Monday, August 22, 2005

VIVA A CRISE!

Arnaldo Jabor
Viva a crise!
Acrise é boa. Nada melhor que uma crise para nos dar a sensação de que a vida muda, que a história anda, que a barra pesa. A crise nos tira o sono e nos faz alertas. A crise nos faz importantes pois, subitamente, todos se preocupam conosco — nós, a opinião pública, nós o “povo”, nós, os babacas que todos preferiam na sombra, na modorra e que, de repente, podem sair batendo panelas nas ruas. A crise nos inclui na política. Aliás, crise no Brasil é quando a política fica visível para a população. A crise é boa porque acabaram as crises cegas, radiofônicas, anos 50. Hoje as crises são “online”, na internet, nos celulares, com todas as sacanagens ao vivo, imediatas. A crise é uma aula, quase um videogame. A crise é um “thriller” em nossas vidas. A crise nos permite ver a verdade. Mas, como — se todos mentem o tempo todo? A crise nos ensina a ver a verdade de cabeça para baixo. Ensina que a verdade é o contrário de tudo que dizem os depoentes, testemunhas e réus. A verdade é tudo que os políticos negam. A crise é boa para conhecer tipos humanos. Temos de tudo — uma galeria de personas, de máscaras, de bonecos de engonço, de mamulengos, temos um “reality show” sobre o Brasil, temos o desfile de caras, de bocas, de mãos trêmulas, de risos e choros constrangidos, temos as vaidades na fogueira, os apelos à razão, temos os clamores de honradez, os falsos testemunhos, os tratamentos arcaicos, antigas gramáticas, temos as vossas excelências, as senhorias, vemos os alicerces do país aparecendo, a lama debaixo das dignidades, temos os intestinos, os pés de barro, os nós na tripa, temos os apêndices supurados, temos os miasmas que nos envenenam aparecendo sob a barra da saia de juízes e desembargadores, as sujeiras escorrendo sob as frestas da lei. E tudo vai diplomando o povo em ciência política. A crise é boa também para acabar com alegorias proletárias, com a crença de que operário teria um saber metafísico e santificado e mostra que para ser presidente tem sim que estudar e ter competência. A crise é também aula de teatro. A crise nos revelou a revolução dramática de Roberto Jefferson. Trata-se de um “Gargantua”, um ex-Pantagruel, um raro tipo rabelaisiano que se virou ao avesso e transformou merda em ouro, mentira em verdade. Jeff é o anti-herói heróico. Jeff conhece a boca do boi, a baba das coisas, a barra pesada. A verdade de Jeff tem a legitimação do crime assumido. Jeff suja a limpeza e não denuncia exceções, mas exibe a Regra. Crise também é cultura. A crise é Brecht, Shakespeare, Nelson Rodrigues. A crise tem até a casa da mãe Joana, Jeanne. Jeff nos mostrou que o crime político não é um defeito; é uma instituição. Jeff é a prova de tudo que Sérgio Buarque estudou. Se Jeff não existisse, tudo estaria rolando no banho-maria do PT e do Dirceu-2010. Ouso dizer: por vielas mal freqüentadas, Jeff fez um grande bem ao Brasil. Jeff faz dupla com Dirceu, seu alter ego, seu espelho. Não haveria um sem o outro. Dirceu desprezou Jeff e este o destruiu. A crise ensina que a salvação do país é destruir os esquemas que Jeff denunciou e que a destruição do país seria seguir o que Dirceu queria. A crise nos espanta: como um sujeito só como Dirceu consegue acabar com 25 anos de um partido, com um Governo e consigo mesmo? A crise nos ensina o horror do narcisismo totalitário. A crise ensina que os velhos “revolucionários” têm um comportamento parecido com os políticos oligárquicos. Ambos trabalham na sombra, na dissimulação, no cabresto dos militantes. A crise acaba com a mitificação do PT como o partido dos “puros”. Acaba essa bobagem alegórica e messiânica em que muito intelectual acreditou. A crise humaniza os petistas, pois os há honestos, românticos, corretos e os há também ladrões, medíocres, famintos e boçais. A crise vai reformar a idéia de “esquerda” no país. Vai criar uma esquerda mais verdadeira, mais útil, mais possível. A crise acabará com os fins justificando os meios, a crise acaba com o “futuro” e nos trará o doce, o essencial presente, a crise nos dá uma porrada na cara para deixarmos de ser bestas. A crise é boa porque acaba com as ilusões do povo. A crise é boa para gerar crise nas pessoas, crise existencial. A crise é boa porque desmoraliza a ópera bufa em que vivemos e traz a verdade da tragédia real. A crise acaba com a esperança e estimula a vigilância crítica. A crise ensina que ninguém é “revolucionário” ou “herói” ou “comandante supremo” ou “companheiro”; as pessoas são narcisistas, compulsivas, agressivas, dependentes, invejosas, fracassadas, com problemas sexuais. A crise ensina mais Freud do que Marx. A crise mostra que a velha esquerda não tem programa; tem um sonho. Que vira pesadelo. A crise ensina que muito mais importante que estudar a miséria do país é estudar a “riqueza” do país. A crise mostra que não adianta mostrar os horrores da miséria e dos despossuídos. São conseqüências da verdadeira miséria que nasce nos intestinos das classes altas. A miséria é a riqueza, a miséria é a própria política. A crise ensina que revolução no país tem de ser administrativa e não “de ruptura”. A crise ensina que nossa política é tão medíocre que nos últimos meses bastou a economia; política não fez falta. A crise mostra que o Brasil progride enquanto dorme. A crise nos mostra que a corrupção é terrível não pelo roubo de grana e de galinhas mortas. A corrupção é terrível porque impede a governança. A crise é boa pra mostrar a urgência da reforma do Judiciário; existe a Polícia Federal, o Ministério Público, mas tudo cessa quando cai na Justiça, a cama de todos os vícios. A crise mostra que o problema do país são os aparelhos do Estado que não estão mais preparados para governar. E prova que o presidencialismo de coalisão é impossível. A crise mostra que só uma forma de Parlamentarismo pode resolver nosso inferno.