Sunday, August 28, 2005

NÃO HÁ SALVADOR DA PATRIA

''Não há salvador da pátria''
Entrevista: Olavo de Carvalho
Os intelectuais brasileiros são desonestos. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva rouba. Os tucanos querem preservar o petista no poder para, com ele esquálido, vencerem as próximas eleições. A religião foi transformada num modo de manipulação política sórdida. A esquerda é um equívoco e a direita não existe, resume-se a uma meia dúzia de políticos que só pensam em proveito próprio. A política não resolverá os dilemas nacionais.
Não adianta querer definir ideológica ou politicamente o autor dos torpedos lançados acima. Pelo menos ele acha que não. “Sou Olavo de Carvalho e ponto final”. Autoreferido como jornalista, escritor e filósofo, emprestará semanalmente às páginas do Jornal do Brasil sua enfática retórica – que lhe permite tanto seguidores apaixonados quanto desafetos inconformados. Às quintas-feiras, Olavo de Carvalho assina uma coluna na página Outras Opiniões. Embora, de imediato, sublinhe que não tenha intenção de “levantar polêmicas” ou “provocar discussões”, Carvalho dedica grande parte do seu tempo a descortinar os políticos e intelectuais, duas das vidraças preferidas. Rejeita-os todos. Dos intelectuais, não vê condição para diálogo. Dos políticos, como quase todos os ex-comunistas, dirige sua crítica principalmente para a esquerda e, em especial, para o Partido dos Trabalhadores (PT).
“O presidente Lula perdeu uma grande chance”, afirma, ressaltando que se na crise atual o presidente “falasse a verdade à nação inteira” acabaria por tornar-se um “herói”. Para Olavo de Carvalho, o governo “tem que ser tirado imediatamente”. Motivo: o que fez vale por mil PC Farias – o tesoureiro de Fernando Collor de Mello. Lamenta, no entanto, que se os petistas saírem, nada há de bom para substituí-los. Os tucanos, afirma, são igualmente ruins.
A polêmica é parte integrante dos seus artigos. Basta ver o grau de reação dos que são contrários e favoráveis às suas idéias. O cultivo à polêmica é racional ou conseqüência de seu pensamento?
– Na verdade, não tenho intuito de levantar polêmicas, não tenho intenção de provocar discussões. Só digo o que acho. Quem quiser concordar, concorda. Quem não quiser, não concorda. Não me sinto mal com isso.
Não teme ser visto como alguém intolerante à discordância?
– Isso é uma grande bobagem, uma rotulação perfeitamente idiota. Eu mesmo, se alguém quiser discutir algum assunto, estou aberto. Não fui eu que tentei tapar a boca de ninguém. As pessoas que dizem isso são um bando de mentirosos, que defendem suas posições, injustamente conquistadas, por todos os meios, entre os quais as informações, as calúnias.
Mas essa sua exacerbação não inviabiliza qualquer diálogo frutífero?
– Nunca vi condição de um diálogo intelectual com nenhum deles. Não vejo honestidade na intelectualidade brasileira. Não existe meio de fazer esse diálogo, apesar de a necessidade ser urgente e absoluta. Há, no entanto, uma condição básica para um possível diálogo: sinceridade – o sujeito tem de dizer o que ele realmente está vendo e não o que convém para resultados políticos desejados. Assim não tem jeito de ter discussão. O que acontece é uma discussão eleitoral: cada um tentando impressionar quem interessa. Não pode. É tão desonesto que não tem como discutir. Intelectuais de esquerda existiram até a década de 60. O pessoal de hoje é todo comentarista.
O senhor é um crítico severo do PT e da esquerda. Frente à atual crise política, o governo Lula acabou?
– O governo não acabou. É o seguinte: o pessoal tucano não quer derrubar o Lula, quer mantê-lo no poder, em prejuízo do Brasil, para eles ganharem facilmente a próxima eleição. Ou seja, estão vendendo o país em troca de um sucesso eleitoral. Isso até nas forças armadas. Saiu uma notícia, mas não sei se o relato é verdadeiro, que eles preferem o Lula com a condição de que ele não tente a reeleição. Eles também estão tendo uma atitude oportunista. Não querem problema, estão pensando em suas próprias aposentadorias e que fique mesmo o Lula roubando. Todo mundo no país perdeu a vergonha. É só oportunismo, mentira, trapaça. Não é que os políticos estejam estragados. Acho que a sociedade está contaminada.
Pode-se falar num fracasso total?
– É difícil saber, afinal somos 180 milhões de habitantes. Há indivíduos de grande valor. Tem muita gente que serve, mas não são forças políticas. Nas forças políticas, tem aí esse petismo, a chamada esquerda radical, agora o P-Sol que já está promovido a posição de próxima moralidade. Se o PT já é ruim, imagina o que o P-Sol não vai ser. Há ainda os tucanos que só pensam em si. O PFL é uma coleção de acomodados e oportunistas que topa qualquer parada e entra em qualquer governo. É isso que nós temos, não há opção. O que existe de melhor no país não consegue ter inserção política e sequer cultural, porque o espaço foi dividido entre os barões do PT, que é a pior geração de políticos e intelectuais que já teve em toda a nossa história.
Então, qual seria o meio de se reverter esta situação?
– Não tenho a solução. Mas a reestruturação do país começa por cima. E por cima não é no governo. Por cima é na inteligência. Tem de ver quais são os focos geradores da corrupção mental. E os focos são três: Igreja, universidade e a mídia. Tem de começar por corrigir esses três. A Igreja no Brasil foi transformada num modo de manipulação política mais sórdido. Não sou contra participação de padre, pastor. Mas uma coisa é política, outra é manipulação. É maquiavelismo. A CNBB é culpada de ter entrado na política nesta base. A universidade perdeu a força. Isso foi culpa do governo militar. A válvula foi a universidade que foi entregue aos comunistas. Um raciocínio oportunista. A universidade não foi pensada no Brasil em termos de valores, de cultura. Foi formada em função de um maquiavelismo político que acabou com a universidade. E a mídia por sua vez é violenta. Não tanto no exercício da profissão, mas a partir das fontes culturais que formaram os jornalistas.
A direita brasileira parece se esconder. O senhor é de direita? Como a definiria?
– Não existe direita brasileira. O que se entende por direita brasileira são meia dúzia de políticos que só pensam em proveito próprio. Se o sujeito não tem interesse na própria corrente política que ele representa, é porque ele tá usando apenas essa corrente política como instrumento de voto. Dentro do espectro político que existe no Brasil, eu não tenho definição, não pertenço a nada. Se fosse um americano, seria o que eles chamam de “conservador moderado”. No Brasil, não tem referência política com a qual possa me identificar. Não adianta querer me definir. Eu sou o Olavo de Carvalho e ponto final.
Haveria alguma ideologia política para combater a crise?
– Não existe ideologia política que possa fazer isso. O que pode haver é um sistema democrático que funcione mesmo, pelo qual todas as correntes políticas tenham sua frente. Porém, de tal modo de que nenhum partido que chegue ao poder faça modificações tão profundas e radicais que o governo seguinte, de outro partido, não possa desfazer. No Brasil, o que o pessoal quer é uma solução definitiva, o problema é justamente esse. Não há salvador da pátria. Quando as modificações são tão profundas, não tem como voltar atrás, aí vira um desastre. No Brasil faz 50 anos que todos prometem modificações estruturais. Esse é o problema. O governo não foi feito para gerar estrutura do país, mas para administrar a conjuntura.
Qual o próximo passo no Brasil?
– Com a classe política que tem agora vai ser difícil. O que tem que fazer primeiro é quebrar a hegemonia da esquerda. O único pensamento único que existe agora. A idéia conservadora no Brasil está completamente proibida. Sendo que a direita é sombra, não existe. No momento, não há políticos conservadores, há intelectuais conservadores. Tem que reunir esse pessoal e formar uma geração de políticos conservadores, com seriedade. Por outro lado, tem que criar uma esquerda consciente de que ela nunca vai ter o poder total, que é para ela se alternar no poder com a direita. Um dos problemas é que quando chegam ao poder o querem eternamente.
A reeleição é negativa?
– O governo como está tem que ser tirado imediatamente, porque o que eles fizeram vale por mil PCs Farias. Tem que criar um governo provisório e uma eleição daqui a seis meses, sei lá. Não entendo tecnicamente dessas coisas. Mas tem que tirar esses camaradas. O problema é que ao tirar a esquerda não tem ninguém para ocupar. Quem pode ganhar são os tucanos, tão ruins quantos esses que estão aí. É uma sensação que chega a ser desesperadora.
O senhor acredita na possibilidade de impeachment?
– Não acredito que cheguem ao impeachment. Vai vigorar mesmo é esse acordo de manter o homem no poder. O que implica vender a constituição, as leis, o país, em troca de um arranjo político que vai favorecer os tucanos.
Muitos alegam essa como a forma de se manter a governabilidade.
– Existe governabilidade independente de crise. O pessoal não sabe que governar o país é a coisa mais fácil do mundo? O Brasil é um povo tranqüilo, que não faz revoluções. Esse negócio de alegar ingovernabilidade ... ai meu Deus. Ingovernabilidade pode ter lá na Palestina, mas no Brasil não. Isso é um espantalho para justificar os arranjos: PT permanecer no poder e PSDB ganhar as próximas eleições. Não creio que a solução para o Brasil possa vir pelo lado político.
E como fica o Brasil?
– Fica do jeito que está e nós temos que correr. Essa é a minha idéia. Estamos atrasados. Não dependemos do governo para isso. É uma espécie de apelo que estou fazendo aos intelectuais, aos jornalistas, aos padres, que são os guias mentais da comunidade. Esses que têm que melhorar primeiro antes de melhorar a política. A política tem que esperar, tem que ficar nessa confusão até a gente consertar a nós mesmos. Estou dizendo isso, mas não acredito que será feito. Lutei por isso durante 15 anos, mas não acredito mais que isso seja possível no Brasil. Perdemos a oportunidade.
O Lula também perdeu a oportunidade de reestabelecer o país?
– O Lula perdeu uma grande chance. Porque se nesse momento ele, em vez de varrer a poeira para debaixo do tapete, convocasse a imprensa nacional e falasse a verdade à nação inteira, se tornaria um herói. Aplicaria o discurso do “renuncio, porque errei”. O deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) fez um suicídio político e não perdeu nada com isso. Se o Lula fizesse um, não perderia também. Ele tem que confessar o erro. As pessoas não ficam com raiva de quem confessa. Tem situação que é melhor morrer com honra. Não acredito na sinceridade na esfera política, mas acredito que podemos conquistá-la via esfera intelectual. Sem sinceridade a mente paralisa. A saída é voltar e confessar seus erros. Não adianta tentar. Acredito na força da sinceridade. Mas sinto que estou sozinho nessa esfera da sinceridade. Tanto que não entendem o que estou fazendo.
http://jbonline.terra.com.br/ 28/08/2005