Tuesday, August 23, 2005

O SILÊNCIO DOS INOCENTES

23/08/2005
O silêncio dos inocentes
Murillo de Aragão
Dentre os episódios que mais me causam estranheza está a postura da chamada inteligência brasileira frente a crise moral e ética do governo Lula. Entre declarações do tipo “não falo” de Marilena Chauí e notas sobre a depressão de Maria Conceição Tavares, constato pesaroso que se os inteligentes são tão alienados, talvez seja melhor ser burro no Brasil.

É trágico ver uma comunidade de inteligentes no Brasil ser tão fraca no quesito obrigatório para ser inteligente nos dias de hoje: a reflexividade. Vítima diária dessa comunidade por conta do engajamento ideológico. Ser intelectual é ser de esquerda e ter simpatia pelo projeto do PT. Era mais ou menos assim no passado recente.

Em nome de preferências pessoais e ideológicas, a interpretação da realidade e o decoro científico foram distorcidos a serviço de um projeto de poder. A reflexividade quase nunca esteve presente. A tal inteligência se enganou quando Lula adotou um receituário fiscal austero. Fechou os olhos, a boca e os ouvidos quando o partido promovia o loteamento da máquina pública, abusava do clientelismo e se esbaldava no fisiologismo.

Toleravam os desvios de conduta criticando o “conservadorismo” da política econômica. Capaz, em um cúmulo da cara de pau, dizer que a culpa do mensalão é da política econômica, do modelo capitalista, dos banqueiros e das elites carcomidas.

Parte expressiva da imprensa também foi na onda dos inteligentes, agora “inocentes”. Lula foi tratado como um menino promissor que, de vez em quando, errava por ser menino e não por ter, eventualmente, intenções maléficas. Ledo engano. Como vemos agora, o projeto político do PT foi feito sob pilares de lama e ruiu frente ao desafio de um escândalo de três mil “real”.

A comunidade de inteligentes foi seguidamente enganada ou enganou-se por não sentir o cheio que exalava da construção desse projeto político. Taparam o nariz em nome do social! Os fins justificam os meios. Outros desligaram a reflexividade em nome da preferência ideológica. Traíram miseravelmente a ciência! Agora, em meio ao tumulto da crise política, o “silêncio dos inocentes” é ensurdecedor.

Murillo de Aragão é mestre em Ciência Política, doutor em Sociologia pela UnB e analista sênior da Arko Advice (Análise Política).
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