Tuesday, August 23, 2005

LAVANDERIA DO PT

Barcelona entrega a lavanderia
Ugo Braga e Lúcio Lambranho, Correio Braziliense (21/08/05)
Doleiro narra como esquentava o caixa 2 petista e o destino do dinheiro enviado ao exterior Da cadeia, Toninho escreveu bilhetes em hebraico para a mulherNo submundo dos doleiros paulistanos, o português é acessório. A língua usada para fechar negócios que realmente importam é o hebraico – dominado pela esmagadora maioria de judeus negociantes do mercado paralelo de divisas. Recorrendo a este código, o doleiro Antônio Oliveira Claramunt, mais conhecido como Toninho Barcelona, escreveu e enviou uma série de correspondências a sua esposa, Patrícia, durante o período em que esteve sob custódia da Polícia Federal, na capital paulista, em 2004. Em hebraico, nas cartas enviadas clandestinamente à mulher, Toninho escreveu fragmentos de uma história que, devidamente traduzida e reunida, revela ao país um escândalo de proporções amazônicas envolvendo figuras eminentes do PT, o partido do presidente da República.Nas últimas 72 horas, a reportagem do Correio conversou com pessoas que leram as cartas de Toninho para Patrícia. Alguns desses personagens participaram diretamente de uma operação secreta feita dentro da Casa de Custódia da Polícia Federal, na Zona Norte de São Paulo, para fazer os textos saírem da cadeia até seu destinatário. Cópias dessas cartas, todas enviadas por fax, estão guardadas com Patrícia Claramunt e com ex-companheiros de cela de Toninho. E servem atualmente como escudo contra pessoas que o vêm ameaçando de morte.TrilhaAs cartas de Toninho a Patrícia fornecem mais detalhes dos crimes que ele mesmo já havia confessado à Justiça num dos processos que respondeu, encerrado em fevereiro passado. Nele, Barcelona acabou condenado a dez anos, dois meses e 22 dias de prisão por evasão de divisas, lavagem de dinheiro, sonegação fiscal, formação de quadrilha, gestão fraudulenta e gestão de instituição financeira não-autorizada. Ele transformou uma agência de turismo numa corretora de câmbio clandestina.Conforme disse o próprio doleiro à CPI dos Correios no início da semana, esta extraordinária coleção de crimes foi posta a serviço de “membros do PT” entre 1998 e 2003. Entre outras coisas, segundo falou, serviu para esquentar sobras do caixa 2 da campanha eleitoral de 2002. O que não se sabia até agora era o caminho exato do dinheiro frio recolhido no Brasil, remetido para fora de forma ilegal, aquecido e repatriado numa roda da fortuna internacional.Segundo um economista que dividiu a custódia da PF com Toninho Barcelona, este circuito começava com a cobrança de propinas ou superfaturamento de contratos, como os de coleta de lixo ou obras públicas, nas cidades administradas pelo PT – Santo André, Campinas, Ribeirão Preto, São Paulo, Recife, Porto Alegre. E cresceu a partir de 2003 com operações nos fundos de pensão ligados às empresas estatais.O dinheiro dado “por fora” ao partido era encoberto com a emissão de notas fiscais frias de empresas ligadas ao esquema – Avencar Turismo Ltda., KLT Agência de Viagens, Appolo Câmbio e Lumina Empreendimentos Ltda. são as mais citadas. Estas notas eram entregues pelos doleiros – além de Toninho Barcelona faziam parte Raul Henrique Sraur e Richard André Waterloo – às empresas achacadas, que com elas poderiam justificar a saída contábil da propina de seus caixas.Mundo aforaA partir daí, iniciava-se uma cadeia financeira que podia ser percorrida ao longo de um único dia – operações chamadas day trade – via computadores de quem a operava. No máximo, começava num dia e acabava no outro. Geralmente o dinheiro da propina era arrecadado em espécie. Os reais eram depositados pelo então tesoureiro do partido, Delúbio Soares, receptor de toda a bolada, nas contas de laranjas dos doleiros. Que de pronto disparavam ordens de pagamento no exterior. No caso do PT, eles criaram uma trilha própria. Usavam duas empresas off-shores, chamadas Lisco Oversears e Miro Ltd., para mandar dinheiro de contas numeradas respectivamente no JP Morgan e no Citibank, ambos de Nova York. Nos trechos em hebraico das cartas a Patrícia Claramunt, segundo quem os leu, Toninho Barcelona fornece mais pistas do restante do caminho. Debitado da Lisco e da Miro, a bolada seguia para uma conta corrente da Naston Incorporation Ltd., off-shore sediada nas Ilhas Virgens Britânicas, paraíso fiscal caribenho. A Naston é uma sociedade célebre entre doleiros, pois pertence a Barcelona e a Alberto Youssef, dois dos mais conhecidos do mercado.Segundo informação divulgada pela revista Veja na edição que circulou ontem, trocas de dólares por reais, que oscilavam entre US$ 30 mil e US$ 50 mil, eram realizadas no gabinete do então vereador Devanir Ribeiro e integram outro braço do esquema petista. Nesse caso, o partido mantinha volumes consideráveis de dólares em dinheiro vivo, escondido em cofres ou malas ou cuecas, e acionava a casa de câmbio quando precisava convertê-los em reais. Em geral, quem ligava para a casa de câmbio Barcelona era o assessor legislativo da Câmara de Vereadores, Marcos Lustosa Ribeiro, filho do deputado Devanir Ribeiro. Ainda segunda reportagem da Veja, no início de 2002, as trocas eram esporádicas e ocorriam a cada dez ou 15 dias. No meio do ano, já estavam em ritmo alucinado, sendo quase diárias, e somavam cerca de R$ 500 mil por semana, segundo Toninho Barcelona.