/2005)
97) Madeireiras do Pará e a Senadora Ana Júlia (JUNHO/2005)
98) Silvinho e o Land Rover (JULHO/2005)
99) Gushiken (JULHO/2005)
100) BMG e o crédito consignado (JULHO/2005)
101) Cueca dos dólares e João Adalberto (JULHO/2005)
102) INSS e FIRJAN (JULHO/2005)
103) Marcelo Correia de Aguiar (JULHO/2005)
104) Mauro Marcelo de Lima e Silva (JULHO/2005)
105) Ivan Guimarães e o Banco Popular (JULHO/2005)
106) Genoíno (JULHO/2005)
107) Henrique Pizzolato (JULHO/2005)
108) Delúbio, funcionário fantasma (JULHO/2005)
109) Abong – Assoc. Brasil. de ONG’s recebe 500 mil de MV (JULHO/2005)
110) Henrique Pizzolato (JULHO/2005)
111) Professor Luizinho e o Cohiba nas festas do Gran Bittar (JULHO/2005)
112) Superfaturamento GDK – Petrobrás - Silvio (JULHO/2005)
113) Antônio Palocci 2 (AGOSTO/2005)
114) PORTUGAL TELECOM (AGOSTO/2005)
115) Toninho da Barcelona (AGOSTO/2005)
116) Fundos de pensão (AGOSTO/2005)
117) Buratti (AGOSTO/2005)
118) Gilberto Carvalho (AGOSTO/2005)
119) Daniel Dantas (AGOSTO/2005)
120) Osasco (AGOSTO/2005)
121) Marcus Flora (AGOSTO/2005)
122) Paulo Okamoto e Sebrae (AGOSTO/2005)
123) Foro de São Paulo (AGOSTO/2005)
124) Jeany Mary Corner (AGOSTO/2005)
125) Trevisan (AGOSTO/2005)
126) Duda Mendonça II – contas, mensalão (AGOSTO/2005)
127) Ciro Gomes e seu secretário Marcio Lacerda (AGOSTO/2005)
128) Fabiana de Castro e fundos exclusivos (AGOSTO/2005)
129) Casa da Moeda e seu presidente (AGOSTO/2005)
130) Glenio Guedes, procurador da Fazenda Nacional (AGOSTO/2005)
131) Adhemar Palocci (AGOSTO/2005)
132) Compra do apê da ex-esposa do Dirceu (AGOSTO/2005)
133) Luís Favre, aliás Felipe Belisario, contas no Caribe, esquema da Martaxa, emprego do Duda (AGOSTO/2005)
134) Paulo Pimenta e o seu dossiê fajuto (AGOSTO/2005)
135) Grana ilegal para o MST, UNE, UBES (AGOSTO/2005)
136) Itelvino Pisoni, presidente do PDT/TO (SETEMBRO/2005)
137) Interbrazil (SETEMBRO/2005)
138) Farra com o fundo partidário (SETEMBRO/2005)
139) Juscelino Dourado (SETEMBRO/2005)
140) Severino (SETEMBRO/2005)
141) Roberto Marques, amigo do Zé Dirceu (SETEMBRO/2005)
142) Duda Mendonça III – lança perfumes (SETEMBRO/2005)
143) medalha Rio Branco para o Severino (SETEMBRO/2005)
144) Najun Turner (SETEMBRO/2005)
145) Perdão da multa da Coca Cola pelo PT/SP
146) dinheiro para a transoceânica no Peru e corte de verbas do Rodoanel de SP (SETEMBRO/2005)
147) Superfaturamento de contratos de patrocínio do esporte pelo BB (SETEMBRO/2005)
148) Nanomensalinho compra de votos no 1.º turno da eleição para presidente do PT (SETEMBRO/2005)
149) Corretora Bônus-Banval, Naji Nahas, Portugal Telecom, caixa 2 do PT (SETEMBRO/2005)
150) Os 300.000 dos advogados do Delúbio e os honorários do Aristides Junqueira (SETEMBRO/2005)
151) Mauro Dutra
152) Reforma do apê do Gilberto Gil
153) Plataformas, gás natural da Petrobrás
154) Aloisio Mecadante e o caixa 2
155) Festa com dinheiro público para comemorar a expulsão da Heloisa Helena
156) curral eleitoral e uso da máquina partidária em favor da candidatura do Campo Majoritário (SETEMBRO/2005)
157)Governo Lula cria 34 estatais em 33 meses (SETEMBRO/2005)
158) Orla do Rio Vermelho foi cercada com grades, na festa de Iemanjá, porque o Lula estava lá (SETEMBRO/2005)
159) Alexandre Cesar, derrotado à Prefeitura de Cuiabá em 2004, operou com caixa 2 (SETEMBRO/2005)
160) Nelma Cunha e os dólares do PT em Santo André (SETEMBRO/2005)
161) Diebold Procomp, Rui Barquette dos Santos e o contrato com a CEF (SETEMBRO/2005) 162) Intervenção anti-constitucional do Lula na Câmara de Deputados para conseguir votos para seu candidato à presidência da casa (SETEMBRO/2005)
163) Darci Rocha, conselheiro da Refer (fundo de pensão dos ferroviários), denunciou uma tentativa de desvio de R$ 19 milhões da entidade para financiar campanhas petistas (SETEMBRO/2005).
164) Caixa 2 do PT do Paraná, deputado Paulo Bernardo e a denúncia de Soraya Garcia (SETEMBRO/2005
165) Rogério Tolentino, José Mentor e o Valerioduto (SETEMBRO/2005)
166) Donizete Rosa, o ex-gerente-financeiro da gráfica Villimpress, Luciano Maglia, máfia do lixo de Ribeirão
167) Ideli Salvatti traz o caso da corrupção do futebol para a CPI dos Bingos para blindar o Ademar Palocci
168) José Eduardo Dutra - violação do painel eletrônico do Senado

O Conselho de Ética e a impunidade

O Conselho de Ética e a impunidade
RICARDO IZAR
Ao assumirmos, no final de março último, a presidência do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara dos Deputados, não podíamos sequer sonhar que um verdadeiro tsunami político-institucional estava se desenhando em nossos horizontes políticos. Como deputado federal no quinto mandato, assistimos, já, a crises inomináveis, como as que resultaram na CPI do governo Collor e na CPI do Orçamento. Foram momentos de perplexidade. Agora, mais que perplexos, estamos aterrados...
A se configurar o desenho que se vem esboçando nas investigações em curso, é dever de cada cidadão brasileiro, no resguardo da república e da democracia do país, assumir um papel vigilante, arregaçar as mangas, lutar obstinadamente e exigir a apuração de todos os fatos e a punição de todos os culpados.
Se cassarmos dezenas de deputados, o problema não vai se resolver. A corrupção grassa de fato é no Poder Executivo
Mas essa punição estará ainda longe, muito longe de resolver a criminosa natureza estrutural da corrupção. Não apenas a corrupção no Legislativo.Um importante enfoque, de baixíssima percepção por parte da imprensa e da opinião pública, é que estamos vivendo, dentro do Congresso, um grande espetáculo de democracia. Surge uma denúncia, convoca-se o suspeito numa CPI ou no Conselho de Ética e arma-se o processo investigatório com absoluta transparência, com transmissão ao vivo, acompanhado por um batalhão de jornalistas e milhões de telespectadores e ouvintes em todo o país. Ao vivo, vale repetir. O leitor já viu ou ouviu investigação similar na Polícia Federal, no Ministério Público, no Banco Central, nos tribunais de contas?Apesar dessa absoluta transparência e honestidade de propósitos, o investigado, mal terminado o depoimento, se esvai candidamente, mas o que fica para serem repercutidos pela mídia são comentários do tipo: "Ah, esses deputados...", "temos de dar um jeito no Congresso" ou "são todos corruptos".Não é por aí. Se cassarmos dezenas de deputados, o que, se for o caso, é um imperativo moral e um compromisso deste conselho, o problema não vai se resolver. A corrupção mesma, substantiva, em toda a sua expressão, amplitude e implicações, grassa de fato é no Poder Executivo, no governo federal, nos governos dos Estados e dos municípios, em seus órgãos da administração direta, nas suas estatais, autarquias, sociedades de economia mista. É a chamada corrupção sistêmica, estrutural, que asfixia a sociedade brasileira desde que o Brasil foi descoberto.Portanto devemos focar a nossa atenção é nas empresas que recolhem lixo nos municípios, nas concessionárias de serviços públicos da União, Estados e municípios, nas grandes empreiteiras de obras públicas, nos fundos de pensão, nos bancos oficiais, nos hospitais públicos, nos contratos de publicidade, nos órgãos públicos com muito dinheiro em seus orçamentos como o INSS e os ministérios dos Transportes e da Saúde -o rol é imenso... São milhares e milhares de fontes potenciais para extorquir o dinheiro público. Essas fontes vêm sendo exploradas com maestria complacente, entra e sai ano, entra e sai governo, desde sempre, faz parte de nossa cultura ancestral.
É dinheiro demais. Dinheiro que vem sendo desviado sistematicamente por todos os entes federados. Se formos calcular o valor anual desses desvios, estaremos falando de uma soma de centenas de bilhões de reais. Com todas as mazelas sociais que nos afligem e humilham, pode-se dizer que o sistema político-administrativo brasileiro está perpetrando, por meio dos seus agentes públicos, um verdadeiro genocídio da nossa população mais carente, sem falar na condenação perpétua do Brasil à instância de país de segunda classe.Esse contexto caótico e inaceitável clama por reformas urgentes em nossas instituições. Devemos iniciar, agora e já, uma reforma política radical, cuidando de disciplinar questões ligadas à nossa legislação eleitoral e partidária. Há que se elevar o nível médio de honradez dos candidatos a cargos eletivos.
Há muito a fazer: o financiamento de campanhas, a fidelidade ao partido, o voto distrital misto, as inelegibilidades, o horário eleitoral gratuito, a maquiagem do candidato como produto de marketing, a comercialização das legendas partidárias.Não é pouca coisa. Comecemos por emendar a Constituição para permitir que essas mudanças já se apliquem às eleições de 2006.Depois, devemos repensar os mecanismos de controle do dinheiro público federal, estadual e municipal; o orçamento impositivo; a transparência das execuções orçamentárias; a reforma de nosso direito penal, para pôr cobro à impunidade a madrinha da corrupção e à injustiça; a urgente necessidade de reforma do Judiciário; o combate ao corporativismo gêmeo da magistratura e da classe política; o questionamento do nosso sistema do governo etc, etc, etc. Isso tudo só poderá mesmo ocorrer com uma profunda cirurgia reparadora em nossa Constituição. Há que se repensar o Brasil.É dentro desse contexto que não deve pairar nenhuma dúvida. O Conselho de Ética e Decoro Parlamentar continuará no seu trabalho de maneira transparente, justa e independente. Provada a culpa...a punição certamente virá!
Ricardo Izar, 66, advogado e deputado federal pelo PTB-SP, é presidente do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar na Câmara dos Deputados.

Wednesday, September 21, 2005

EL MAGNÍFICO

Ex-agente secreto de Fidel revela em livroos segredos do regime
BEATRIZ LECUMBERRIda France Presse, em Paris
Juan Vives passou parte da vida eliminando inimigos e a outra parte evitando sua própria morte, até que há dois anos, decidiu escrever "El Magnífico", livro de memórias sobre sua vida como agente secreto durante mais de 20 anos a serviço do regime de Fidel Castro.
As revelações começam com a morte de Che Guevara, em 1967. De acordo com a publicação o "gerrilheiro foi abandonado à própria sorte por Fidel, que costumava transformar em ícones gente de quem queria se desfazer".
"Mandaram-no para a Bolívia direto para a morte em uma operação orquestrada pela KGB soviética e pela Stasi (ex-serviços secretos alemães) com a aprovação de Cuba", denuncia.
Além de Che, o ex-presidente chileno Salvador Allende, os irmãos Fidel e Raul Castro e a idealizada revolução cubana são personagens deste livro que acaba de chegar ao mercado literário francês, antes de sair na Espanha e na América Latina.
Este misterioso homem de 63 anos, apelidado de "El Magnífico" (O Magnífico) desde que era um jovem guerrilheiro, foi capitão rebelde do movimento que depôs Fulgêncio Batista em 1959, recebeu treinamento da KGB e diz ter participado de missões em toda a América, e também no Vietnã, na Argélia, em Angola e Etiópia até seu exílio na França, no fim dos anos 70.
"Sei que este livro é uma sentença de morte. Não posso dizer que não tenho medo, mas preciso conviver com ele", disse o ex-agente secreto.
"Em Cuba me conhecem e com certeza têm o manuscrito do livro há meses. Se uso um pseudônimo é porque não quero que meu vizinho saiba quem sou na realidade", afirma.
Demonstrando uma memória prodigiosa, datas, nomes e lugares distantes se ordenam perfeitamente na conversa, em alguns momentos, inacreditável.
Vives afirma nunca ter se unido a movimentos dissidentes na França e revela ter entrado clandestinamente em Cuba nos últimos anos. Sorridente atrás dos óculos escuros, este ex-agente garante que só sua esposa sabe realmente quem ele é.
"Ninguém escolhe seu destino e às vezes me pergunto como se pode seguir linhas de conduta contrárias a qualquer lógica", reconhece em seu livro.
Lembrando de seu exílio, elogia aqueles que restaram, começando pelo poeta e amigo, Raul Rivero. "Todo o meu respeito para a dissidência interna, que paga caro o seu valor", declara.
Olhando para trás, Vives calcula que deveria ter deixado Cuba em 1964. "Mas é difícil descer de um trem a 300 km/h. Tinha que ter partido antes, mas minha mãe estava doente. Esperei e os problemas de consciência tem sido enormes", admite.
Vives também lembra com amargura de Allende, a quem continua chamado de "Chicho".
"Mataram-no e não sou o único que acredita nisso. Muita gente começa a falar. Fidel disse em muitas ocasiões que não poderia se exilar. Tinha que morrer como mártir e não como covarde", afirma, apontando Patricio de la Guardia, chefe de segurança do presidente chileno, como autor do suposto crime.
A gravidade com que fala do passado transforma-se em pessimismo quando se refere ao futuro da ilha onde, segundo ele, a sucessão "já se realizou".
"Raul Castro governa e Cuba se sustenta graças ao turismo, à entrada de divisas e aos 120 mil a 150 mil barris de petróleo que a Venezuela nos dá diariamente", reforça.
Segundo ele, depois dos irmãos Castro, será "inevitável" uma pequena guerra civil em Cuba, depois de "tantos anos de sofrimento" e também existe o risco de que o país se torne "um novo Iraque".
"Guerrilhas e atentados dos fiéis de Castro contra o poder dos Estados Unidos", explica.
Neste clima de "fim de reinado" que vive Cuba, o ex-agente alerta também para a guerra que o "presidente venezuelano Hugo Chávez, manipulado por Castro, está preparando contra a Colômbia".
"Na fronteira entre a Venezuela e a Colômbia há um hospital com médicos cubanos, onde são tratados os guerrilheiros das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), e Chávez comprou toneladas de armas", afirma.
Segundo ele, depois de "El Magnífico", editado por Hugo & Cie, ainda há o que dizer e escrever, apesar de seus problemas de saúde ameaçarem seus planos.
Entre esses projetos para o futuro, está uma biografia de Fidel Castro que já está em andamento.
"Comecei a me interessar por ele em 1963. Conheci gente que sabia, inclusive, que sua avó era uma mulata 'santera'(macumbeira) chamada Dominga 'la Bruja' (a bruxa)", conclui.

Dantas diz que interesses políticos dão prejuízo a fundos de pensão
Luiz Filipe Barboza e Fernando Moreira - Globo Online
Em depoimento na sessão conjunta das CPIs dos Correios e do Mensalão, o banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity, disse que interesses políticos causaram prejuízos aos fundos de pensão. Ele deu como exemplo o episódio da compra pela Brasil Telecom (BrT), em 2000, da Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT). Segundo Dantas, a CRT foi adquirida pela BrT por US$ 800 milhões e o negócio poderia ter sido fechado por US$ 550 ou US$ 600 milhões. Os fundos de pensão e a Telecom Italia são sócios do Opportunity na Brasil Telecom. O racha societário na BrT começou exatamente a partir da divergência sobre o valor da compra da CRT. Em julho daquele mesmo ano (2000), os fundos de pensão - parceiros de Dantas também na Telemig e na Amazônia - entraram na Justiça questionando o poder do Opportunity, que quase não colocara dinheiro nas empresas. - Mostramos que estava havendo prejuízo para a companhia (BrT) e, por conseguinte, para os fundos - disse Dantas, em resposta ao relator da CPI dos Correios, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), sobre o que fizera para impedir o negócio do qual discordava. - E que argumentos eram usados pelos gestores dos fundos para convencer que a negociação não era prejudicial? - quis saber Serraglio. - Que estrategicamente era importante fazer a aquisição. Depois, em algum momento mais tarde, um dos membros da diretoria da Previ (fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, sócio na BrT) na época, o senhor Henrique Pizzolato, mandou um relatório onde dizia que a aquisição foi feita por esse preço (800 milhões de dólares) por ter sido pressionado pelo Banco do Brasil. O senhor Henrique Pizzolato mandou esse relatório e eu encaminhei esse relatório ao ministro José Dirceu em um dos nossos encontros - relatou Dantas. Dantas deu também exemplos do que seriam bons negócios para os fundos. Citou o caso da Brasil Telecom: - A Brasil Telecom quando foi comprada por esse consórcio de fundos de pensão tinha R$ 200 milhões em caixa. Hoje tem R$ 2,5 bilhões. Isso aconteceu pela direção de que nós indicamos.

O MAU HUMOR DE LULA FIGUEIREDO

O mau humor de Lula Figueiredo -ELIO GASPARI
"Não votei porque não votei", essa foi a resposta de Lula quando lhe perguntaram porque não apareceu na eleição do PT que ajudou a fundar, cuja militância levou-o à Presidência da República. Dias antes, quando lhe pediram que explicasse o uso de dinheiro do partido para custear seis passagens aéreas usadas por sua família numa viagem a Brasília, disse assim: "Eu estranharia se fosse o PSDB ou o PFL que tivesse pagado a minha passagem, mas o PT tinha mais era obrigação de pagar".Lula continua assemelhando-se ao general João Figueiredo (1979-1984). Têm em comum o gosto pela Granja do Torto, o recurso a palavrões em audiências institucionais e a paixão pelos improvisos delirantes.Nada a ver com a viagem de Napoleão à China ou a descoberta de afrodescendentes na Nigéria. As duas respostas dos últimos dias são um exemplo de uma confusa mistura de humor simplório a serviço de evasivas grosseiras.O "não votei porque não votei" ecoa Jânio Quadros explicando porque bebia uísque: "Bebo porque é líquido. Se fosse sólido, come-lo-ia". Trata-se de desprezar a curiosidade da audiência. No mesmo dia em que Lula não votou porque não votou, 272 mil petistas votaram porque votaram.Lula poderia ter dito qualquer coisa, menos fazer gracinha com um partido que está na lona muito mais por sua causa do que por culpa da militância anônima da estrelinha.Por mais que se estranhe a ausência de Lula, bem como sua explicação, o episódio envolve um petista e seu partido e pode-se argumentar que os estranhos não têm nada a ver com isso. Já a segunda resposta, relacionada com as passagens, é diferente. Se o PT pagasse as viagens da família Lula da Silva (inclusive das namoradas de dois de seus filhos) com reais arrecadados na militância, tudo bem. A boca livre foi paga pelo Fundo Partidário, arca alimentada pelos impostos cobrados aos trabalhadores. Dinheiro público. A legislação não permite o uso desses recursos para cobrir gastos de familiares. A resposta brincalhona do "nosso guia" mistura humor de segunda com prepotência de primeira. Se o PSDB ou o PFL quiserem pagar contas dos Lula da Silva sem recorrer ao dinheiro do Fundo Partidário, podem fazê-lo, mas não podem avançar sobre o Fundo Partidário.Gritos de guerra como "ninguém neste país tem mais autoridade moral e ética do que eu" parecem-se com o brado de Figueiredo ameaçando os adversários da redemocratização: "Prendo e arrebento". Na manhã de 1º de maio de 1981, o general foi informado de que explodira uma bomba dentro do carro de um capitão do DOI, estraçalhando um sargento. O tigrão miou. Figueiredo julgou-se traído pelas pessoas que armaram a bomba do Riocentro. Pode-se acreditar que não teve nada a ver com aquilo, mas ele soube direitinho o que aconteceu naquela noite.Ademais, sabia quem botava bombas em bancas de jornais. Em agosto passado, Lula disse o seguinte: "Quero dizer a vocês, com toda a franqueza, eu me sinto traído. Traído por práticas inaceitáveis das quais nunca tive conhecimento". Práticas não traem. Quem trai são pessoas. Figueiredo nunca disse os nomes de quem o traiu.

Carta CHAUÍ

"A mídia diz: Somos onipotentes e fazemos seu silêncio falar"
"Prezados alunos,soube, por alguns colegas professores, que muitos de vocês estão intrigados ou perplexos com meu suposto "silêncio". Digo suposto porque, como lhes mostrarei a seguir, essa imagem foi construída pelos meios de comunicação, particularmente pela imprensa. Na verdade, tenho falado bastante em vários grupos de discussão política que se formaram pelo país, mas tenho evitado a mídia e vou lhes dizer os motivos. Antes de fazê-lo, porém, quero fazer algumas observações gerais.1. Vocês devem estar lembrados de que, durante o segundo turno das eleições presidenciais, a mídia (imprensa, rádio e televisão) afirmava que Lula não iria poder governar por causa dos radicais do PT, isto é, pessoas como Heloisa Helena, Babá e Luciana Genro. Você não acham curioso que, de meados de 2003 e sobretudo hoje, essas pessoas tenham sido transformadas pela mesma mídia em portadores da racionalidade e da ética, verdadeiros porta-vozes de um PT que foi traído e que teria desaparecido? Como indagava o poeta: "Mudou o mundo ou mudei eu?". Ou deveríamos indagar: a mídia é volúvel ou possui interesses muito claros, instrumentalizando aqueles podem servi-los conforme soprem os ventos?2. Vocês devem estar lembrados de que, desde os primeiros dias do governo Lula, uma parte da mídia, manifestando preconceito de classe, afirmava que, o presidente da República, não tendo curso universitário nem sabendo falar várias línguas, não tinha competência para governar? Cansando dessa tecla, que não surtia resultado, passou-se a ironizar e criticar os discursos de Lula e seus improvisos. Não tendo isso dado resultado, passou-se a falar o populismo presidencial, isto é, a forma arcaica do governo. Como isso também não deu resultado, passou-se a falar num país à beira da crise, alguns chegando a dizer que estávamos numa situação parecida com a de março de 1964 e, portanto, às vésperas de um golpe de Estado! Como o golpe não veio (ele veio agora, sob a forma de um golpe branco), passou-se a falar em crise do governo (as divergências entre Palocci e Dirceu) e em crise do PT (as divergências entre as tendências).Penso que um dos pontos altos dessa seqüência foi um artigo de um jornalista que dizia que, na arma do policial que matou o brasileiro em Londres, estava a impressão digital de Lula, pois não criando empregos, forçara a emigração! Além de delirante, a afirmação ocultava: a) que aquele brasileiro estava na Inglaterra há cinco anos (emigrou durante o governo FHC); b) estavam publicados os dados de crescimento do emprego no Brasil nos últimos dois anos. Eu poderia prosseguir, mas creio ser suficiente o que mencionei para que se perceba que estamos caminhando sobre um terreno completamente minado.3. As duas primeiras observações me conduzem a uma terceira, que julgo a mais importante. Vocês sabem que, entre os princípios que norteiam a vida democrática, o direito à informação é um dos mais fundamentais. De fato, na medida em que a democracia afirma a igualdade política dos cidadãos, afirma por isso mesmo que todos são igualmente competentes em política. Ora, essa competência cidadã depende da qualidade da informação cuja ausência nos torna politicamente incompetentes. Assim, esse direito democrático é inseparável da vida republicana, ou seja, da existência do espaço público das opiniões. Em termos democráticos e republicanos, a esfera da opinião pública institui o campo público das discussões, dos debates, da produção e recepção das informações pelos cidadãos. E um direito, como vocês sabem, é sempre universal, distinguindo-se do interesse, pois este é sempre particular. Ora, qual o problema? Na sociedade capitalista, os meios de comunicação são empresas privadas e, portanto, pertencem ao espaço privado dos interesses de mercado; por conseguinte, não são propícios à esfera pública das opiniões, colocando para os cidadãos, em geral, e para os intelectuais, em particular, uma verdadeira aporia, pois operam como meio de acesso à esfera pública, mas esse meio é regido por imperativos privados. Em outras palavras, estamos diante de um campo público de direitos regido por campos de interesses privados. E estes sempre ganham a parada.Apesar de tudo o que lhes disse acima, fiz, como os demais (no mundo inteiro, aliás), uso dos meios de comunicação, consciente dos limites e dos problemas envolvidos neles e por eles. Exatamente por isso, hoje, vocês perguntam por que não os usei para discutir a difícil conjuntura brasileira. Tenho quatro motivos principais para isso. O primeiro, é de ordem estritamente pessoal. Os que fizeram meu curso no semestre passado sabem que mal pude ministrá-lo em decorrência do gravíssimo problema de saúde de minha mãe. Aos 91 anos, minha mãe, no dia 24 de fevereiro, teve um derrame cerebral hemorrágico, permaneceu em coma durante dois meses e, ao retornar à consciência, estava afásica, hemiplégica, com problemas renais e pulmonares. De fevereiro ao início de junho, permaneci no hospital, fazendo-lhe companhia durante 24 horas. Cancelei todos os meus compromissos nacionais e internacionais, não participei das atividades do ano Brasil-França, não compareci às reuniões do Conselho Nacional de Educação, não participei das reuniões mensais do grupo de discussão política e não prestei atenção no que se passava no país. Assim, na fase inicial da crise política, eu não tinha a menor condição, nem o desejo, de me manifestar publicamente.O segundo motivo foi, e é, a consciência da desinformação. Vendo algumas sessões das CPIs e noticiários de televisão, ouvindo as rádios e lendo jornais, dava-me conta do bombardeio de notícias desencontradas, que não permitiam formar um quadro de referência mínimo para emitir algum juízo. Além disso, pouco a pouco, tornava-se claro não só que as notícias eram desencontradas, mas que também eram apresentadas como surpresas diárias: o que se imaginava saber na véspera era desmentido no dia seguinte. Mas não só isso. Era também possível observar, sobretudo no caso dos jornais e televisões, que as manchetes ou "chamadas" não correspondiam exatamente ao conteúdo da notícia, fazendo com que se desconfiasse de ambos. A desinformação (como disse alguém outro dia: "da missa, não sabemos a metade"), não permitindo análise e reflexão, pode levar a opiniões levianas, num momento que não é leve e sim grave.Além disso, a notícia já é apresentada como opinião, em lugar de permitir a formação de uma opinião. Por isso mesmo, a forma da notícia tornou-se assustadora, pois indícios e suspeitas são apresentados como evidências, e, antes que haja provas, os suspeitos são julgados culpados e condenados. Esse procedimento fere dois princípios afirmados em 1789, na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, quais sejam, todo cidadão é considerado inocente até prova em contrário e ninguém poderá ser condenado por suas idéias, mas somente por seus atos. Ora, vocês conhecem o texto de Hegel [filósofo alemão, 1770-1831], na "Fenomenologia do Espírito", sobre o Terror (em 1793), isto é, a transformação sumária do suspeito em culpado e sua condenação à morte sem direito de defesa, morte efetuada sob a forma do espetáculo público. Essa perspectiva, como vocês também sabem, é também desenvolvida por Arendt [Hannah Arendt, filósofa alemã, naturalizada norte-americana, 1906-1975] e Lefort [Claude Lefort, filósofo francês] a respeito dos totalitarismos e seus tribunais, e para isso ambos enfatizam, na Declaração de 1789, o princípio referente à não criminalização das idéias, assinalando que nos regimes totalitários a opinião dissidente é tratada como crime.Assim, na presente circunstância brasileira, a impressão geral deixada pela mídia é da mescla de espetáculo e terror, tornando mais difícil do que já era manifestar idéias e opiniões nela e por meio dela.Meu terceiro motivo será compreendido por vocês quando lerem os artigos de jornal que inseri no final desta carta. Um artigo foi escrito antes da posse de Lula ["Desconfiança saudável", na Folha, em 8.dez.2002], alertando para o risco de uma "transição", isto é, um acordo com o PSDB. Os outros dois foram escritos em 2004, quando do "caso Waldomiro" [ambos na Folha: "A disputa simbólica", em 18.fev.2004, e "Em prol da reforma política", em 11.mar.2004]. Ambos insistem na necessidade urgente da reforma política. Os fatos atuais (ou o que aparece como fato) não modificam em nada o que escrevi há quase um ano, pelo contrário, reforçam o que havia dito e por isso não vi razão para voltar a escrever, pois eu escreveria algo ridículo, do tipo: "Como já escrevi no dia tal em tal lugar...". Ou seja, se meu segundo motivo me leva a considerar que não há a menor condição para opinar no varejo sobre cada fato ou notícia, o meu terceiro motivo é que, no que toca ao problema de fundo, já me manifestei publicamente.Resta o quarto motivo. Aqui, há duas ordens diferentes de fatos que penso ser necessário apresentar. A primeira, se refere ao ciclo "O Silêncio dos Intelectuais"; a segunda, à atitude da mídia. Há 20 anos, Adauto Novais organiza anualmente ciclos internacionais de conferências e debates sobre temas atuais. Sempre com um ano de antecedência, Adauto se reúne com alguns amigos para discutir e decidir o tema do ciclo. Participo desse grupo de discussão. Em abril de 2004, quando nos reunimos para decidir o ciclo de 2005, alguns membros do grupo (entre os quais, eu) preparavam-se para um colóquio, na França, cujo tema era "Fim da Política?", outros iam participar de um seminário, nos Estados Unidos, sobre o enclausuramento dos intelectuais nas universidades e centros de pesquisa, e outros iniciavam os preparativos para a comemoração do centenário de Sartre, símbolo do engajamento político dos intelectuais.Nesse ambiente, acabamos propondo que o ciclo discutisse a figura contemporânea do intelectual e Adauto propôs como título "O Silêncio dos Intelectuais". Uma vez feitos os convites nacionais e internacionais aos conferencistas, recebidas as ementas e organizada a infra-estrutura, Adauto fez o que sempre faz: com muitos meses de antecedência, conversou com jornalistas, passou-lhes as ementas, explicou o sentido e a finalidade do ciclo.Ou seja, no início de 2005, a imprensa tinha conhecimento do ciclo e de seu título. E eis que, de repente, não mais que de repente, durante a crise política, alguns falaram do "Silêncio dos Intelectuais", referindo-se aos intelectuais petistas! Curiosa escolha de título para uma matéria jornalística... ["O silêncio dos inocentes", reportagem da Folha em 19.jun.2005] Veio assim, sem mais nem menos, por pura inspiração. Mais curiosa ainda foi essa escolha, se se considerar que, ao longo de 2005, praticamente todos os intelectuais petistas (talvez com exceção de Antonio Candido e de mim) se manifestaram em artigos, entrevistas, programas de rádio e de televisão!!! Onde o silêncio? Como eu lhes disse, notícias são produzidas sem ou contra os fatos. E com as notícias vieram as versões e opiniões, os julgamentos sumários e as desqualificações públicas, culminando no tratamento dado ao ciclo, quando este se iniciou.A mídia decidiu que o ciclo se referia aos intelectuais petistas, apesar de saber que fora pensado em 2004, de ler as ementas, de haver participantes que não são petistas, para nem falar dos conferencistas estrangeiros. O ciclo virou espetáculo.Uma revista afirmou que, entre os patrocinadores (Minc, Petrobras e Sesc), estavam faltando os Correios. Uma outra afirmou que os participantes eram intelectuais do tipo "porquinho prático" (não explicou o que isso queria dizer). Um jornal colocou a notícia da primeira conferência (a minha) no caderno de política, sob a rubrica "Escândalo do Mensalão", com direito a foto etc.A segunda ordem de fatos está diretamente relacionada comigo. Quando publiquei o artigo sobre o "caso Waldomiro", um jornalista escreveu uma coluna na qual me dirigiu todo tipo de impropérios e usou expressões e adjetivos com que me desqualificava como pessoa, mulher, escritora, professora e intelectual engajada.Não respondi. Apenas escrevi o segundo artigo, sobre a reforma política, e dei por encerrada minha intervenção pública por meio da imprensa. A partir de então, além de não publicar artigos em jornais, decidi não dar entrevistas a jornais, rádios e televisões (dei entrevistas quando tomei posse no Conselho Nacional de Educação porque julgo que, numa República, alguém indicado para um posto público precisa prestar contas do que faz, mesmo que os meios disponíveis para isso não sejam os que escolheríamos). A seguir, veio a doença de minha mãe e, depois, a crise política como espetáculo.No entanto, paradoxalmente, não fiquei fora da mídia: houve, por parte de jornais, revistas, rádios e televisões, solicitações diárias de entrevistas e de artigos; a matéria jornalística "O silêncio dos Intelectuais", não tendo obtido entrevista minha, citava trechos de meus antigos artigos de jornal; matérias jornalísticas sobre o PT e sobre os intelectuais petistas traziam, via de regra, uma foto minha, mesmo que nada houvesse sobre mim na notícia.Finalmente, quando se iniciou o ciclo sobre o silêncio dos intelectuais, um jornal estampou minha foto, colocou em maiúsculas NÃO FALO (resposta que dei a um jornalista que queria uma entrevista quando da reunião dos intelectuais petistas com Tarso Genro, em São Paulo) e o colunista concluía a matéria dizendo que o silêncio dos intelectuais petistas era, na verdade, o silêncio de Marilena Chaui, o qual seria rompido com a conferência ["Ciclo expõe mal-estar e silêncio da academia", reportagem da Folha em 21/08/2005].Resultado: jornais e revistas, com fotos minhas, não deram uma linha sequer sobre a conferência, mas pinçaram trechos dos debates, sem mencionar as perguntas nem dar por inteiro as respostas e seu contexto, transformando em discurso meu um discurso que não proferi tal como apresentado.E entrevistaram tucanos (até as vestais da República, Álvaro Dias e Artur Virgílio!!!), pedindo opinião sobre o que decidiram dizer que eu disse! E os entrevistados opinaram!!! Num jornal do Rio de Janeiro e num de São Paulo, FHC disse uma pérola, declarando que por não entender de Espinosa, não fala nem escreve sobre ele e que eu, como não entendo de política, não deveria falar sobre o assunto. Como vocês podem notar, o princípio democrático, segundo o qual todos os cidadãos são politicamente competentes, foi jogado no lixo.Qual é o sentido disso? Deixo de lado o fato de ser mulher, intelectual e petista (embora isso conte muitíssimo), para considerar apenas o núcleo da relação estabelecida comigo. A mídia está enviando a seguinte mensagem: "Somos onipotentes e fazemos seu silêncio falar. Portanto, fale de uma vez!" É uma ordem, uma imposição do mais forte ao mais fraco. Não é uma relação de poder e sim de força.Vocês sabem que a diferença entre a ordem humana, a ordem física e a ordem biológica (para usar expressões de Merleau-Ponty [filósofo francês, 1908-1961]) decorre do fato de que as duas últimas são ordens de presença enquanto a primeira opera com a ausência. As leis físicas se referem às relações atuais entre coisas; as normas biológicas se referem ao comportamento adaptativo com que o organismo se relaciona com o que lhe é presente; mas a ordem humana é a do simbólico, ou seja, da capacidade para relacionar-se com o ausente.É o mundo do trabalho, da história e da linguagem. Somos humanos porque o trabalho nega a imediateza da coisa natural, porque a consciência da temporalidade nos abre para o que não é mais (o passado) e para o que ainda não é (o futuro), e porque a linguagem, potência para presentificar o ausente, ergue-se contra nossa violência animal e o uso da força, inaugurando a relação com o outro como intersubjetividade.Num belíssimo ensaio sobre "A Experiência Limite", Blanchot [Maurice Blanchot, escritor e crítico francês, 1907-2003] marca o lugar preciso em que emerge a violência na tortura de um ser humano. A violência não está apenas nos suplícios físicos e psíquicos a que é submetido o torturado; muito mais profundamente ela se encontra no fato horrendo de que o torturador quer forçar o torturado a lhe dar o dom mais precioso de sua condição humana: uma palavra verdadeira.NÃO FALO.Vocês já leram La Boétie [Étienne de la Boétie, filósofo francês, 1530-1563, amigo do filósofo Michel de Montaigne]. Sabem que a servidão voluntária é o desejo de servir os superiores para ser servido pelos inferiores. É uma teia de relações de força, que percorrem verticalmente a sociedade sob a forma do mando e da obediência. Mas vocês se lembram também do que diz La Boétie da luta contra a servidão voluntária: não é preciso tirar coisa alguma do dominador; basta não lhe dar o que ele pede. NÃO FALO.A liberdade não é uma escolha entre vários possíveis, mas a fortaleza do ânimo para não ser determinado por forças externas e a potência interior para determinar-se a si mesmo. A liberdade, recusa da heteronomia, é autonomia. Falarei quando minha liberdade determinar que é chegada a hora a vez de falar." (Marilena Chaui)